A Escalada, de Clint Eastwood
Em 1975, Clint Eastwood já contava com dez anos de iconografia de duro. Quebrara o molde do cavalheiro de Rawhide (série de TV de 1959 a 1965) com a trilogia dos Dólares de Sérgio Leone (os filmes estrearam na Europa em 1964, 1965 e 1966, mas os EUA viram-nos todos em 1967, com estreias em Janeiro, Março e Dezembro) e já se tornara o porta-estandarte da austeridade policial com A Pele de Um Malandro (1968) e Dirty Harry (A Fúria da Razão, 1971 e O Detective Em Acção, 1973). A sua produtora Malpaso abrira actividade em 1968 com o sucesso do western À Sombra da Forca e já realizara três filmes (Play Misty For Me – Destinos Nas Trevas, 1970, O Pistoleiro do Diabo, 1973 e o discreto Breezy, 1973) antes de A Escalada (1975).
Em 1974, depois de A Última Golpada ter dado ao actor Jeff Bridges uma nomeação para o Óscar de Melhor Actor Secundário e Eastwood ter ficado na sombra, desligou-se da co-produtora United Artists e empenhou-se em A Escalada , baseado no aclamado livro de espionagem de Trevanian (pseudónimo de Rodney William Whitaker). O filme falhou nas bilheteiras e Eastwood desligou-se da Universal, culpando-a de uma promoção deficiente e dos problemas nas filmagens. A parceria com a Warner Bros aguenta-se há 35 anos.
Hemlock é um professor de arte e montanhista, reformado da profissão de assassino, que volta ao serviço para uma última missão, a levar a cabo na montanha Eiger, nos Alpes Suíços, em troca de um raro quadro de Picasso. Para um filme de acção, a trama é demasiado enrolada e o ritmo arrastado. Só aos 45 minutos se iniciam os treinos de alpinismo e é preciso aguardar hora e meia pela escalada do Eiger (o filme tem 123 minutos).
Hemlock foi escolhido pela sua experiência como alpinista, mas ninguém sabe o aspecto do alvo, apenas que coxeia. Quando Hemlock se junta ao grupo de alpinistas, nenhum coxeia, mas acompanha-os na mesma (talvez o coxear só se note nas alturas?). Não se entende, também, como é que um alpinista experiente se veste para os treinos de camisa, calças de ganga, botas de cowboy e uma mochila a abarrotar de equipamento (ao segundo dia de treino já parece ter aprendido com calções e botas de montanha, mas a manga cavada de riscas horizontais é um fashion statement muito gay).
As montanhas têm sido palco de ocasionais filmes de acção, mas A Escalada não se destaca. O filme, originalmente pensado para Paul Newman, perde para Assalto Infernal (1993), com Sylvester Stallone bem assente no pódio. Nem o facto de Clint Eastwood ter prescindido de duplos nas cenas mais difíceis o redime do tédio infligido a um público que lhe confiou duas horas do seu tempo. Trevanan lamentou o resultado insípido e o fim para a possível adaptação do outro livro do personagem. Fica a curiosidade de um discurso, assaz pouco patriótico, que poderia ter carregado algumas sobrancelhas, se o público não estivesse já habituado ao seu azedume, quando diz que, com líderes como os da CIA, quem precisa de inimigos.
The Eiger Sanction 1975
O Evangelho Segundo Cinéfilo

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