Sábado, Dezembro 25, 2010

O Aprendiz de Feiticeiro, de Jon Turtletaub

Merlin, o mago de barba farta e chapéu bicudo que ouvimos falar desde os tempos do Rei Artur, deve estar a dar voltas no túmulo desde que Nicolas Cage decidiu ser seu discípulo. Para agradar ao actor, foi reunida a equipa de O Tesouro (2004 e 2007) – Jerry Bruckheimer na produção, John Turtletaub na direcção, Disney na distribuição, Trevor Rabin na banda sonora – mas, como era um mero capricho, os argumentistas foram adquiridos nos saldos, na conta de dois em um. Lawrence Konner e Mark Rosenthal têm em 1985 o único ano moderadamente aceitável das suas carreiras, com A Jóia do Nilo, tendo a partir daí sido sempre a descer, com os marcos A Noite do Desespero (1990), Nome de Código: Mercúrio (1998), O Planeta dos Macacos (2001) e O Sorriso de Mona Lisa (2003).

A transformação de Nicolas Cage em feiticeiro consistiu num reajuste sebáceo capilar, isto é, deixou crescer o cabelo ao tamanho que tinha em Con Air – Fortaleza Voadora (1998) e engordurou-o até imitar uma permanente. O departamento de guarda-roupa fez o que pôde, mas não havia chapéu que cobrisse os danos irreparáveis. Jerry Bruckheimer, depois de levar as mãos à cabeça e maldizer-se três vezes, executou o seu mais poderoso passo de magia: pôs Cage a contracenar com um actor tão mau que faria desviar dele as atenções: Jay Baruchel.

Quanto ao enredo, melhor seria nem o sumariar: Balthazar aprisionou quatro magos numa matryoshka, entre os quais a sua amada Verónica e a terrível Morgana Le Fey. Antes de morrer, Merlin entregou-lhe um anel que só serviria ao dedo do seu sucessor (Cinderela no masculino?), o qual vem a ser descoberto apenas séculos mais tarde. Este sucessor é um miúdo desastrado, que causa a libertação de Horvath, o feiticeiro fechado na camada exterior da matryoshka, e Balthazar acaba encerrado dentro de uma jarra (há aqui um padrão) com ele. Dez anos mais tarde, Balthazar e Horvath saem da jarra e cada um tem a sua missão: Horvath a de soltar Morgana, para esta realizar uma profecia de acabar com o mundo, e Balthazar a de treinar o sucessor de Merlin, agora com 20 anos, antes que a profecia de Morgana se concretize. Pelo meio, o sucessor de Merlin (intitulado sumo merliniano), um rapaz de fraca auto-estima, está mais preocupado em conquistar a rapariga dos seus sonhos.

A protagonizar três filmes este ano (com Ela É Demais Para Mim e O Trotskista), Jay Baruchel prova que não devia ter entrado em nenhum. Este infeliz despedaça a réstia de credibilidade que Nicolas Cage deixou a O Aprendiz de Feiticeiro e nem Alfred Molina (que já foi Dr. Octopus em Homem-Aranha 2, mas convence sempre mais como bom serás) tem espaço de manobra, quanto mais as fugazes aparições de Monica Bellucci, Alice Krige e Teresa Palmer.

O Aprendiz de Feiticeiro é uma obra menor. O argumento traz um alvo muito grosseiro pintado a todo o diâmetro e os protagonistas dedicam-se flagrantemente a assassiná-lo, com efeitos especiais medíocres a apagarem toda a magia. Salva-se a rejuvenescida banda sonora de Trevor Rabin, do mais interessante que tem feito ultimamente.

The Sorcerer’s Apprentice 2010

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