Quarta-feira, Março 09, 2011

Hereafter: Outra Vida, de Clint Eastwood

Há muito que Clint Eastwood não fazia um filme tão soporífero. É certo que os tempos de Mystic River (2003) e de Million Dollar Baby (2004) não se têm repetido no trabalho do cineasta (já fez mais cinco filmes), mas o responsável por Imperdoável (1992) e As Pontes de Madison County (1995) está sempre a um passo de virar a mesa. Ou talvez a mesa comece a revelar-se demasiado pesada para o octogenário.
Confrontado pela sua própria mortalidade, Clint Eastwood decidiu acreditar que há alguma coisa para além do nada, mas não quis questionar-se demasiado sobre o quê. Infelizmente, o filme também não quis fazer grande coisa. O ser humano não gosta de acreditar que a sua existência é finita, pelo que fantasia possíveis caminhos para o pós vida. Haverá um deus, deuses, um céu e um inferno, reencarnação ou o fim da linha? É tudo uma incógnita e cada um acredita no que quer, mas Outra Vida limitou-se a deixar a porta aberta, sem iluminar minimamente o que está do outro lado. Entre o nada e o indefinido, avança com a vulgar teoria de que os médiuns são pessoas que estiveram entre a vida e a morte e que, por isso, têm uma janela mental através da qual os mortos comunicam com eles.
Três histórias diferentes acabam interligadas muito tangencialmente, com um final meloso e um desenvolvimento murcho. O filme abre com um Tsunami, mas perde imediatamente o fôlego e nunca mais o recupera. Em vez de serem pessoas animadas pelas redobradas possibilidades, os médiuns são amorfos, desiludidos e estigmatizados, sempre sujeitos à chacota, pois o seu dom, enquanto fonte de rendimento, está cercado de charlatães.
Os três personagens centrais são dois adultos ressuscitados (por assistência médica) e um menino normal. Uma jornalista que sobreviveu a um tsunami começa a ter visões e decide investigar outros casos de vidência (ainda que toda a sua pesquisa se baseie nos dados de uma única médica), um médium que decidiu deixar a profissão por cansaço e um púbere que quer notícias do irmão gémeo que morreu atropelado. Nenhum deles tem a carga emotiva ou empreendedora de levar a narrativa para a frente, mergulhando-a num ondular pastoso que não vai a lado nenhum.
O personagem do médium, por exemplo, é capaz de invocar espíritos pelo mero toque a alguém próximo deles, mas quando visita a casa museu do seu ídolo, Charles Dickens, nem sequer lhe ocorre tocar num objecto que pertenceu ao escritor, para poder conversar com este. São os vivos, e não os mortos, que o perseguem, para que faça de telefone entre eles e os seus entes queridos que faleceram sem deixar a combinação do cofre, aquilo que ele chama leituras (mas não envolve livros nem as linhas da palma da mão).
Peter Morgan é o homem por trás da história que interessou Eastwood. No currículo, tem inúmeros monarcas (de Henrique VIII às irmãs Bolenas, que andaram enroladas com Henry Tudor, passando pelos premiados O Último Rei da Escócia e A Rainha, ambos de 2006), deu-se bem com a política (Nixon/ Frost, 2008) e com o futebol (O Maldito United, 2009), mas aqui é um peixe fora de água. Deve ter dado à costa com o tsunami e o resto da trama aguentou-se em piloto automático. Até apodrecer.
Matt Damon e Cécile de France partilham o tempo de antena mais generoso, mas é a presença cativante de Bryce Dallas Howard que fica na retina, logo ela que tem recentemente tem desiludido tanto. A filha do realizador Ron Howard deu os seus passos mais importantes sob a batuta de M. Night Shyamalan (A Vila, 2004 e A Senhora do Lago, 2007), mas devia ter recusado participações em Homem-Aranha 3 (2007) e Crepúsculo: Eclipse (2010). Matt Damon está gordo e enfastiado; Cécile de France fabulosamente em forma, mas com umas olheiras como sacos de supermercado – a forma que demonstrou sob a batuta de Cédric Klapisch (A Residência Espanhola e As Bonecas Russas) está ausente.
Hereafter 2010

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