Segunda-feira, Março 07, 2011

Reviver o Passado em Brideshead, de Julian Jarrold

Reviver o Passado em Brideshead será eternamente recordado pela mini-série de onze episódios (1981), protagonizada e narrada por Jeremy Irons mas, antes disso, era já um bestseller de Evelyn Waugh, publicado em 1945. O livro, escrito durante a convalescença do autor depois de uma má aterragem de pára-quedas, na recta final da Segunda Guerra mundial, teve por missão abordar o catolicismo, religião à qual se tinha convertido, numa luz favorável, ao contrário do que era apanágio da época.
Através do olhar sobre uma família da alta aristocracia britânica, é conduzida a análise da percepção do cristianismo e respectivos rituais e dogmas, narrada de forma subjectiva por um ateu, oriundo da burguesia e com aspirações a artista, que convidam para o seu seio. Essa família tem imensas falhas, composta que é por um patriarca adúltero, uma mãe tirânica e três filhos sem personalidade, dos quais o primogénito é invisível, o outro é alcoólico e gay e a filha casa com quem a mãe lhe manda e acaba com um caçador de dotes divorciado; mas, no fim, todos parecem concordar que é mais reconfortante que a alma seja protegida por uma entidade divina do que não haver sentido superior para a alma humana. No epílogo, até o narrador parece ter-se convertido, ao benzer-se na capela de Brideshead.
Andrew Davies e Jeremy Brock tiveram a espinhosa tarefa de adaptar o romance, mas o peso do volume vergou-os, quando deveria ter sido o oposto. Em vez de se preocuparem com os personagens, dedicaram-se a esquematizar o maior número de cenas do papel para a película e congratularam-se com um resultado onde nada acontece porque deve, mas apenas porque estava escrito. Isso não invalidou algumas liberdades artísticas, todas para pior. O relacionamento entre Charles Ryder e Sebastian Flyte é, pela primeira vez, abertamente carnal, apagaram-se os dois filhos e a infidelidade da esposa de Charles, simplificou-se o casamento de Julia e Rex (Julia casou com ele por ordem da mãe, por ele ser católico, quando no livro o facto de ele ser divorciado os obriga a casar numa igreja anglicana, o que torna o casamento numa vergonha em vez de um sucesso de aparências), apresenta-se Charles como um pintor de sucesso quando este nunca o teve, etc.
David Yates abandonou o projecto, que entretanto reunira os actores Paul Bettany, Jude Law e Jennifer Connelly, para realizar o quinto filme de Harry Potter (… e a Ordem de Fénix, 2007) e entretanto foi contratado para realizar o sexto e as duas partes do sétimo. Julian Jarrold sentou-se no seu lugar e trocou o elenco. É estarrecedor ver, no lugar daqueles nomes que transmitiam segurança, Matthew Goode, Ben Wishaw e Halley Atwell. Não há Emma Thompson nem Michael Gambon que, com papéis tão secundários, floreiem esta miséria.
Julian Jarrold é daqueles nomes vindos da televisão, realizam um filme e deviam desaparecer, mas esse filme já tinha passado, foi A Juventude de Jane (2007), e provavelmente só a mera coincidência de período conduziu ao convite dos produtores. Uma pena não se terem decidido por Joe Wright, que já se passeara pelo género em Orgulho e Preconceito (2005) e Expiação (2007). Reviver o Passado em Brideshead é letárgico, não desenvolve os personagens (marionetas, sem vida própria, num aborrecido jogo de xadrez social), afoga-se em clichés e, para um filme sobre a religião católica, é desprovido de alma.
Brideshead Revisited 2008

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