Domingo, Dezembro 26, 2010

Cópia Autenticada, de Abbas Kiarostami

Drama absurdo e incoerente, que pode ser dividido em duas metades displicentes, com uma única constante: a vacuidade na imaginação de Abbas Kiarostami atinge o insuportável. Juliette Binoche e William Schimmell vivem a farsa.

Uma galerista de antiguidades e o escritor do livro Cópia Autenticada passam o dia juntos. Tudo indica terem-se conhecido então, dando os primeiros passos através de linhas esotéricas sobre o valor ou a indiferença do original face à cópia para, subitamente, os diálogos se tornarem contraditórios, como se ambos fossem um casal de quinze anos de relacionamento, recriminando-se mutuamente pelo desmoronamento da relação. Os sentimentos expressos não convencem, são inertes, insustentáveis e inconsistentes, precisamente porque se sabe serem vazios e meramente teatrais. Os protagonistas realmente não se conhecem, o que ficou claro no segmento inicial: o filho dela não o reconheceu, ele não reconhece a aldeia nem o hotel onde passaram a lua de mel e desconhece o marido da irmã dela ser gago. sobre ele, não sabemos absolutamente nada que possa ser testado, para além do livro que publicou.

Não é, ao contrário do que possa insinuar-se, um filme intelectual e difícil de entender, é apenas baseado numa rasteira, numa mentira pregada ao espectador, tentando convencê-lo de que não entendeu as pistas dadas anteriormente, quando não as houve. Película egoísta, neste prisma, que funciona apenas na cabeça do autor e deixa a irritante sensação de que ninguém se preparou minimamente para o resultado final.

O enredo nasceu de uma informal conversa de café entre o realizador e a actriz. Ele sempre quisera trabalhar com ela, mas tal nunca se proporcionara, pelo que inventou um guião em traços gerais e se deliciou com as expressões dela. Talvez, por isso, Binoche sofra, no filme, inúmeras transformações ridículas e incoerentes. Está eléctrica, nervosa, lacrimosa, quase psicótica, tem comportamentos que se ligam e desligam com um botão invisível. Recebeu o Prémio de Melhor Actriz em Cannes, mas apenas por ser quem é. Neste role playing, William Schimmell comporta-se com dignidade, mostrando o mesmo aborrecimento que o público para com os desajustes de Binoche. O papel esteve para pertencer a François Cluzet e a Robert DeNiro, mas acabou nas mãos de um cantor de ópera (barítono) que nunca representara antes.

No fundo, Cópia Autenticada é um improviso em três línguas (inglês, francês e italiano), passado na bucólica Toscânia, com dois personagens em conversa nonsense. Avança de modo trapalhão e termina num impasse porque, realmente, uma história como esta podia acabar em qualquer altura.

Copie Conforme 2010

4 Comments:

Blogger Flávio Gonçalves said...

Enfim, que "análise" mais absurda.

12/27/2010 1:10 AM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

ah, sim? pelo que percebi da tua crítica, és muito mau observador. é que não é um filme sobre um casal que comemora o seu 15º aniversário de casamento, mas sobre um par de pessoas que não se conhece e que, a meio do filme, começa a dizer disparates e a juntar detalhes a uma vida imaginada. e, a partir desse momento, a dicotomia original/cópia deixa de ser abordada, evapora-se.

«A obra de arte é o objecto de estudo dos dois» - ela tem uma loja de antiguidades situada numa cave, não é nenhuma estudiosa. aliás, durante o filme inteiro parece uma neurótica imbecil.

afinal, o que tem a minha análise de absurdo, é o mero facto de não ir ao encontro da tua opinião?

12/27/2010 11:14 AM  
Blogger Flávio Gonçalves said...

Calma, Ricardo. A minha "má" observação partiu da mentira que enredam as duas personagens, isto é, tomou-a como verdade, tal como Kiarostami pretende demonstrar como uma cópia, uma falsidade, se pode mostrar autêntica. A mentirinha deles vai de encontro com a noção de arte que ambos discutem, ou seja, a tomam como "objecto de estudo" (daí o termo, não quer dizer que seja alguma "estudiosa").

Reparo que o filme te suscitou muita irritação, e foi isso que notei no post e na tua resposta. Assim se justifica o meu "absurdo", porque acho que te restas ao palavreado sobre o absurdo e a (aparente) incoerência como se isso fosse mau. É só uma partida cinematográfica. Acho brilhante como o realizador conseguiu jogar com o tema da cópia pela metáfora do casal e da sua brincadeira.

Acho que devias ver o filme com outros olhos.

Abraço

12/28/2010 12:07 AM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

Ah bom, Flávio. Opiniões fundamentadas gosto mais.

Sim, é verdade que o filme me irritou, e bastante, mas não por causa da rasteira. É porque a rasteira não foi bem aproveitada.
Uma cópia é algo praticamente igual ao original (é o exemplo do retratito que está no museu da terreola) e entre os dois protagonistas não há nenhuma dúvida em relação às suas identidades.

A meio, ele conta uma história em que ela se revê (a de andar à frente do filho), mas ele conta-a referindo-se a uma desconhecida. depois ela começa com inúmeras acusações e ele comporta-se como se não soubesse de nada (o que faz sentido, ela é que é neurótica), mas depois, no restaurante, vem com a memória de ela ter adormecido ao volante, cinco anos antes.

Enfim, a ideia podia ter funcionado, mas os diálogos teriam de ser quase todos revistos, porque eram muito pobres. As duas situações mencionadas supra são as únicas que resultam.

No fim, acho que o escritor, ao lavar o rosto e olhar-se ao espelho, está a perguntar-se se deve aproveitar a loucura da Binoche para ter sexo com ela, ou se com isso vai ganhar uma stalker e o melhor é esquecer a ideia libidinosa.

12/28/2010 1:51 PM  

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