Segunda-feira, Dezembro 20, 2010

O Demónio, de John Erick Dowdle

O homem que pôs o mundo a ver mortos sedentos de socorro (O Sexto Sentido, 1999) recusa-se a reconhecer que também precisa desesperadamente de ajuda. O maior susto pregado por M. Night Shyamalan é também a sua grande lição: o sucesso é uma estrela cadente. Em apenas dez anos, a sua carreira foi reduzida a pó, encontrando, este ano, forma de se anular enquanto realizador (O Último Airbender) e autor (O Demónio).

A estreia de John Erick Dowdle foi através de um sub-produto da moda pseudo-voyeurista de câmara subjectiva (The Poughkeepsie Tapes, 2007), ao qual se seguiu a recolha das migalhas do bem sucedido filme de zombies espanhol [Rec] (2007), que os americanos se apressaram a copiar para a língua de Shakespeare (Quarentena, 2008). Apesar de ressentido por ter dirigido um remake de um filme de outrem e ninguém querer fazer um do seu, volta a provar que escolheu a carreira errada.

O Demónio (no original, mais correcto, O Diabo, porque demónios há muitos, mas Diabo só há um) é um manjar de mediocridade que poderia ter dado um snack mediano. Cinco pessoas aparentemente aleatórias entram num elevador, em simultâneo, e o mesmo interrompe a subida a meio do trajecto. A partir daí, desconfiam umas das outras e vão sendo mortas uma a uma, de cada vez que as luzes se apagam. Não há dúvida de que, se fosse um mistério de Agatha Christie, se ficaria de boa aberta com as conclusões (ou não tivesse ela usado do mesmo artifício no excelente Convite Para A Morte, publicado em 1939) mas, O Demónio dissipa as dúvidas à partida. O narrador revela que a mãe costumava contar uma história sobrenatural sobre o Diabo andar entre os vivos e a colher a alma dos viciosos através de pequenos jogos de gato-e-rato que começavam sempre com um suicídio.

Brian Nelson, argumentista, pegou no esboço de M. Night Shyamalan e desenvolveu a narrativa com este pressuposto. Ou seja, lá está o irrelevante suicídio, para começar, e os actores de pouco préstimo no elevador. Quando já se sabe quem é o assassino e que este é invencível, que surpresas podem esperar-se? Se responder não muitas, saiba que a resposta certa é nenhuma.

O suicídio da abertura conduz um detective da polícia ao prédio endemoninhado e toma algumas decisões duvidosas: quando cinco pessoas fechadas num elevador ficam reduzidas a três, a prioridade é evacuar o edifício. Pergunto: se a cena do crime é um cubo de metal sem ligação ao exterior, portanto, um ambiente contido e isolado, qual a correlação? Também a solução de resgate apresentada pelos bombeiros é estranhíssima. Estando o elevador encravado entre dois andares, a opção não é a de abrir as portas do elevador no andar acima e tentar recolher os passageiros pelo tecto falso, mas fazer um buraco numa parede de cimento para chegar… ao quê? Um elevador tem três paredes sólidas e um lado vazio, que comunica com os andares pela porta contida em cada andar. Ora, se não se faz o acesso através das portas, qualquer buraco que se faça numa parede do corredor vai dar a uma das paredes laterais do elevador. Por outras palavras, vai ser necessário abrir dois buracos, um na parede de cimento e outro na parede de ferro. Faz sentido?

And then there was none, termina o livro de Agatha Christie supra-mencionado. Aqui, não será bem assim, mas fica a questão: tanto espalhafato por causa destes anónimos? Não dava para incluir um político corrupto, um militar sádico ou um corrector de bolsa ou investidor imobiliário, culpados pelo tão actual colapso bolsista de 2008? Já se percebeu que o Diabo, quando não tem mais o que fazer, gosta de andar de elevador, mas não haveria alvos mais merecedores do que um condutor bêbado, uma chantagista, uma carteirista, um trafulha e um bruto do guetto?

O Demónio é adiantado como o primeiro filme de uma trilogia, intitulada Crónicas da Noite. O próximo versará sobre um júri que debate um caso de tribunal e o último irá aproveitar as ideias de Shyamalan para uma suposta sequela de Unbreakable (2000). Pela amostra, mais valia ficarem-se por aqui. Já que não vão a tempo de nem sequer começar.

Devil 2010

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