As Viagens de Gulliver, de Rob Letterman
Feio, gordo e bonacheirão, Jack Black continua a dedicar-se às mesmas comédias brejeiras e juvenis em que faz de inútil e tenta arrancar alguns sorrisos amarelos com a sua exuberância. Desta vez, a vítima é o famoso livro de Jonathan Swift, As Viagens de Gulliver, que até já tem versão áudio narrada por Hugh Laurie (o Dr House da série homónima). Poderia dizer-se que a adaptação é livre, mas não há adaptação nenhuma, apenas o aproveitamento abusivo de duas encenações sobejamente conhecidas: a de um país onde os habitantes cabem nos bolsos de um humano e outra onde os humanos são do tamanho de bonecas. O livro apresentava-nos um cirurgião de navio e as suas aventuras inteligentes, enquanto que este filme se fica pelo humor idiota de um distribuidor de correio interno que se faz passar por crítico de viagens. Para além de mal agradecido, já que não há nenhuma referência ao escritor.

Para além de Jack Black, também se dá à corda de Jason Seger, Amanda Peet e Emily Blunt, todos em piloto automático. Os Lilliputianos são grandes engenheiros, mas as suas engenhocas parecem saídas do velho Wild Wild West (1999), o filme que reformou antecipadamente Barry Sonnenfeld. Desta feita, temos Rob Letterman atrás das câmaras, ele que até agora se tinha dedicado a animações por computador (Shark Tale, 2004 e Monstros vs. Aliens, 2009) O orçamento não se preocupou muito com a credibilidade, já que os efeitos visuais são tão duvidosos que há sobreposições de imagens, através de ecrã verde, que até se esquecem de ajustar a iluminação, ficando claro que foram filmadas em momentos diferentes (o banquete é um exemplo flagrante).

Episodicamente, há momentos inspirados: o jogo de matrecos com lilliputianos verdadeiros, a recriação do Titanic e da cena mais marcante do Império Contra Ataca num mini teatro, o transformer, a menina gigante pôr Jack Balck de vestido a beijar um Ken e a existência de um verdadeiro Top Gun na casa das bonecas. Mas também há incoerências como a invasão por parte da armada dos Blefúscios, onde o general Edward inviabiliza a defesa do reino, de modo a que Gulliver seja morto pelos invasores, mas esquece-se de que seria feito prisioneiro, assim como a princesa, e o reino pilhado.

Gulliver’s Travels 2010
O Evangelho Segundo Cinéfilo

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