O Rei Dos Lutadores, de Gordon Chan
Se pior do que mau é péssimo, será necessário inventar uma nova palavra para O Rei Dos Lutadores. Para quem não acreditava que Mortal Kombat (1995) fosse uma obra-prima, a comparação fá-lo-á mudar de ideias.

Quanto ao elenco, pode começar-se por Maggie Q. Mistura de polaco, irlandês e vietnamita, tem aproveitado os seus traços orientais em filmes de artes marciais de Hong Kong feitos a martelo, excepção de Missão Impossível 3 (2006) e Die Hard 4 (2007). Actualmente, é a personagem central da série Nikita (2010), baseada no sucesso de Luc Besson (1990) que já despoletou uma série homónima (1997) e inspirou a série Alias (2001) de J.J. Abrams. Neste contexto, a actriz Jennifer Garner (de Alias), tinha um corpo maravilhosamente definido e atlético, que a tornava credível como agente secreta, com conhecimentos técnicos efectivos de combate. Maggie Q não aparenta ser mais do que uma manequim (foi top model na China) esquelética com medo de partir uma unha, senão mesmo estilhaçar-se como um vaso de porcelana. Essa contradição funcionou em Não Me Toques Nas Bolas (2007), exclusivamente por tratar-se de uma comédia.

Sean Faris podia ser o novo Tom Cruise, mas representar não é o seu forte, até porque tem os maxilares presos, com tudo o que diz a sair-lhe entre dentes. Da série Life As We Know It (2002), passou para Reunion (2005), mas na sétima arte deixou apenas uma breve centelha em Never Back Down (2008), curiosamente um filme de MMA, onde até não fazia má figura. O mesmo não se pode dizer de O Rei Dos Lutadores. Will Yun Lee, filho de um mestre de Tae Kwon Do, é um coreano visto em 007 – Morre Noutro Dia (2002) e em Elektra (2005), mas que tem passado os últimos cinco anos num estupor. A fechar o ramalhete, Ray Park, que A Ameaça Fantasma (1999) tentou lançar como o grande artista marcial branco, mas tal não passou de maquilhagem maori vermelha e preta. Curtas aparições em X Men (2000) e Balística (2002) e era uma vez uma miragem que não chegou a ser uma estrela. A sua altura não ajudou.

O realizador, Gordon Chan, para além de fornadas de filmes de artes marciais em Hong Kong , aventurou-se nos EUA com O Medalhão (2003), com Jackie Chan e Claire Forlani. Não é um bom exemplo de criatividade, e muito menos O Rei Dos Lutadores, vergonhoso pedaço de insólito onde todos os envolvidos têm culpa no cartório. O guião asinino, o casting, a ausência de direcção de actores (aliás, ausência de actores), a aborrecida coreografia dos combates e a sua pior execução, a direcção de fotografia lamentável e a banda sonora assenta em faixas techno.

O elenco debita as suas falas de modo indiferente e átono, fazendo com que estas, de tão absurdas, se anulem a si mesmas. Existe uma realidade alternativa onde se realizam combates de artes marciais por mero desportivismo, mas um lutador quer sagrar-se campeão e ditador dessa dimensão do torneio (chama-se mesmo assim) e as lutas tornam-se mortais. Para derrotá-lo, dois clãs têm de escolher o seu favorito para um combate decisivo. De um dos clãs, o eleito é um cobarde e do outro um americano que nunca combateu na vida, mas que é o único membro do clã vivo. Esse americano tem um nome japonês e uma foto no seu desktop mostra-o com os pais em menino, época em que tinha feições asiáticas. Apesar de o mau derrotar diversas vezes «os bons», por alguma razão escolhe não os eliminar, para que possam voltar à carga e falhar, voltar à carga e falhar, voltar à carga e falhar até finalmente o derrotarem pelo cansaço.

Nota incontornável para a urgência em derrotar o vilão. Apesar de este já ter causado inúmeras vítimas e pretender libertar um poder maligno capaz de dominar e escravizar a nossa realidade, aqueles que tomaram por missão impedir a concretização desse plano diabólico não têm pejo em fazerem-no ao ralenti, inclusivamente deixando para o dia seguinte (quando já contam com diversos dias de atraso) medidas que deviam ser tomadas de imediato.

O filme baseia-se na série de jogos de computador O Rei Dos Lutadores, lançado em 1994 e que contou até 2003 com sequelas anuais, passando a partir daí a despoletá-las com numeração romana. Sem uma história concreta ou cronologia, os jogos limitam-se a atirar para o ringue todos os lutadores dos diversos jogos da empresa japonesa de videojogos SNK, com a inovação de permitirem combates de equipas até quatro membros, em vez de lutas individuais ou de duplas. Os jogos foram complementados por animés e agora esta adaptação em carne, osso e CGI de baixo orçamento.

Num filme deste género, há apenas dois compromissos a respeitar: os actores têm de levar-se a sério e a acção convincente. No limite, desde que assegure o último ponto, parte da aposta está ganha. O Rei dos Lutadores fracassa em toda a escala, o que é particularmente lamentável quando a fasquia já era tão baixa.

King of Fighters 2010
O Evangelho Segundo Cinéfilo

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