Domingo, Março 13, 2011

Tron: O Legado, de Joseph Kosinski

Tal pai, tal filho. Excelentes gráficos, péssima história. Em 1976, Tron começou a ser desenvolvido por Steven Lisberger e Donald Kushner no seu pequeno estúdio, imaginado como um desenho animado mas, a Disney, ao analisar os storyboards, viu actores em ambiente virtual. Com Jeff Bridges e Bruce Boxleitner nos papéis principais, o filme estreou em 1982, revelando-se um sucesso de crítica e de bilheteira, ainda que o brilhantismo técnico fosse ofuscado pelo esquematismo narrativo. Flynn (Bridges), um hacker que acusava uma multinacional de software de ter-lhe roubado um código de programação, entra no sistema de segurança para encontrar provas e é sugado para dentro da rede, que descobre ser uma enorme cidade digital, habitada e controlada por um programa tirano. A evasão é difícil e conta com a ajuda de Tron, um exímio gladiador com a cara do seu programador (Boxleitner).
O aspecto do mundo virtual foi concebido por Moebius (Jean Giraud, o desenhador da BD Blueberry) e os veículos por Syd Mead (visual designer de Blade Runner, 1981), com as animações a cargo de várias empresas de gráficos por computador, contratadas separadamente. Os efeitos foram revolucionários para a época, a exigirem improviso e inovação, misturando grafismo por computador com imagem sobreposta e backlight, a técnica de dupla imagem mais em voga nos anos 70.
De 1982 para 2011, Bridges e Boxleitner envelheceram na mesma proporção que o mundo de Tron se expandiu, desdobrou, ganhou cor e tridimensionalidade. Infelizmente, o que a imagem pôde revolucionar não encontrou equivalente no enredo e cenários novos não compensam a estagnação do argumento. Edward Kitsis e Adam Horowitz, argumentistas de TV, (Felicity, Birds of Prey, A Vida Como A Conhecemos e Lost) passaram de Lost para Tron e perderam-se pelo caminho. Viram a simplicidade do original e encolheram os ombros, «os efeitos especiais tratam disto». Assim, em vez da surpresa e monumentalidade que foi o fenómeno Matrix (1999), reduziram-se a uma narrativa básica, decalcando a premissa do original: Flynn (neste caso, o filho, Sam), vai parar ao mundo virtual de Tron, é capturado pelo actual tirano, evade-se do campo de jogos com o auxílio de um programa corajoso e inicia o seu regresso, tendo de deslocar-se até ao portal que comunica com a realidade. Ipsis verbis.
O enredo está cheio de inconsistências. Sam Flynn descobre o pai, que não vê há vinte anos, exilado nas montanhas à margem da rede virtual, com uma serviçal que se vem a descobrir ter propriedades milagrosas (é um algoritmo isomórfico dotado de inteligência artificial e do aspecto de uma mulher bonita), sendo a rede controlada por um programa criado à sua imagem, Clu. Se Flynn criou Clu à sua imagem e o incumbiu de desenvolver o mundo perfeito, como é que este distorceu tanto o resultado: uma cidade medieval, controlada pela força, onde à população oprimida é oferecido escape através de violentos jogos conduzidos em arenas. Descartando-se da responsabilidade de infundirem sentido ao universo que conceberam, os argumentistas socorrem-se do Império Romano: um imperador, um exército, gladiadores e uma população anónima de programas informáticos que não se sabe para o que servem. A vida na cidade é uma incógnita, social e profissionalmente. Ou fica bem em 3D ou no chão da sala de montagem.
Flynn, eremita, assiste sem reagir, durante 20 anos. Muito zen, come, bebe (não se sabe que dados binários) e diz frases de bolinho da sorte, mas não faz nada para impedir a barbárie. Terá, aliás, assistido ao genocídio de uma inteligência artificial de aspecto humano, que Clu exterminou até ao penúltimo exemplar. É preciso chegar Sam para a reacção ter início. As explicações de Flynn sobre a construção do estranho mundo novo são superficiais e dúbias, como o são o reinado de Clu e a desaparição de Tron ( que afinal é Rinzler reprogramado?). O portal que conduz Sam à rede planta-o no coração da cidade digital, mas para regressar, o portal mudou-se para os confins da realidade virtual. O disco de Flynn tem informação perigosíssima, mas em vez de escondê-lo, transporta-o consigo; este disco pode ser um colector do histórico dos programas, mas não faz o menor sentido guardar informação de um humano (mesmo na rede, humanos e programas são diferentes, porque os humanos envelhecem e sangram e os programas não).
Por falar na condição humana, entre o 3D e as novas técnicas de reconhecimento facial, Jeff Bridges foi rejuvenescido para as cenas iniciais (passadas em 1982) e para o rosto de Clu, construído à sua imagem, mas o que fracassara em O Estranho Caso de Benjamin Button (2008), não progrediu. Desiludidos devem estar aqueles que, há dez anos atrás, afirmavam, a propósito de Final Fantasy: The Spirits Within (2001), que os actores de carne e osso ficariam sem emprego. Já para não falar que Brad Pitt tinha 40 anos de rugas e Jeff Bridges 60, o que dificulta visivelmente o efeito photoshop. Em certas expressões, Clu mais parece Hugh Jackman. Outra questão que se coloca é em relação ao próprio Tron que no original tinha o rosto de Bruce Boxleitner, mas só Bridges teve direito a sósia digital.
Os fatos dos programas informáticos seguem o modelo cristalizado em couro para os X Men (2000) e em matérias de silicone para G.I. Joe (2009), apenas com barras fosforescentes incrustadas. Os cenários são digitais e as câmaras 3D. A banda sonora que, no original, estava a cargo da(o) pioneira(o) da electrónica teclista Wendy (antes Walter) Carlos, está agora nas mãos dos Daft Punk, duo francês de synthpop de maior sucesso nos anos 90 do que nos 00, que apresenta ambientes sinfónicos (com uma orquestra de 85 elementos) pouco mais são do que soporíferos.
Tron: Legacy é isto, uma passageira experiência sensorial, totalmente dissociada do complexo conceito de narrativa interessante, que desilude assim que o efeito inicial atenua. A falta de uma história consistente desfaz a ligação entre os componentes e estes, uma vez órfãos, não garantem o entretenimento de uma longa-metragem. Além disso, a falta de acção é notória. Há uma cena de jogo com discos que se transforma em luta com motos-luz, uma curta e mal ensaiada pancadaria num bar e, perto do final, uma imitação da fuga da Millenium Falcon dos caças da Estrela da Morte (Star Wars, 1977). Tudo muito murcho. Na mesinha de cabeceira dos guionistas deveria ter estado A Arte da Guerra, de Sun Tzu, em vez da biografia do Dalai Lama.
Joseph Kosinski distinguiu-se na área dos anúncios de videojogos, mas estreia-se na realização. Desconhece-se o voto de confiança dado pela Disney, mas garantido está já o assento para dirigir o remake de O Abismo Negro (1979), também do estúdio. Quanto aos actores, Jeff Bridges dedicou-se mais ao o velho cowboy de Indomável (2010), pelo que despachou Flynn e Clu em piloto automático, na errada convicção de que os efeitos visuais ocultariam os defeitos. Garrett Hedlund e Olívia Wilde não apresentam dificuldades de maior e o papel de Michael Sheen era completamente dispensável, de tão fútil.
Tron: Legacy 2011

4 Comments:

Blogger Ricardo Lopes Moura said...

Logo de início, a Encom, uma empresa multi-milionária tem uma reunião especial com todos os membros da Direcção, onde vão apresentar o seu novo produto ao mercado. Nessa noite, há um único segurança de serviço que, quando faz rondas ou persegue suspeitos, deixa a sala de vigilância vazia.

Faz algum sentido?

3/13/2011 8:27 PM  
Blogger Mr. Red said...

Boa crítica. De facto, este filme é muito pobrezinho. Continua a surpreender como se gasta tanto em CGI e tão pouco em argumentistas (mesmo dando de barato que o público alvo são os adolescentes masculinos).

Cumprimentos,

3/15/2011 6:49 PM  
Blogger Magda said...

"Flynn, eremita, (...) Muito zen, come, bebe (não se sabe que dados binários)" - LOOOOL!

Concordo completamente com a parte das inconsistências... Aquela cena do comer e beber deu-me comichões mas pior foi mesmo a questão do portal ter mudado de sítio :P

Mas até gostei e, ao contrário de ti, apreciei bastante a banda sonora.

4/16/2011 11:56 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

visualmente estava interessante, mas o mundo do avatar tinha muito mais variedade e beleza.

4/19/2011 8:12 PM  

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