Os Miúdos Estão Bem, de Lisa Cholodenko

Um casal de lésbicas decadentes e neuróticas vê-se a braços com uma situação inesperada: ambas engravidaram do mesmo dador de esperma há, respectivamente, 18 e 15 anos, e os seus filhos acabaram de conhecer o pai biológico, tendo-o achado simpático. Há, finalmente, um homem na família.

O filme começa leve, como, aliás, lhe seria, de todo, conveniente, mas enguiça quando resolve transformar-se num dramalhão. A partir daí, torna-se fácil identificar-lhe as costuras soltas, a estruturação pouco espontânea, as peças limadas e dispostas no tabuleiro com propósitos claramente definidos. Desastrosamente definidos.

Lisa Cholodenko é uma activista lésbica, tendo já o seu filme de estreia, High Art (1998), incidido numa relação entre duas mulheres, tema onde reincidiu ao dirigir um episódio da série A Letra L. O argumento de Os Miúdos Estão Bem é da sua co-autoria, pelo que se lhe pode atribuir o pragmatismo dos pontos que quer deixar claros: o longo relacionamento de duas lésbicas com filhos adolescentes não invalida que estes cresçam normais nem os incapacita para terem uma relação saudável com uma figura proto-paternal, neste caso o pai biológico, que nunca tinham visto até então. O resto é fogo de vista, quando não é absurdo e estúpido.

Primeiro, o casal lésbico. Para que o público masculino não as sexualize, a realizadora escolheu duas cinquentonas para representá-las: Julianne Moore (50 anos) e Annette Bening (52 anos); não chega a ser asqueroso vê-las beijarem-se, mas é impossível evitar um arrepio involuntário. É triste concluir como duas fulgurantes estrelas de Hollywood viraram cacos. Mark Ruffalo, o pai biológico, apresenta-se com uns saudáveis e bonacheirões 43 anos, para que a sua idade jogue um pouco melhor com a dos filhos. Mia Wasikowska, a filha de 18 anos, tem aqui muito melhor aspecto do que como Alice no País das Maravilhas (2010), a provar o quão Tim Burton distorce as suas actrizes, e Josh Hutcherson, o filho de 15, continua mastronço, mas é bom recordar através dele um obscuro mas comovente drama juvenil da Disney, O Segredo de Terabítia (2007). Yaya DaCosta, que fez um papelão da sua curta aparição

Avancemos para as incongruências da narrativa. O casal lésbico assiste, no fervor dos seus interlúdios sexuais, a vídeos pornográficos com gays masculinos porque, explicam, na maior parte dos filmes de lésbicas estas são interpretadas por actrizes heterossexuais. Alguém lhes devia emprestar alguns vídeos da produtora Girlfriends Films porque, se têm de assistir a sodomia entre homens para se sentirem sexualmente motivadas, ninguém lhes explicou que o lesbianismo é a excitação para com o corpo feminino. Tão visível é essa falta de conhecimento que uma delas salta para a cama do pai biológico e, numa tarde, discorrem todas as posições do Kamasutra, para depois vir a ridicularizar o interesse dele por ela, invocando que é gay. Ao, menos, dissesse ser bissexual, só em abono da credibilidade do discurso.

Fosse só isto. A moda de enquadrar canções inteiras pelos actores, à mesa, começou com O Casamento do Meu Melhor Amigo, mas 1997 já vai há muito tempo. Imitações como em Separados de Fresco (2006) nem precisam de Manuel Moura dos Santos para serem apelidadas de azeiteiras e ser obrigado a aguentar a prestação de Annette Bening a assassinar Blue, de Joni Mitchell, com os seus maneirsmos e falta de ouvido, é tortura inclassificável para impor a quem teve a amabilidade de deixar dinheiro na bilheteira.

Ou Annette Bening é uma Miss Marple em potência (em aspecto, aproxima-se-lhe a passos largos) ou a mulher da limpeza de Mark Ruffalo despediu-se, porque é anedótico que ela intua que a sua companheira está a ter um affair com ele porque metade do cabelo dela ficou agarrado à escova de cabelo que está à vista na casa de banho da casa dele e a outra metade está presa no ralo. Eu diria que Julianne Moore deve estar em quimioterapia, para perder tanto cabelo, e que é uma badalhoca. Primeiro, porque se escova com a escova do amante e não a limpa no final e porque lhe enche o ralo de cabelos e também não limpa. É que não são situações passadas, sequer, no mesmo dia, são tufos de cabelo que permaneceram na escova e no ralo, no mínimo, de um dia para o outro. E não é tudo. Há também cabelos incriminatórios na cama dele, a provarem que a falta de higiene é total e que Julianne Moore larga mais pêlo como uma gata.

A realizadora insiste que a família é claramente disfuncional, mas que os filhos, e isto é muito importante numa altura em que se discute a problemática da adopção por parte de casais homossexuais, saíram normais. Como é que sabemos que o são? Aparentemente, porque são heterossexuais e bons alunos. Para que a sua normalidade seja indisputável, o melhor amigo do filho e a melhor amiga da filha são muito menos normais. O amigo é um candidato a jackass e a amiga acha que todos os homens lhe fazem avanços sexuais. Quando pensamos que esta amiga vai revelar-se uma réplica (mais feia) da personagem de Mena Suvari

Em suma, Os Miúdos Estão Bem é o título de um filme que está muito mal. Ninguém, no seu juízo perfeito, quereria os filhos perto destas duas mulheres que se alcunham uma à outra de Galinha e Pónei. O pai biológico é um hippie porreiraço e descomprometido, que tem uma indiscrição com uma mulher que se lhe oferece e é depois obrigado a humilhar-se continuamente com pedidos de desculpas em todas as direcções. Fizeram, está feito. O filme teria lucrado muito mais se eles se comportassem como pessoas maduras e independentes e, se os seus actos afectaram a percepção dos outros, deveria ser problema desses. Em vez de exemplos de liberdade, o filme está cheio de acusações e atestados de culpa. A relação entre as lésbicas está mal e a ruptura seria o passo evidente e necessário, já que não são felizes juntas, agora que a ferida foi aberta, mas a solução é continuarem juntas porque, caia o Carmo e a Trindade com semelhante justificação, são demasiado velhas para se separarem. Por explicar fica, também, porque engravidaram ambas do mesmo dador de esperma, com três anos de diferença. E qual a quantidade doada por ele, já que é natural que não se engravide à primeira ou segunda tentativa, leia-se amostra.

The Kids Are All Right 2010
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