Terça-feira, Janeiro 18, 2011

Indomável, de Joel e Ethan Cohen

Os irmãos Cohen decidiram reimaginar A Velha Raposa (1969), o filme que deu a John Wayne o seu único Óscar, já em idade avançada, daqueles prémios que deixam a sensação terem sido atribuídos pela carreira e não pelo mérito nesse trabalho específico (Paul Newman, com A Cor do Dinheiro, é outro exemplo). A Velha Raposa chegava numa época em que tanto o actor como o género Western estavam em declínio, e talvez o Óscar tenha sido uma despedida a ambos.

Foi um gesto de desafio que pagou dividendos. John Wayne já era sexagenário, mas achava ter genica suficiente para se superar. Margueritte Roberts era um nome na lista negra, mas ele gostou do seu guião e o estúdio fez-lhe a vontade. A história era ligeira, ia ao encontro do sentido de justiça norte-americano e podia agradar a duas gerações, já que juntava um velho jarreta e uma adolescente determinada (para evitar confusões, chamou-a sempre de baby sister). Um fazendeiro era morto por um ajudante, em viagem, e a expedita filha de 14 anos, que vem tratar do regresso do caixão, decide contratar um caçador de recompensas, para que o assassino seja enforcado, e são acompanhados por outro, que procura o mesmo homem por um crime diferente.

True Grit, no original, seria melhor traduzido por Duro de Roer ou Implacável, mas teve uma entrega meramente rabugenta de John Wayne, igual a si próprio numa terceira idade disposta a brincar com a persona que desenvolvera em inúmeros outros westerns. Os irmãos Joel e Ethan Cohen, galardoados, em 2008, pelo film noir Este País Não É Para Velhos (que, entre montadas e motores, é essencialmente uma cowboyada), decidiram experimentar o género, directamente, fazendo a sua própria adaptação do livro de Charles Portis.

Apesar de considerarem a sua versão mais conforme ao livro do que a de Margueritte Roberts, decidiram manter a pala no olho do personagem (trocaram-na foi de olho) e aumentar-lhe a artrite, a ciática e a senilidade, quando o personagem literário rondava os 40 anos e não usava venda. Se A Velha Raposa se assemelhava a uma aventura de Tom Sawyer no feminino, Indomável é mais maduro, mais sólido, mais calejado. Como os ouvidos comem primeiro do que os olhos, o compositor Carter Burwell (na sua 15ª colaboração com os Cohen) carregou na severidade e frieza, ignorando a desadequada boa disposição da banda sonora country de Elmer Bernstein. Esta mudança de tom é determinante, mas não o suficiente.

Jeff Bridges tem a idade de John Wayne em 1969 e enfia o barrete de Rooster Cogburn apenas dois anos depois de ter enfrentado o Homem de Ferro (2008), mas os seus tempos de Wild Bill (1995) perderam-se há muito. O desafio foi, seguramente, o de juntar um intratável cowboy na fase decrescente da sua carreira e uma espevitada miúda de catorze anos, mas os Cohen exageraram na caracterização: Bridges parece muito mais acabado do que Clint Eastwood em Imperdoável (1992), tinha este 62 anos, e encheram-lhe a boca de berlindes, para melhor simular um sotaque tão cerrado que, do seu discurso, só se entendem palavras soltas.

A acompanhar o caçador de recompensas está a sua obstinada patroa de catorze anos, Hatie Ross, a cargo da actriz Hailee Steinfeld, uma pequena mutante no Velho Oeste, que transmite a sensação de mimada e sociopata. Não dá o braço a torcer desde que decidiu que o assassino do seu pai devia ser enforcado, mas é tão fria e calculista que o seu desejo de vingança não soa sincero, visceral; não se sabe se gostava realmente do pai ou está a tratar de mais um contrato, já que era ela quem geria os negócios de família e a conclusão lógica para um homicídio é a condenação do criminoso. De resto, a actriz tem a idade da personagem e demonstra segurança e controlo. Teria ajudado que, nas conversas travadas com Cogburn, se tivesse aberto mais, para atenuar a sensação de ser feita de pedra.

A fechar o elenco, alguns nomes que não fazem mais do que a sua obrigação: Matt Damon é o outro caçador de recompensas (qualquer actor teria feito o seu trabalho), Josh Brolin é o assassino do pai de Hatie (optou por ter raciocínio lento para destacar-se, ao contrário da versão de 1969) e Barry Piper (tem o mérito de estar irreconhecível).

O género western vai rareando, mas Hollywood ainda o rega com regularidade. Kevin Costner arrebatou todos os Óscares que encontrou pelo caminho em Dança Com Lobos, em 1990, e voltou a reavivá-lo com Wyatt Earp (1994) e Open Range (2003). Clint Eastwood passou metade da sua carreira a cavalo (mais de dez westerns no cinema e a série Rawhide). Walter Hill fê-los amiúde, incluindo Jeronimo (1993), Wild Bill (1995) e a mini-série televisiva Broken Trail (2006), com Robert Duvall. Para o mesmo pequeno ecrã, David Milch criou a multi-premiada série Deadwood (2004). James Mangold deu o seu contributo em 2007 (Comboio Das 3 e 10) e Ed Harris em 2008 (Appaloosa).

É inegável que o projecto True Grit tinha potencialidades, começando pelo facto de o original ter deixado muito espaço para melhorias. Contudo, e apesar de assumir-se como perseguição a um fugitivo, a abordagem continua a não encontrar o alvo. A direcção de fotografia de Roger Deakins é excelente, a realização é sólida e a banda sonora ajustada, mas os eventos arrastam-se, os diálogos perdem-se na esterilidade e os personagens são olvidáveis. Na comparação com A Velha Raposa, temos que os Cohen cortaram a morte do pai de Hatie no início e puseram-na a narrar um final igual ao do livro (diferente do de A Velha Raposa), separaram os caçadores de recompensas em vez de os manterem juntos, falam em beijos mas nunca sexualizam a jovem, mas alguns diálogos são iguais (a cena de tribunal), os eventos, de forma geral, são os mesmos e a conclusão é bastante próxima. As alterações de cosmética podem usar um corrector ligeiramente diferente, mas a base é a mesma.

True Grit 2010

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