Quinta-feira, Março 24, 2011

Aconteceu No Oeste, de Sérgio Leone

O género Spaghetti Western, ou coboiada italiana, encontrou o seu apogeu na trilogia Por Um Punhado de Dólares (1964), Por Mais Alguns Dólares (1965) e O Bom, O Mau E O Vilão (1967). O universo do cineasta Sérgio Leone era complexo, violento e realista, pontuado por sentido de humor e constantes reviravoltas. Catapultou Clint Eastwood (protagonista dos três filmes) para o estrelato e o êxito obtido nos EUA levou o próprio realizador a ser tentado pelos seus dólares, mas a indústria americana não queria que ele se metesse em histórias de gangsters (Era Uma Vez Na América, só concluído em 1984) antes de entregar um último western, género que ele queria deixar para trás.
Leone passou semanas a ver clássicos com os amigos Bernardo Bertollucci e Dário Argento, atirando o barro à parede em busca de inspiração. Quando esta começou a ganhar forma, já o compositor Ennio Morricone fazia parte do think tank, ao ponto de a banda sonora estar pronta antes do início das filmagens, o que ajudou os actores a familiarizarem-se com os temas criados especificamente para os seus personagens: a harmónica para Charles Bronson, o banjo para Jason Robards, as cordas para Cláudia Cardinali e o carrilhão para Henry Fonda.
Este pormenor ajuda a perceber que, mais do que a narrativa, a cargo de Leone e de Bertollucci, o realizador queria fazer um bailado de cascos e cordite, levando ao extremo as opções cenográficas encetadas na anterior trilogia e que ficariam como a sua imagem de marca, de longas perspectivas e intensos close-ups, conseguidas através das lentes esféricas da máquina de filmar techniscope, única capaz da proporção mítica 2:35:1.
A longa cena de abertura (dez minutos de genérico) ficará para os anais, pontuada por ruídos de fundo como um moinho de vento, uma goteira e a fita do telégrafo, enquanto três jagunços aguardam pacientemente a chegada do comboio e a vítima que virá no seu interior. A linha-férrea é, aliás, omnipresente, com o avanço da civilização a ser acompanhado da morte, e não só do romantismo equestre. O progresso não pára, especialmente à lei da bala.
O cinematismo continua na cena seguinte, onde a lúdica antecipação de um almoço em família é interrompida por gabardinas amarelas acompanhadas de revólveres apontados. O massacre inevitável introduz o vilão, apresentado que estava o herói na cena anterior.
A quarta cena é ainda mais surpreendente. Assiste-se à evasão fulminante de um criminoso perigoso, à guarda das autoridades, sem se ver absolutamente nada. Os sons da libertação chegam ao interior da labiríntica taberna onde as câmaras se encontram e mais nada pode fazer-se do que aguardar as consequências.
Aconteceu No Oeste, em oposição à trilogia dos Dólares, não é uma paródia aventureira, mas um lamento ao fim do Velho Oeste, um drama fatalista, um opus ultra-coreografado da decadência do género, visível nos cenários descascados e nas paisagens amarelas tisnadas pelo sol laranja, no som dilacerante e melancólico da harmónica que dá nome ao protagonista. A história desenvolve-se muito lentamente, tentando permanecer na sombra o mais possível, apresentando todos os intervenientes antes que faça o menor sentido. A partir daqui, percebe-se que a ganância de um e a vingança de outro são os motores antagónicos em tracção crescente, que necessariamente vão culminar num duelo final. Pelo meio, uma mulher fatal cobiçada por três homens.
O filme foi um fracasso nos EUA, como o foram os seus dois filmes seguintes, últimos de uma carreira iniciada em 1961, com O Colosso de Rhodes. Uma montagem determinada pela distribuidora escavacou as intenções de bailado do realizador e, se a história era secundária em Aconteceu No Oeste, o ritmo ficou coxo e a música perdida. Noutros países, a exibição da versão intacta atingiu um relativo sucesso.
Trabalhar com Charles Bronson e com Henry Fonda era um sonho antigo de Sérgio Leone, que tivera de conformar-se com Clint Eastwood e Lee Van Cleef, na primeira trilogia, por falta de orçamento. Leone tira partido de ambos actores, da masculinidade de Bronson e da inocência dos olhos azuis de Fonda, mas não há dúvida de que o filme, por mais parecido com uma sinfonia que seja, peca na condução narrativa. Ainda que sempre interessante e nunca aborrecido, nota-se um certo cansaço na dramaturgia a partir do momento em que as peças se encaixam e os propósitos se definem. Não se deixa de estar perante um épico de fôlego icónico, mas a energia da trilogia dos Dólares não foi recriada em Aconteceu No Oeste e nem um body count de 29 almas compensa o evitável arrastar de diversas situações. 
C’era Una Volta Il West 1968

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