Sábado, Janeiro 15, 2011

Chloe, de Atom Egoyan

Phillipe Blasband teve a ideia, Jacques Fieschi desenvolveu-a, Anne Fontaine realizou e o filme intitulou-se Nathalie, em 2003. Atom Egoyan, em crise criativa, financeira ou ambas, assinou o remake, que Erin Cressilda Wilson, por torpe ineptidão, misturou com Atracção Fatal e A Letra L. A guionista é conhecida pelo irreverente A Secretária (2002) e pelo serôdio Pêlo: Um Retrato Imaginário de Diane Arbus (2006).

A esporádica nudez ondulante de Amanda Seyfried e a emproada de Julianne Moore tentam salvar Chloe da mediocridade, mas intensificam o mergulho. Os ambientes de cartilha, saídos do manual dos vídeos Playboy são piores do que as versões televisivas de Zalman King, os ângulos de câmara que não sabem se revelam ou ocultam, a iluminação de boudoir, a lingerie, as poses, tudo é tacanho. Quanto ao artifício sobre o qual se edifica todo o mistério, Não é preciso ter visto Nathalie para adivinhá-lo, de tão embaraçosamente previsível. Afinal, as pistas são óbvias e, convenhamos, fazem-se histórias de mistério há centenas de anos, é preciso mais para confundir e iludir uma audiência atenta. O adultério como móbil do crime é chapa mais do que gasta.

O arménio Atom Egoyan já foi responsável por trabalhos bastante interessantes, como Exótica (1994) e O Futuro Radioso (1997), mas Chloe está entre as suas piores entregas. Em vez de personagens enigmáticas, saem-lhe planas, maçudas, irritantes. A história é simples. Uma mulher suspeita da fidelidade do marido e contrata uma prostituta para se insinuar junto dele, deixando-se enrolar pelas narrativas que esta lhe faz das suas supostas incursões junto do marido dela. Assim rezava Nathalie. Chloe salpica-a de pós sáficos (Anne Fontaine referiu que queria esse ingrediente no seu filme, mas que as actrizes se recusaram) e a prostituta, depois da rejeição, deita-se com o filho adolescente do casal, numa reviravolta vingativa, o prolongamento de uma obsessão sem fundamento, estéril e incoerente. Chloe, que nas linhas iniciais se caracteriza de forma dominante, acaba a descontrolar-se como uma mimada instável. Durante todo o processo, a esposa é neurótica e o marido egocêntrico. O filho deles é de uma desconexão gritante: toca piano clássico, guitarra eléctrica e pertence à equipa de hóquei; manifesta desprezo pela mãe, veneração pelo pai e insegurança em relação ao sexo feminino. E não passa de um personagem secundário sem a menor relevância.

Se o anterior filme de Egoyan, Onde Está A Verdade? (2005), espreitava a homossexualidade masculina, Chloe vira-se para a feminina. Amanda Seyfried já tinha sido beijada por Megan Fox em O Corpo de Jennifer (2005) e Julliane Moore aproveitou para treinar o que viria a ser uma longa relação com Annette Bening em Os Miúdos Estão Bem (2010), mas em Chloe a ligação das duas é meramente oportunista. Comercialmente oportunista.

A esposa de Liam Neeson sofreu, durante as filmagens, um acidente de ski e morreu poucos dias depois. Na ausência do actor, o argumento sofreu alterações condicentes, mas ignoram-se quais. Para melhor, não terão sido. Mesmo quem não tiver percebido que toda a actividade do marido é somente vista através das descrições de Chloe, há-de convir que o desfecho é um cop out. Atracção Fatal (1987) no seu básico.

Chloe 2009

5 Comments:

Blogger Júlia said...

A Julianne Moore também já beijou outra actriz em "As Horas".

pronto

Vi o filme à coisa de 2 meses e já só me lembro das collants de renda da Amanda, de forma que não posso comentar grande coisa. Foi-me, provavelmente, um filme indiferente

1/17/2011 1:47 AM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

A Julianne Moore é uma autêntica badalhoca :D

Em A Ideal Husband teve um romance com um homem casado, em Os Miudos Estão Bem traiu a companheira lésbica com um homem, em Savage Grace teve sexo com o próprio filho, no Blindness teve sexo com desconhecidos, em A Single Man desejava um gay, em Boogie nights foi actriz pornográfica...

Eu lembro-me do filme (vi-o há menos de uma semana), mas não me lembro dos collants da amanda, só de uns que se rasgaram quando ela caiu da bicicleta, mas já nem me lembro de que cor eram...

o filme é muito fraco. eu não vi o nathalie, mas a meio do chloe lembrava-me do trailer de 2003. é preciso ser muito mau para um filme lembrar o trailer de outro com 7 anos...

1/17/2011 11:47 PM  
Blogger Júlia said...

Nunca pensei nela nessa perspectiva. Mas ainda consegue manter a postura e a reputação no meio de tanto deboche

No Blindness, pobrezinha, não tinha grande escolha (no livro, pelo menos)

No The kids are alright tentou trair o público com a conversa que gosta de mulheres, mas não se saiu muito bem. Ouvi muitos bocejos da parte do público feminino gay que viu o filme. E dos homens também.

São essas collants a que me referi, eram cinzentas ou coisa do género. Tu lembras-te de um trailler antigo, eu das collants, o filme não fica na memória de ninguém

1/19/2011 12:54 AM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

é a qualidade de uma actriz fazer de debochada sem perder a postura.

claro que, no blindness, tinha escolha. afinal, havia mais carne para canhão e ela era a única que conseguia ver. afinal, qual é a dificuldade de evitar violadores cegos?

bocejos? beijar a annette bening dá é vómitos, a mulher do warren beatty é execrável.

«eu das collants» era o título do filme?

1/19/2011 1:21 AM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

relativamente ao último parágrafo do meu comentário anterior, devia estar completamente distraído quando o escrevei ...

1/25/2011 6:42 PM  

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