Sábado, Dezembro 18, 2010

Lenda dos Guardiões, de Zack Snyder

Vendo que não sobrava um único espartano de Leónidas (300, de 2007), Zack Snyder limpou o sangue dos capacetes de ferro e enfiou-os na cabeça de meia dúzia de corujas, de vários tamanhos, feitios e idades, baptizou-as de Puros e de Guardiões, avisou que os primeiros eram os maus e os segundos os bons e que se preparassem para a guerra, porque é a única coisa que vende.

Lenda dos Guardiões embrulha os três primeiros volumes da colecção de quinze livros infantis de Kathryn Lasky e narra a história de coragem de uma jovem coruja, fulcral na luta entre os Puros e os Guardiões, duas castas de corujas inimigas. O problema de condensar três livros em 97 minutos é que a história adquire a consistência de uma pena. Num piscar de olhos, o herói passa de um pinto que não sabe voar a um exímio voador e o seu irmão de cobarde a guerreiro. Nenhum personagem tem oportunidade de crescer, com a maior parte a servir breves propósitos específicos. É um facilitismo vulgarizado pela operação de condensação das adaptações literárias, mas que reduz a carga emotiva e o peso das motivações individuais.

Sabemos que Puros e Guardiões já guerrearam no passado, mas a razão escapa-nos. Estará, eventualmente, relacionada com a Árvore de Ga’Hoole, junto à qual habitam os pacíficos Guardiões, mas a importância da árvore e a necessidade de guardá-la são incógnitas, talvez os seus frutos sejam muito saborosos. A arma secreta dos Puros, chamada fleck (mancha), é um amontoado de fragmentos metálicos que se encontram nas fezes de animais e, em grandes quantidades, tem um determinado poder debilitante sobre as corujas, que se aceita por inexplicável (como a kryptonite para o Super-homem). Intitular de Puros um grupo de corujas viciosas parece piscar o olho à raça ariana, tanto mais que os seus componentes são exclusivos de uma família de ave, mas como podem estes evaidecer-se com pureza de casta se são órfãos de proveniência avulsa, raptados e treinados como carga para canhão? Pindérico como o exército de vampiros bebés de Twilight: Eclipse (2010), constituído por apenas 12 elementos, é as hostes do exército dos Puros nem esse número parecer aglutinar. Para salvar os seus companheiros de armas, Soren socorre-se de uma chaleira que encontra no meio do nada e enche-a de fogo… resta saber como se enche uma chaleira com combustível em estado gasoso e, mais, que artífice a confeccionou e abandonou em lugar tão inacessível (terá sido alguém da equipa de produção)? De notar a utilização da canção The Host of Seraphim, dos Dead Can Dance, nessa cena.

Aqui ficam algumas das arestas que poderiam ter sido melhor limadas, como também não é explorada a origem do ódio de Kludd por Soren, dois irmãos de um lar afectuoso e normal; Kludd pode ter manifestado algum ressentimento por Soren esvoaçar melhor do que ele, mas essa inveja não justifica o que se segue.

Do filme, ficará unicamente a sensação de prazer de voar, através da extensa pormenorização dos movimentos de voo, em excessivas câmaras lentas, com todas as penas a reagirem individualmente ao vento e à chuva. Os efeitos especiais de animação CGI estão perfeitos, tanto em fauna como em flora, sendo até bastante próximos dos de Avatar (2009), que tantos suicídios motivaram há um ano atrás. A riqueza dos efeitos visuais é tão grande que o 3D, apesar de justificado, se mostra supérfluo. De resto, a narrativa em fast forward é demasiado tosca, simplista e pouco empática. Quanto à inevitável transformação de tudo em esforços belicosos, questiono se a educação do público infantil precisará realmente de mais maus exemplos, baseados em violência gratuita, desenvolvida em moldes realistas, independentemente dos seus protagonistas serem pássaros.

Como um filme de animação falado precisa de vozes, o elenco está de parabéns, seja Jim Sturgess, Helen Mirren, Geoffrey Rush, Hugo Weaving, Abbie Cornish ou Anthony LaPlagia.

Legend of the Guardians The Owls of Ga'Hoole 2010

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