Quarta-feira, Janeiro 05, 2011

Scott Pilgrim Contra O Mundo, de Edgar Wright

Scott Pilgrim Contra O Mundo baseia-se nos seis volumes das graphic novels de Bryan Lee O’Malley, apesar de tomar especificamente o título do segundo volume. Michael Bacall e Edgar Wright trabalharam no argumento durante anos, o qual foi tomando forma quase em paralelo aos livros, com avanços e retrocessos, numa colaboração tal com O’Malley que diálogos que foram retirados do guião vieram a integrar a banda desenhada. Wright é o realizador de Shaun of the Dead (2004), Hot Fuzz (2007) e um dos falsos trailers de Grindhouse (Don’t, 2007), que dá aqui um passo de gigante.

Scott Pilgrim Contra O Mundo é uma espécie de American Splendor e Ghost World, energizado com esteróides de animé e Sin City, esquizofrenia, nonsense, referências a videojogos de Castlevania a Super Mário Bros e ao universo musical de Ramones a Smashing Pumpkins.

Epiléptico e espasmódico, Scott Pilgrim Contra O Mundo avança por um universo masturbatório adolescente, a relatar uma história que podia perfeitamente passar-se exclusivamente na cabeça do seu promotor. Scott Pilgrim, 22 anos, descobre que a rapariga dos seus sonhos é de carne e osso e está decidido a conquistá-la; mal imaginava ele, porém, que ela está amaldiçoada e terá de enfrentar os seus sete ex-namorados malignos (entre os quais se encontram Chris Evans e Brandon Routh, actores que já representaram, respectivamente, os seuper-heróis Tocha Humana e Super-homem, no cinema) em duelos até à morte. Além disso, tem à perna uma adolescente de 17 anos, fascinada por ele, baixista numa banda de garagem, com quem já andou de mãos dadas.

Demasiado preocupado com o festival de efeitos visuais, praticamente inacreditável de tão avassalador, e na manutenção do ritmo, que chega a ser sufocante, o filme perde-se na sua própria técnica e reduz para segundo plano as emoções humanas que lhe estão subjacentes. A paixão entre Scott e Ramona é demasiado insípida para o trabalho que dá. Contudo, o sentido de humor é tão fluente que equilibra, em grande medida, os extremos, tornando o filme num fartote visual e cómico; afinal, já todos passámos pelo fenómeno do amor à primeira vista e ninguém sabe explicar o seu magnetismo.

Desde a série Arrested Development (2003) que Michael Cera tem vindo a desenvolver a mesma persona em todos os filmes em que entra, com Superbad (2006) e Juno (2007) à cabeça, pelo que a sua interpretação de Scott é mais do mesmo. Edgar Wright disse tê-lo escolhido por considerá-lo um dos raros actores capazes de aguentar a audiência do seu lado, mesmo quando os seus actos são menos dignos, mas esse poderá ter sido um tiro no pé. Cera convence como adolescente inepto e desajustado, inadvertidamente envolvido numa situação que escapa completamente ao seu controlo, mas os combates de artes marciais que enceta não são, nunca, cenas de acção, mas meras curiosidades de acrobacia digital. Ninguém iria ver a trilogia The Matrix (1999), com Cera no papel de Neo. Scott Pilgrim Contra O Mundo foi um fracasso de bilheteira, tendo custado 60 milhões de dólares e recuperado apenas 45.

Scott Pilgrim vs The World 2010

4 Comments:

Blogger Sam said...

É um delicioso 'no-brainer'!

Abraço.

1/05/2011 4:09 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

é delicioso, mas ... para o cinéfilo incauto, que não imagina ao que vai, pode ser um overload de zappping. o que vale é que dá para rir bastante :)

1/05/2011 4:27 PM  
Blogger Sam said...

A prévia informação é sempre essencial... e já se evita o overload! :)

1/05/2011 9:15 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

até pode ser uma boa surpresa. paga-se por um filme à velocidade normal e obtém-se um ao dobro.

1/05/2011 10:08 PM  

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