The Mechanic – O Profissional, de Simon West
O Mecânico foi a segunda de seis colaborações entre Michael Winner e Charles Bronson. Em apenas três anos, o duo veria içarem-se os cartazes de Chato’s Land – Desforra Apache (1972), O Mecânico (1972), The Stone Killer (1973) e o mais famoso de todos, Death Wish – O Justiceiro da Noite (1974), que despoletaria quatro sequelas.

Por esta altura, Charles Bronson, de cinquenta anos, passeava já a sua imagem de marca sem pudor, tendo assegurado o estrelato na Europa, onde os EUA não se lhe tinham curvado, afirmando-se sozinho como o paradigma do duro de olhar impassível, punhos de aço e silêncio eloquente. Clint Eastwood já tinha sido Dirty Harry (A Fúria da Razão, 1971), mas precisava de empunhar uma .44 Magnum para lhe fazer sombra nos sapatos.

Para Lewis John Carlino, Mecânico foi a desilusão de uma vida. Ele e Monte Hellman, o primeiro realizador associado ao projecto, tinham trabalhado afincadamente na adaptação do seu livro homónimo, mas a relação entre o assassino a soldo e o seu aprendiz baseava-se num interesse abertamente homossexual e tanto estúdios como actores (George C. Scott o mais conhecido) o repudiaram. O produto final acabou por eliminar completamente essa faceta e a aliança entre os dois passou para uma de tutoria. Bronson fazia de assassino metódico, a trabalhar para uma organização secreta, mas a idade e o stress começavam a pesar-lhe. Homem sem amigos ou pessoas próximas, decidiu acolher um possível substituto, que conheceu no funeral do pai deste, que ele próprio assassinara. Seguem-se as lições, o treino, a prática e, no final, a traição. Este revés, contudo, não derivava do discípulo ter descoberto que o mestre o orfanara, mas deste ser, previsivelmente, sociopata.
Como nem Bronson nem Jean-Michael Vincent sabiam representar, a relação entre ambos foi tingida de desconforto, impasse e incredulidade. Bronson não convenceu como sofisticado conhecedor de vinhos e coleccionador de obras de arte, especialmente porque a equipa de maquilhagem se esqueceu de cortar-lhe o cabelo ou aparar-lhe o bigode; Vincent não convenceu de maneira nenhuma. O filme, que inicialmente esteve para ser representado por Cliff Robertson e Jeff Bridges, tentou apostar num certo glamour anos 70, ao estilo James Bond, mas falhou, revelando-se demasiado aborrecido e implausível.
Como nem Bronson nem Jean-Michael Vincent sabiam representar, a relação entre ambos foi tingida de desconforto, impasse e incredulidade. Bronson não convenceu como sofisticado conhecedor de vinhos e coleccionador de obras de arte, especialmente porque a equipa de maquilhagem se esqueceu de cortar-lhe o cabelo ou aparar-lhe o bigode; Vincent não convenceu de maneira nenhuma. O filme, que inicialmente esteve para ser representado por Cliff Robertson e Jeff Bridges, tentou apostar num certo glamour anos 70, ao estilo James Bond, mas falhou, revelando-se demasiado aborrecido e implausível.

Vinte e oito anos depois, o cinema de acção mudou. A verosimilhança foi substituída pelo aturdimento dos sentidos, com música explosiva e uma montagem demasiado rápida para a pressão ocular. Resultado de um acto executivo de fins puramente lucrativos, O Mecânico (2011) foi colocado na linha de montagem e a passadeira começou a rolar. A dar-se o braço a torcer, o argumento de Richard Wenk (16 Blocks, 2006) limou as arestas do original, apresentando maior solidez e concisão, permitindo seguir toda a história sem lhe encontrar incongruências (a não ser, talvez, o epílogo, mantido em consonância com o de Carlino).

Jason Statham ergue-se como o único herói de acção do século XXI abaixo dos 40 anos e a sua ascensão meteórica é prova de que o mundo queria um duro de olhar doce. Essa tem sido, aliás a imagem de marca do britânico que já foi nadador olímpico e vendedor de rua de artigos do mercado negro, antes de ser descoberto por Guy Ritchie (Um Mal Nunca Vem Só, 1998), e ter espantado com as suas habilidades atléticas em Correio de Risco (em trilogia) e Crank – Veneno No Sangue (duologia). Foi também o mercenário mais novo convocado por Stallone como bengala da sua brigada do reumático (Mercenários, de 2010).

Infelizmente, Jason Statham não é o actor ideal para encarnar Bishop, anteriormente interpretado por Charles Bronson, porque está longe de ser a reencarnação de impassível força bruta que Bronson foi e porque a persona que desenvolveu ao longo da última década não se adequa, precisamente porque, aqui, não lhe é dada a oportunidade de utilizar o seu charme inseguro. Bishop é um assassino frio do início ao fim e é difícil gostar dele. Ben Foster, pelo contrário, pagou bem ao alfaiate: o seu personagem, o discípulo de Bishop, nada tem a ver com a versão de Jan-Michael Vincent, mas tudo a ver consigo; se há actor que nunca teve um personagem normal, é ele. Mini Anden, manequim da Calvin Klein, é a prostituta/ namorada de Bishop; seminua e com pouco texto, é o ideal para quem está mais à-vontade em anúncios de perfume com escola em Chuck (três episódios). Donald Sutherland e Tony Goldwin ajudam a manter o nível.

O Mecânico é um filme de acção pouco exigente, adequado ao obreiro Simon West, que voou baixo em Con Air – Fortaleza Voadora (2008), deu osso e silicone a Lara Croft: Tomb Rider (2001) e mais valia não ter atendido a Chamada De Um Estranho (2006). Apesar de tudo, como entretenimento violento tipicamente norte americano (com acento nas intensas explosões de sangue digital), o filme satisfaz a parte do cérebro mais estimulada por máquinas de lavar roupa em modo de centrifugação.
The Mechanic 2011
O Evangelho Segundo Cinéfilo



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