Jogo Limpo, de Doug Lyman
Os últimos sessenta anos da política externa norte americana são feitos de contradições entre a aparência democrática e as manobras imperialistas de bastidores. Fair Game é um mero episódio ilustrativo que, ao ser filmado como uma vulgar história de espionagem, em vez de um filme de denúncia, assemelha-se mais a uma peça de ficção.

Pela calada, o mundo habituou-se a que os Estados Unidos façam o que querem, sob a capa da liberdade e da democracia, escondendo maquiavélicos planos de hegemonia económica, política e militar. Assim aconteceu na Guerra Fria contra o Comunismo do Bloco Soviético, Cuba e no Médio Oriente, com o apoio da CIA às juntas ditatoriais da América do Sul e Indonésia nos anos 70, o endividamento da Polónia ao FMI em 1989, o apoio da Escola de Chicago de Milton Friedman à China a dois meses do Massacre de Tiananmen e as investidas directas contra o Iraque, por Bush Pai e Filho. Sedenta dos poços de petróleo de Saddam Hussein, a Casa Branca aproveitou-se do abalo sociológico da queda das torres gémeas de Nova Iorque para empurrar uma súbita invasão ao país que alegadamente albergava o terrorista Bin Laden e estaria na posse de armas de destruição maciça. Essa investida político-militar, sabe-se hoje, assentou em dados fabricados e informações fictícias, compiladas pela CIA através de maquinações das mais altas esferas, que ainda enriquecem à custa da reconstrução do Iraque.

Quando o diplomata Joseph Wilson IV se apercebeu, em 2002, de que era apontado como a fonte de provas de que o Níger fornecera urânio para a construção de armas nucleares ao Iraque, apesar do relatório que entregara à CIA indicar o oposto, compreendeu a desonestidade das intenções da Casa Branca. Ao delatar a situação num artigo de opinião do New York Times, o escândalo foi tal que a Casa Branca retaliou, revelando ilegalmente a identidade da sua esposa, Valerie Plame, como agente secreta da CIA. Esta operação teve por objectivo desacreditar as afirmações do ex-embaixador e virou do avesso a vida do casal.

Baseado no livro auto-biográfico de Valerie Plame, Jogo Limpo desenvolve-se como um thriller de Tom Clancy, mas rapidamente perde ímpeto. Lê-se muita indignação nas entrelinhas, mas não se sente medo pelos personagens. Sem risco de vida, o filme marina na missão de acusar e imputar, com algum enquadramento através de imagens de arquivo com intervenções públicas do presidente e do seu gabinete. Mas as técnicas de branqueamento da opinião pública continuam a funcionar. Ninguém foi exonerado do seu cargo, a não ser alguns bodes expiatórios, que o filme tenta fazer passar por culpados. Em vez de Richard Armitage, Chefe de Gabinete do Vice-Presidente Dick Chaney, o guião transferiu a raiz do mal para o seu assistente, Scooter Libby, condenado criminalmente em 2006 pela exposição da identidade de Valerie Plame, mas perdoado pelo próprio Presidente.

O timing de Jogo Limpo também não joga a seu favor. Michael Moore, em 2004, montou à pressa Farenheit 9/11, com o intuito de travar a reeleição de George W. Bush, e Eugene Jarecki preferiu esperar pelo fim do fogo cruzado para estrear Porque Lutamos? (2005), o seu inflamado e bem estruturado documentário sobre todas as guerras que os EUA, ilegitimamente, provocaram. Jogo Limpo chega com a poeira mais do que assente, a apregoar o óbvio. Suponho que mais valha tarde. Naomi Watts e Sean Penn são os protagonistas; os seus nomes evitam que o filme passe despercebido, mas as suas interpretações não trazem nada de novo.
Fair Game 2010
O Evangelho Segundo Cinéfilo

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