127 Horas, de Danny Boyle
Em 2003, Aron Ralston, um experiente montanhista, ficou preso numa fissura dos canyons do Utah, durante mais de cinco dias. Incapaz de soltar-se, viveu horas de desespero e desgaste psicológico, ao mesmo tempo que fez esforços hercúleos para manter estável a temperatura e o nível de fluidos. A sua traumática experiência foi imortalizada na biografia Entre a Espada e a Parede, que o realizador Danny Boyle decidiu adaptar. Estruturou as sequências e entregou o esboço ao argumentista Simon Beaufoy, vencedor do Óscar e do Globo de Ouro por Slumdog Milionaire (2009), o mesmo de The Full Monty (1997) e Miss Pettygrew (2008).

O desafio: fazer um filme de acção com alguém que não consegue mover-se. O risco: pecar por inércia. Resultado: esperneia, mas não sai do sítio. Se alguém seria capaz de levar a cabo esta prova, seria Danny Boyle, que se envolveu de corpo e alma na recriação dos mais angustiantes momentos da vida de Aron Ralston. O filme começa num feixe de energia, precisamente para que se sinta o choque da imobilidade forçada mas, quando as circunstâncias ditam que a evasão é impossível, parece não restar outro recurso do que o melodramatismo de alucinações de liberdade, a recordação de situações desperdiçadas do passado e a confissão do amor pelos pais numa gravação amadora de vídeo.

Segunda opção do realizador (a primeira foi Cillian Murphy), James Franco faz um trabalho extraordinário. O actor que devia ter sido Homem-Aranha (2002) é credível no entusiasmo, no desespero e na resignação. Fora do seu círculo íntimo, Boyle e Franco foram as únicas pessoas a assistirem às gravações em vídeo que Ralston fez para documentar o seu infortúnio, permitindo assim uma reconstrução cinematográfica fiel, a encontrar o desagrado do sobrevivente apenas na fictícia cena do lago submerso.

Apesar de tudo, o factor emoção falha porque, de Danny Boyle, esperava-se mais. O seu empenho é imenso e o filme agarra quem desconhece o desfecho verídico, mas o equilíbrio entre realismo e onírico derrapa no campo cor de rosa, das tonalidades quentes e esbatidas das recordações e sonhos, só a faltar-lhes pombas brancas e anjos de extensas asas abertas. Na cena da tempestade, em que a fissura é inundada e o braço entalado se liberta milagrosamente, não é necessário aguardar pelo desenlace para saber que é um devaneio.

O product placement é tão exagerado que quase transforma a longa-metragem num anúncio muito comprido: a câmara de filmar, a máquina fotográfica, o equipamento de montanha, o canivete que ficou no armário, a bicicleta, as botas, os óculos escuros, o relógio, nada fica sem ter a marca em evidência, por vezes mesmo em grande plano. 127 Horas pode ter necessitado de financiamento independente, mas nem tanto ao mar.

Quanto à banda sonora original, a partitura do compositor R.A. Rahman (Slumdog Milionaire) plagia a de António Pinto para O Senhor da Guerra (2005), até nos instrumentos seleccionados, nas ocorrências mais impressionantes (quando se apercebe de que ficou entalado, quando despoleta uma tempestade, quando se solta). Por fim, a mensagem que fica não é a de que nunca deve desistir-se, mas que há sítios que não devem visitar-se sozinho.

127 Hours 2010
O Evangelho Segundo Cinéfilo

2 Comments:
O que eu mais gostei neste filme foi a representação da dor: as imagens de choque de luz e os ruídos tipo apito desafinado. De resto, nada de especial. Preferia ler o livro.
se eu pudesse dar a tradução oficial do título para as salas portuguesas, teria sido O Entalado.
http://filmezkvi.blogspot.com/2011/03/127-horas.html#comments
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