Quarta-feira, Fevereiro 02, 2011

O Discurso do Rei, de Tom Hooper

Daniel Day-Lewis teve um pé esquerdo, Dustin Hoffman um autista, Sean Penn um atrasado mental e Colin Firth tem agora o seu deficiente, sem problemas nas mãos para que o actor possa fazer figas até à noite dos Óscares, depois de ter deixado escapar uma estatueta o ano passado, por Um Homem Singular (2009). Curiosamente, o guião de O Discurso do Rei foi concebido com Paul Bettany em vista, que declinou o papel.

História calorosa sobre um príncipe com um grave problema de gaguez, O Discurso do Rei versa sobre os anos que precederam a coroação do Rei George VI, pai de Elizabeth II. Ainda Príncipe de York, Bertie experimenta uma radical terapia de voz, ao cuidado de um modesto e pouco ortodoxo especialista australiano, e a amizade aí firmada permitiu-lhe fazer com dignidade o discurso à nação mais importante da sua vida, a declaração de guerra à Alemanha Nazi.

David Seidler, também ele gago, escreveu o enredo de forma deliciosa, enternecedora, cativante e humorística, os actores imprimem-lhe severidade e Tom Hooper (Maldito United, 2009) determina-lhe o ritmo. Se esquecermos que Colin Firth está apenas a ser igual a si próprio se fosse gago, a sua interpretação poderá ser apreciada pela subtileza e gregoriana nobreza com que simulou tormentos e angústias de uma vida inteira de embaraço e humilhação, elevadas ao expoente real, que, com muita vergonha, vai enumerando entre dentes.

Colin Firth vê-se, assim, entalado entre dois australianos, os brilhantes Geoffrey Rush e Guy Pearce, aos quais se junta a dicção perfeita do irlandês Michael Gambon, que em 1992 converteu a língua do Comissário Maigret (da prosa de Georges Simenon) para a de Sua Majestade. Helena Bonham-Carter é a Rainha Elizabeth e teve o natural privilégio de as filmagens terem sido estruturadas em redor da sua agenda, já que filmava em simultâneo as duas partes de Harry Potter E Os Talismãs da Morte (2010/2011). Timothy Spall repete a personagem Winston Churchill, depois de Jackboots On Whitehall (2010), uma escolha insólita em ambos casos.

Com todo o visível sacrifício que foi para George VI obter uma voz consistente, fica a questão: porque é que um rei não pode ter um porta-voz, alguém acreditado que fale por ele? De qualquer modo, já valeu a pena por este filme, sobre uma família disfuncional sustentada pelos impostos dos ingleses, com um rei que teve de abdicar do trono para casar com uma divorciada americana (Eduardo VIII, irmão mais velho de George, o actor Guy Pearce, sete anos mais novo que Colin Firth) e outro que teve de esperar uma vida inteira para fazer um discurso como deve ser.

The King’s Speech 2010

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