Domingo, Janeiro 30, 2011

The Fighter: O Último Round, de David O. Russell

Sylvester Stallone sabia que tinha um filão nas mãos, quando obrigou os executivos da United Artists a aceitarem-no como protagonista de Rocky (1976), condição de venda do respectivo guião. Logo a seguir a Rocky II (1979), Martin Scorcese foi um dos muitos que apostaram em biopics de pugilistas reais (Touro Enraivecido, 1980), género dramático que tem colhido frutos, caso de Ali (2001), de Michael Mann, e de Cinderella Man (2005), de Ron Howard. Ambos nomeados para os Óscares.

O boxe é dos desportos que mais entusiasmam os norte-americanos e mais entradas fez na sétima arte. David O. Russell marca agora presença com O Último Round, terceira colaboração do realizador com o actor Mark Wahlberg (Os Três Reis e I Heart Huckabees antecederam-no). O filme está nomeado para sete Óscares, incluindo Melhor Filme, Realizador, Actor Secundário (Christian Bale) e Actrizes Secundárias (Amy Adams e Melissa Leo). Poderão estar aí alguns K.O.s em potência.

Micky Ward é um nome equiparável aos de Muhamed Ali e Rocky Marciano, no sentido em que foi diversas vezes galardoado lutador do ano e os respectivos combates eleitos por diversas revistas do género. O seu estilo de luta é a perseverança, tanto no ringue como em carreira, aguentando derrotas e pancada e nunca desistindo. O Último Round, porém, não acompanha os seus tempos áureos, mas as dificuldades que teve até aí chegar.

O filme aposta em elementos populistas muito do agrado do público: ascensão de alguém da classe operária, a vitória sobre a droga e a emancipação face a laços familiares opressivos e castradores. Ward, já nos trinta anos, continuava a ser treinado pelo irmão e gerido pela mãe, ambos egoístas e manhosos, por muito que não fossem conscientemente mal intencionados. A mãe tinha uma nítida predilecção pelo filho mais velho, uma antigo pugilista reduzido à toxicodependência pesada, e a árvore familiar incluía nove filhos, sete dos quais mulheres. Protegiam-se uns aos outros, especialmente nas piores decisões. Micky tolerou esta situação, até que uma namorada com carácter forte veio desequilibrar o fiel da balança.

Depois da Scout Productions ter adquirido os direitos de autor da história de Micky Ward e do seu irmão Dicky, o enredo passou por quatro reescritas e três realizadores, com Mark Wahlberg escolhido para protagonizar desde o primeiro momento. Martin Scorcese recusou a oferta enquanto montava The Departed (2007), Darren Aronofsky trocou-o por O Cisne Negro (2010) e David O. Russell terminou o jejum de seis anos para se lhe dedicar.

Wahlberg treinou incessantemente durante os últimos cinco anos para este papel (que, entretanto, sofreu atrasos), especializando-se na técnica de luta do personagem, decidido a prestar-lhe homenagem, devido às suas afinidades: ambos provêm de pequenas cidades do Estado de Massachussets, de famílias extensas e humildes. É pena que o trabalho de punhos de Mark Wahlberg nunca se confunda com representação. No outro extremo, Christian Bale, como Dicky Eklund, está no ponto. Emagrecer para o papel não foi difícil (perdeu mais peso para O Maquinista, 2004), mas assimilar e reproduzir os tiques e os maneirismos de um alienado (viciado em crack) específico, com uma credibilidade a toda a prova, é de se lhe tirar o chapéu.

Ainda que, por vezes, o filme vá às cordas, O Último Round aguenta-se em redor do ringue, fintando as deficiências da previsibilidade e a falta de garra nos combates com uma tensão bem gerida e interpretações dignas, batendo-se no campo familiar e da amizade fraternal, sem grandes concessões. O calcanhar de Aquiles é mesmo a interpretação baça de Wahlberg, mas não chega para borrar a pintura.

The Fighter 2010

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