The Fighter: O Último Round, de David O. Russell

O boxe é dos desportos que mais entusiasmam os norte-americanos e mais entradas fez na sétima arte. David O. Russell marca agora presença com O Último Round, terceira colaboração do realizador com o actor Mark Wahlberg (Os Três Reis e I Heart Huckabees antecederam-no). O filme está nomeado para sete Óscares, incluindo Melhor Filme, Realizador, Actor Secundário (Christian Bale) e Actrizes Secundárias (Amy Adams e Melissa Leo). Poderão estar aí alguns K.O.s em potência.

Micky Ward é um nome equiparável aos de Muhamed Ali e Rocky Marciano, no sentido em que foi diversas vezes galardoado lutador do ano e os respectivos combates eleitos por diversas revistas do género. O seu estilo de luta é a perseverança, tanto no ringue como em carreira, aguentando derrotas e pancada e nunca desistindo. O Último Round, porém, não acompanha os seus tempos áureos, mas as dificuldades que teve até aí chegar.

O filme aposta em elementos populistas muito do agrado do público: ascensão de alguém da classe operária, a vitória sobre a droga e a emancipação face a laços familiares opressivos e castradores. Ward, já nos trinta anos, continuava a ser treinado pelo irmão e gerido pela mãe, ambos egoístas e manhosos, por muito que não fossem conscientemente mal intencionados. A mãe tinha uma nítida predilecção pelo filho mais velho, uma antigo pugilista reduzido à toxicodependência pesada, e a árvore familiar incluía nove filhos, sete dos quais mulheres. Protegiam-se uns aos outros, especialmente nas piores decisões. Micky tolerou esta situação, até que uma namorada com carácter forte veio desequilibrar o fiel da balança.

Depois da Scout Productions ter adquirido os direitos de autor da história de Micky Ward e do seu irmão Dicky, o enredo passou por quatro reescritas e três realizadores, com Mark Wahlberg escolhido para protagonizar desde o primeiro momento. Martin Scorcese recusou a oferta enquanto montava The Departed (2007), Darren Aronofsky trocou-o por O Cisne Negro (2010) e David O. Russell terminou o jejum de seis anos para se lhe dedicar.

Wahlberg treinou incessantemente durante os últimos cinco anos para este papel (que, entretanto, sofreu atrasos), especializando-se na técnica de luta do personagem, decidido a prestar-lhe homenagem, devido às suas afinidades: ambos provêm de pequenas cidades do Estado de Massachussets, de famílias extensas e humildes. É pena que o trabalho de punhos de Mark Wahlberg nunca se confunda com representação. No outro extremo, Christian Bale, como Dicky Eklund, está no ponto. Emagrecer para o papel não foi difícil (perdeu mais peso para O Maquinista, 2004), mas assimilar e reproduzir os tiques e os maneirismos de um alienado (viciado em crack) específico, com uma credibilidade a toda a prova, é de se lhe tirar o chapéu.

Ainda que, por vezes, o filme vá às cordas, O Último Round aguenta-se em redor do ringue, fintando as deficiências da previsibilidade e a falta de garra nos combates com uma tensão bem gerida e interpretações dignas, batendo-se no campo familiar e da amizade fraternal, sem grandes concessões. O calcanhar de Aquiles é mesmo a interpretação baça de Wahlberg, mas não chega para borrar a pintura.

The Fighter 2010
O Evangelho Segundo Cinéfilo

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