Quinta-feira, Fevereiro 10, 2011

Um Funeral À Chuva, de Telmo Martins

Num país que continua a salivar por subsídios como um pedinte por esmola, Um Funeral À Chuva podia ser uma inspiração, mas acaba por revelar-se somente exasperação. É verdade que o seu orçamento foi alcançado através da contribuição dos próprios envolvidos e de muito trabalho à borla, mas em vez de nos regalarmos com isso (um filme feito apesar dos financiamentos lhe terem fechado as portas), fica o agudo lamento de uma oportunidade desperdiçada por falta de talento.
O realizador Telmo Martins e o argumentista Luís Campos quiseram fazer um Os amigos de Alex (Lawrence Kasdan, 1983) à portuguesa, mas esqueceram-se de que um filme não é um resumo de cinco linhas. Um grupo de antigos amigos da Universidade da Beira Interior reúne-se na Covilhã, dez anos depois, por ocasião da morte de um deles. Entre a noite do velório e o dia do funeral, deveriam trocar memórias interessantes do período que os juntou e fazerem a ponte entre esse tempo de idealismo e a desilusão da vida adulta, mas cada um parece viver na sua bolha vazia.
Primeiro, a causa de morte fica por esclarecer. Sendo João da idade dos outros, no início da casa dos trinta, seria um incontornável assunto de conversa. Um ataque de coração, um acidente rodoviário, gripe A, ninguém tem curiosidade? Outra incógnita é o seu percurso durante os 10 anos que separaram a formatura da morte. Apesar de estarem reunidos por causa dele, os amigos nunca o abordam para além de dois ou três episódios banais, passados durante o curso, dos quais fez parte mas não se destacou. Aliás, os highlights dessas memórias são o acto de magia de um deles fazer chover quando esta já cai e outro de fazer nevar sobre a Covilhã aviõezinhos de papel. Se o protagonismo destes actos pindéricos tivesse sido atribuído ao falecido ainda vá, mas nem isso.
O amadorismo de Um Funeral À Chuva é tão evidente que atravessa todas as fases da produção. A montagem, se esta não estivesse a cargo do inconsciente realizador, deveria ter dado os derradeiros sinais de alarme, antecipáveis desde o guião. Entre o que cortar e o que manter, obter-se-ia uma entediante curta-metragem mas, em comparação, um resultado menos criminoso. José do Nascimento, realizador de subsídios que já não dirige há quatro anos, é também creditado pela montagem, mas talvez se tenha limitado a ceder a mesa de mistura.
Ninguém parece ter pensado sobre o que queria do filme, para além de fazê-lo. Se o argumento deixa os personagens pendurados, pela falta de substância e de material (para a duração a que se exige), os actores revelam-se constrangidos na sua prestação, sem as muletas imprescindíveis à sobrevivência do que já vem doente do papel. A naturalidade de Alexandre da Silva, a artificialidade de Pedro Górgia, a beleza de Sandra Santos, a nulidade de Luís Dias, a respiração à Darth Vader de Hugo Tavares, chega tudo envolto em embaraço e na clara ausência de uma direcção de actores definida para além do «faz como te parecer melhor e será o que calhar».
Em dez anos, pouco mudou. Todos fumam charros (menos o que se tornou professor, mas a pressão dos pares fá-lo abrir uma excepção), nenhum se realizou profissionalmente ou se casou (não se sabe se o namoro dos dois gays é recente). Ignora-se porque é que o professor se mostra tão incomodado com os episódios triviais com que os outros recordam o morto; estamos sempre à espera de uma qualquer revelação que nunca chega, também será gay? Os silêncios desconfortáveis do elenco, são outra desgraça, e os risos forçados à mesa, quando as histórias do tempo de faculdade são contadas por analepses, a incluir na pós produção, ficando aos actores a tarefa ingrata de se rirem por instrução.
Um Funeral À Chuva é constrangedor. Os personagens têm a mesma idade, mas os actores vão dos vinte e poucos aos trinta e tal e nota-se, não há bigode que esconda que é o primeiro. A mãe do João não tem idade para tal e as palavras que diz na elegia são anedóticas: «Todos os que estão aqui presentes e que o conheciam saberão com certeza como ele era capaz de preencher espaços»; talvez fosse calceteiro ou ladrilhista. O moralismo encapotado também era evitável. A bela Sandra Santos vem ao funeral de mini-saia e decote revelador, mas sente-se frustrada por não ser levada a sério como actriz, por ser apresentadora de um programa de adivinhas e jogos de palavras; aproveita o final para erguer o queixo ao despedir-se desse emprego, veiculando assim a mensagem às profissionais da área que dar a cara pela meteorologia ou por programas de jogos é pouco diferente de se prostituírem.
Que Um Funeral À Chuva sirva, ao menos, de lição às novas gerações da sétima arte portuguesa. Querer fazer filmes é louvável, mas só se houver um projecto coeso, estruturado, interessante, para oferecer. Com esta pobreza, não se aprende, nem se é entretido.
Um Funeral À Chuva 2010

2 Comments:

Blogger Miguel Rocha said...

Talvez das melhores críticas que já li até hoje. Foi aqui dito o que sempre pensei mas nunca consegui exprimir.

2/10/2011 4:13 AM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

Obrigado, Miguel.

Follow my blog e vais ler boas críticas quase diárias. conta-me, como chegaste até aqui?

2/10/2011 7:57 PM  

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