Quarta-feira, Fevereiro 23, 2011

The Heavy, de Marcus Warren

Marcus Warren não estava preparado para escrever nem para realizar The Heavy, especialmente porque a história até poderia ter sido interessante se não se arrastasse em frivolidades dispensáveis e atacasse de forma incisiva o cerne da trama, sobre o qual opta por libertar meros reflexos difusos, através da técnica da não linearidade, até ser tarde demais para compensar. Por outro lado, a história revela-se tão estúpida, se realmente se pensar nela, que mais vale que só se veja através da areia que nos é atirada para os olhos.
Boots (Gary Stretch) trabalha como cobrador de dívidas para um empresário com negócios escusos. É um duro, que passou dez anos na prisão por ter morto alguém. Foi o testemunho do irmão que assegurou essa sentença e ele nunca lhe perdoou. Agora, o irmão precisa de uma doação de medula e Boots não está disposto a fazê-lo. Então, duas ramificações da trama parecem nunca se tocarem a não ser no mal explícito e pouco eloquente desfecho.
A ideia que Marcus Warren não conseguiu transmitir coerentemente para o papel ou para a tela é a seguinte: o irmão de Boots (Adrian Paul) é candidato a Primeiro Ministro britânico e congemina um plano lateral para ser eleito. Primeiro, informa o irmão de que tem uma doença terminal, que lhe dá apenas alguns meses de vida, e pede-lhe uma doação de medula. Depois, incumbe o empregador de Boots de lhe dar a missão de assassiná-lo e um inspector da polícia (que tem um ódio figadal por Boots) de investigar a suspeita de atentado. Isto acontece sem o conhecimento do público. Entretanto, as peças vão encaixando: o irmão põe-se em posição para o assassinato e o inspector vem impedi-lo. A amante do irmão, a viver nesse apartamento, deveria ter sido eliminada como dano colateral, e tudo se precipita.
Gary Stretch já teve mais estilo. No início dos anos 90, foi um pugilista de respeito, arrancando 23 vitórias em 25 combates, 14 dos quais por KO. Na mesma época, foi modelo de passerelle e encheu a sua quota-parte dos tablóides britânicos. Entretanto, foi tendo pequenas participações em filmes, a maior parte dos quais directamente para vídeo. Em 2004, participou em Alexandre, de Oliver Stone. Aos 43 anos, pode considerar-se uma versão magra e grosseira de Pierce Brosnan, sem o cabelo ou o sorriso. O seu talento não é suficiente para conduzir o filme, mas também não é responsável por arrastá-lo, sendo misterioso e natural o suficiente para uma carreira como secundário (que já tem). O resto do elenco é desequilibrado, mas vale pela curiosidade de ver como andam as carreiras de Adrian Paul (o Duncan McLeod da série Highlander), Christopher Lee (o célebre vampiro da Hammer), Stephen Rea, Vinnie Jones, Shannyn Sossamon, Lee Ryan (da boysband Blue) e Sadie Frost (ex-mulher de Jude Law).
O maior problema de The Heavy não está no cozinhado, mas nos ingredientes. O irmão de Boots pretende que este seja morto antes que consiga levar a cabo o atentado e depois de matar-lhe a amante. Mas o que ia ele lucrar com o escândalo? Lamenta-se a falta de acção e recorda-se a banda sonora do DJ Paul Oakenfold.
The Heavy 2010

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