Segunda-feira, Janeiro 24, 2011

127 Horas, de Danny Boyle

Em 2003, Aron Ralston, um experiente montanhista, ficou preso numa fissura dos canyons do Utah, durante mais de cinco dias. Incapaz de soltar-se, viveu horas de desespero e desgaste psicológico, ao mesmo tempo que fez esforços hercúleos para manter estável a temperatura e o nível de fluidos. A sua traumática experiência foi imortalizada na biografia Entre a Espada e a Parede, que o realizador Danny Boyle decidiu adaptar. Estruturou as sequências e entregou o esboço ao argumentista Simon Beaufoy, vencedor do Óscar e do Globo de Ouro por Slumdog Milionaire (2009), o mesmo de The Full Monty (1997) e Miss Pettygrew (2008).

O desafio: fazer um filme de acção com alguém que não consegue mover-se. O risco: pecar por inércia. Resultado: esperneia, mas não sai do sítio. Se alguém seria capaz de levar a cabo esta prova, seria Danny Boyle, que se envolveu de corpo e alma na recriação dos mais angustiantes momentos da vida de Aron Ralston. O filme começa num feixe de energia, precisamente para que se sinta o choque da imobilidade forçada mas, quando as circunstâncias ditam que a evasão é impossível, parece não restar outro recurso do que o melodramatismo de alucinações de liberdade, a recordação de situações desperdiçadas do passado e a confissão do amor pelos pais numa gravação amadora de vídeo.

Segunda opção do realizador (a primeira foi Cillian Murphy), James Franco faz um trabalho extraordinário. O actor que devia ter sido Homem-Aranha (2002) é credível no entusiasmo, no desespero e na resignação. Fora do seu círculo íntimo, Boyle e Franco foram as únicas pessoas a assistirem às gravações em vídeo que Ralston fez para documentar o seu infortúnio, permitindo assim uma reconstrução cinematográfica fiel, a encontrar o desagrado do sobrevivente apenas na fictícia cena do lago submerso.

Apesar de tudo, o factor emoção falha porque, de Danny Boyle, esperava-se mais. O seu empenho é imenso e o filme agarra quem desconhece o desfecho verídico, mas o equilíbrio entre realismo e onírico derrapa no campo cor de rosa, das tonalidades quentes e esbatidas das recordações e sonhos, só a faltar-lhes pombas brancas e anjos de extensas asas abertas. Na cena da tempestade, em que a fissura é inundada e o braço entalado se liberta milagrosamente, não é necessário aguardar pelo desenlace para saber que é um devaneio.

O product placement é tão exagerado que quase transforma a longa-metragem num anúncio muito comprido: a câmara de filmar, a máquina fotográfica, o equipamento de montanha, o canivete que ficou no armário, a bicicleta, as botas, os óculos escuros, o relógio, nada fica sem ter a marca em evidência, por vezes mesmo em grande plano. 127 Horas pode ter necessitado de financiamento independente, mas nem tanto ao mar.

Quanto à banda sonora original, a partitura do compositor R.A. Rahman (Slumdog Milionaire) plagia a de António Pinto para O Senhor da Guerra (2005), até nos instrumentos seleccionados, nas ocorrências mais impressionantes (quando se apercebe de que ficou entalado, quando despoleta uma tempestade, quando se solta). Por fim, a mensagem que fica não é a de que nunca deve desistir-se, mas que há sítios que não devem visitar-se sozinho.

127 Hours 2010

2 Comments:

Blogger Magda said...

O que eu mais gostei neste filme foi a representação da dor: as imagens de choque de luz e os ruídos tipo apito desafinado. De resto, nada de especial. Preferia ler o livro.

4/20/2011 10:21 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

se eu pudesse dar a tradução oficial do título para as salas portuguesas, teria sido O Entalado.

http://filmezkvi.blogspot.com/2011/03/127-horas.html#comments

4/21/2011 10:06 PM  

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