Terça-feira, Dezembro 07, 2010

Comer Orar Amar, de Ryan Murphy

Depois de separar-se de um marido e desiludir-se com um namorado, Liz decide ausentar-se por um ano. Vai engordar o corpo para Roma, esvaziar a alma para a Índia e saciar a líbido em Bali, com um espanhol que se apresenta como brasileiro e fala com o próprio filho em inglês. Parece estimulante, mas é um pastelão.

A mensagem de Comer Orar Amar é a de não resignação a uma vida insatisfatória e a de busca da felicidade onde quer que esta esteja, mas a estruturação narrativa é penosa e a escolha de Julia Roberts como protagonista o seu calcanhar de Aquiles.

Comer Orar Amar é um tormento. A primeira meia hora tem como objectivo apresentar a personagem e a sua necessidade de salvação. Desiludida com as recentes relações sentimentais, onde a sua personalidade é ofuscada pela dos companheiros, Liz decide encontrar-se, tendo para isso de usar um passaporte e ouvir línguas diferentes. Muitas pessoas que possam sentir-se como ela abraçariam essa viagem como uma terapia e não uma fuga, mas de quem ela precisava de fugir era de si própria, e essa não é uma questão geográfica. Não há nada em Liz, ou devo dizer em Julia Roberts, que faça com que se goste da personagem: amorfa e condoída, a actriz desvela apenas duas expressões faciais: desolação e, ocasionalmente, uma pálida imitação da gargalhada que a fez famosa em Pretty Woman: Um Sonho de Mulher (1990), que hoje soa tão falsa como os risinhos escarninhos de Eddie Murphy.

Valerá Comer Orar Amar como um postal ilustrado? São inegáveis as paisagens de grande beleza, mas a narração de Julia Roberts e a sua cara de quem tem uma infecção urinária são enfadonhas e vazias, matando a espiritualidade do livro e enchendo-o de esterilidade. Uma abordagem sonâmbula, sem sentimento nem paixão, promovida por uma protagonista que, em vez de inteligente e meditativa, nos chega insípida, superficial e egoísta.

Julia Roberts comprou os direitos de adaptação do livro de Elizabeth Gilbert depois de o ter encontrado na lista de favoritos de Oprah Winfrey e ofereceu a realização ao amigo de longa data Garry Marshall (realizador de Um Sonho de Mulher e de Noiva Em Fuga, 1999, ambos com ela), mas este declinou, por não querer sair dos Estados Unidos. Não se percebe como é que o criador das séries Nip/Tuck e Glee veio a ser considerado substituto, mas a verdade é que Ryan Murphy não soube abordar um tema que é próximo e doloroso a grande percentagem do público feminino. Em vez de leveza e sensibilidade, optou pela monotonia e condenou o filme à qualidade de penitência. O argumento é dele e de Jennifer Salt, uma das guinistas de Nip/Tuck.

Os homens do filme são sombras no percurso de Liz e os actores não conseguem fazer mais do que acusar a recepção do cheque que veio à sua ordem. Billy Crudup, James Franco, Richard Jenkins e Javier Bardem vão, à vez, ao Banco, mas o talento individual deixaram-no em casa. A aproveitar o título, Comer Orar Amar não passa de intoxicação alimentar, religiosidade de pau oco e frigidez.

Eat Pray Love 2010

18 Comments:

Blogger Sam said...

Isto nunca me despertou a atenção, e as tuas palavras só reforçam que o 'feeling' estava correcto...

Cumps cinéfilos.

12/07/2010 4:02 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

Monótono e entediante.

Um aviso: nunca leias as minhas críticas logo na primeira meia hora em que as posto, porque sofrem sempre pequenas alterações de português e, por vezes, até algumas adendas importantes.

É o caso desta crítica. No word, escaparam-me algumas falhas, que corrigi ao lê-lo já publicado.

Gostas da minha forma de escrever?

12/07/2010 4:06 PM  
Blogger Sam said...

Ok, aviso recebido!

Quanto à tua forma de escrever, não tenho nada a apontar. És conciso, directo e fundamentas opinião. Se não gostasse, não comentaria tantas vezes como o faço.

12/07/2010 4:13 PM  
Blogger Cláudia said...

Se nos deixarmos iludir pela frescura e originalidade dos cenários (nao é todos os dias que se salta dos USA para Roma para Índia para Bali) o filme até passa por razoável. Mas passado o entusiasmo da vista, fica uma grande desilusão. Julia roberts está muito atras daquilo que ja fez, e a sua beleza deve ter metido férias durante as filmagens (mas o que raio é que se passa com os lábios dela?!). So gostava que a viagem interior que é tao aclamada fosse tao clara e explícita quanto a que lhe poe os carimbos no passaport. Eu devo ser muito limitada, porque sinceramente nao apanhei a cursa de aprendizagem de liz. Enfim.... Ainda assim adorei a prestação do senhor da índia (muito vergonhoso nao saber o nome dele)... A sua historia era Previsivel e clichê, mas a performance foi bastante boa.

*

(PS estou à espera do harry potter :p)

12/07/2010 9:53 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

Cláudia,

O senhor da Índia (Richard Jenkins) fez-me lembrar o diatribe do Sr do Bolo, que foi a grande rampa de lançamento do Bruno Nogueira. http://www.youtube.com/watch?v=Ked146O84o0

Pois, este filme fica-se pelas intenções, porque de resultados...

O Harry Potter ainda não chegou a Coimbra?

12/08/2010 12:49 AM  
Blogger Cláudia said...

eu conheço o video e, embora possa concordar em parte, não mudo a minha opinião.... gostei mesmo do senhor.

o harry potter chegou a coimbra na sessão da meia noite no dia de estreia. eheh
mas estou à espera deste Evangelho, segundo Ricardo Lopes Moura. :p

12/08/2010 12:56 AM  
Blogger Silvia Freitas said...

Olá! Gostei de sua crítica, achei o mesmo do filme, chato, sem graça, uma personagem que dá vontade de bater. O pior é o espanhol que se diz brasileiro e fala em inglês. Muito absurdo em um filme só!

12/08/2010 2:06 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

Cláudia,

o que eu disse foi que a expressão «sr da Índia» me fez lembrar «sr do bolo», não que a representação do richard jenkins teve alguma coisa a ver com o bruno nogueira. o richard jenkins é um bom actor, gostava dele nos 7 Palmos de Terra e num filme muito bom, que foi candidato aos Oscares de 2010, O Visitante: http://axasteoque.blogspot.com/2009/02/o-visitante-de-thomas-mccarthy.html

Gostei imenso da expressão «Evangelho Segundo Ricardo Lopes Moura», fiquei todo vaidoso, acho que até vou pôr como subtítulo do blog :)

O Harry Potter é capaz de demorar, porque ainda estou um filme atrasado, ainda não vi o nº6. Eles têm sido todos tão maus que fui protelando e passou-se um ano.

No prelo: Gru, Toy Story 3, Charlie St Cloud.

12/08/2010 2:45 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

Sílvia,

obrigado pela opinião.

Quanto ao Javier Bardem, se queriam assim tanto o actor, podiam perfeitamente tê-lo apresentado como espanhol, o personagem ser brasileiro não mudou absolutamente nada. Lá porque ele era brasileiro no livro... o filme também alterou a equipa de futebol preferida dos italianos amigos da Liz: no livro eram do Lazlo, no filme do Milão.

Eu bati na Julia, especialmente com este remate: «Julia Roberts e a sua cara de quem tem uma infecção urinária» :)

12/08/2010 2:53 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

Cláudia,

o que aconteceu aos lábios da Julia Roberts foi o mesmo que aconteceu aos lábios da Nicole Kidman em 2007.

12/08/2010 2:53 PM  
Blogger Cláudia said...

quero direitos de autor é tudo o que tenho a dizer. :p


(pensei que estivesses a falar do jeito rude e egocêntrico do Sr. da India. dah.)

(não me conformo com os lábios. não mesmo. vou deixar de ver qualquer filme em que eles apareçam, principalmente se estiverem com infecção urinária outra vez)

(Fico à espera de Gru. Fiquei algo desiludida, a história é muito previsivel, consegue-se antever todos os passos do personagem principal... mas ainda assim teve momentos de humor delicioso. ah na versão inglesa já agora, o nicolau breyner não me conseguiu convencer infelizmente)

12/08/2010 9:26 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

Cláudia,

lol - o richard jenkins e o bruno nogueira não têm mesmo nada a ver.

lol - acho que os lábios da julia que têm infecção urinária não são os mesmos que foram injectados com colagénio.

lol - direitos de autor... também tenho de pagar uma percentagem ao saramago?

O Gru também me desiludiu. só gostei de algumas cenas com as miúdas, como o livro em que tinha de meter-se os dedos. o vector não teve piada nenhuma.

o steve carrell não me convenceu nada como Gru. A voz dele tinha demasiados tiques, inflexões, era demasiado artificial.

12/08/2010 10:16 PM  
Blogger Júlia said...

Excelente crítica

Liz não sabe o que fazer com a sua vida, mas não perdoa ao marido as mudanças de carreira, que poderia considerar uma qualidade, ou mesmo um sintoma de crescimento pessoal (já que o filme se vende como espiritual...). Fica mal á personagem de Roberts, que, obcecada com a própria neurose, parece completamente alheia ás necessidades do marido.
E Porquê escolher apenas um sonho, como Liz grita ao marido durante o divórcio?

Concordo, não se percebe de facto porque razão Bardem é brasileiro no filme (embora, naturalmente, apenas quem fale português como lingua materna se aperceba dos atropelos do actor), o filme não perdia se este fosse espanhol.

cump.

12/13/2010 11:19 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

Cara Júlia,

obrigado pela opinião.

Relativamente ao marido, confesso que, durante todo o filme, não me preocupei com ele, porque é uma figura demasiado secundária e até um pouco anedótica, especialmente na absurda canção em plena litigância, «quitter, quitter, quitter».

Mas, o ponto que apresentas é um com que me debato desde 1994, ano de Nightmare Before Christmas. Jack Skellington, rei do Halloween, decide fazer algo de diferente. Em vez de assustar, quer dar alegria. Para isso, rapta o Pai Natal e substitui-se-lhe. Claro que a história é tristemente americana e ele é abatido no ar por canhões militares e decide, para satisfação da moral conservadora e retrógada que, afinal, é bem tim-burtoniana (Eduardo Mãos de Tesoura também acaba o filme sozinho, no castelo, em vez de ser definitivamente aceite pelos humanos e viver no seu seio), que mais vale cada macaco no seu galho.

Ora, o marido de Liz é precisamente um Jack Skellington, que experimenta novas profissões numa busca de felicidade pessoal, o que não corresponde a um defeito, mas, antes pelo contrário, à melhor das qualidades, a de abraçar as oportunidades e de experimentar mais retalhos da trama que nos envolve.

Multitasking é o que também fazem muitos cineastas, que escrevem, realizam, representam e por vezes ainda fazem a montagem e a banda sonora dos seus filmes. não há razão nenhuma para que se cinjam a apenas uma das funções... a menos que sejam maus a alguma velas. Mas isso é o que faz o marido de Liz, se não gosta ou não presta, muda de actividade.

Para mim, o grande problema do filme reside em Liz. Ela não é uma personagem de quem se goste nem que se veja crescer como pessoa ao longo do filme. É uma deprimida que foge da sua realidade, na esperança de que outros locais a façam fugir de si própria. Só que,por muito bonitos que tenham sido os destinos turísticos que escolheu, o que está fora não altera o que não funciona dentro.

12/14/2010 2:30 PM  
Blogger Júlia said...

"Ora, o marido de Liz é precisamente um Jack Skellington"
Nunca na vida aqui chegaria, genial!

Liz acaba por ser uma personagem horizontal porque não chega a crescer durante as duas horas de filme - começa em plena crise e acaba no mesmo (se o pequenote do Bali não estivesse em casa para lhe abrir a porta, Liz ficaria em casa a resmungar ao invés de embarcar com o brasileiro rumo ás ilhas - o que nos faz duvidar do seu discernimento, já que o seu destino fica inteiramente dependente dos conselhos de terceiros). E quem nos diz que não se farta do brasileiro num ápice? O que é diferente desta vez? Os créditos finais imperrompem o último romance de Liz e não ficamos para ver a desgraça?

Fiquei com vontade de ver a Cidade tanto pelo trailer, porque já levei com ele em cima algumas vezes, como pela tua critica

cump.

12/15/2010 12:05 AM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

Júlia,

A busca de felicidade pela mudança é um tema que me é muito caro e Nightmare Before Christmas apanhou-me em plena Faculdade, ocasião onde nos sentimos completamente realizados ou contemplamos saltar do barco, e por isso me marcou, especialmente porque eu queria que o Jack fosse bem sucedido e ele acaba por encolher o rabo entre as pernas. Magoou-me o mau exemplo de Burton, de que não podemos mudar, de que temos de resignar-nos ao nosso destino.

Quanto à Liz, acho que é ainda mais flagrante. Não só dependeu dos conselhos do medicine man do bali para ir ter com o brasileiro, como depende do brasileiro para que este a faça feliz, porque ela não descobriu nada que a realize enquanto pessoa, ou seja, algo que a realize sozinha: nem pessoal, nem profissionalmente. E, como durante todo o filme não ficámos a saber do que ela precisa, do que lhe faz falta nem do que gosta, realmente não temos a menor pista de que ela vá encontrar a felicidade junto deste, que pode revelar-se outro fracasso amoroso como os outros.

Quanto ao The Town, recomendo a versão extended. Respira melhor e não tem cenas a mais. Mas, recomendo.

12/15/2010 11:49 AM  
Blogger Júlia said...

Vi o The Town sem saber que existia versão extended e agora apercebo-me que são mais 20 minutos de filme que ficaram sem ser vistos. Ficam para o fds. Só tinha visto o John Hamm na Tv, nunca em cinema.
Lembro-me da Rebecca no filme do Woody Allen em Barcelona, se calhar um bocadinho mal aproveitada. Ainda bem que ele voltou a NY.
Gostei mais dela neste.

Muitas vezes resignamo-nos mesmo que o mundo não nos exiga isso, não saltamos do barco por receio ( se o mundo aceita schwarzenegger como homem da política...). A faculdade é um autêntico campo experimental, porque 80% das pessoas não sabem muito bem o que estão lá a fazer.
Saltar é bom e faz bem á sáude

12/16/2010 1:11 AM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

Júlia, vamos comentar o The Town aqui? http://axasteoque.blogspot.com/2010/12/cidade-de-ben-affleck.html

Schwarzenegger foi aceite pelo Estado da California porque é a terra dos actores, porque era uma estrela e porque agradava a conservadores e a liberais. afinal, ele já era o Secretário de Estado Para a Cultura Física (ou lá como se chamava) de George Bush Senior.

Não conheço a fundo as suas medidas, mas penso que aprovou algumas leis importantes e é um conservador muito moderado. mais não digo, porque mais não sei.

Nem é o facto de sermos muito novos ou inexperientes quando ingressamos na Faculdade, para sabermos o que queremos, é mesmo o facto de os cursos serem muito mais frustrantes do que se esperava enquanto aspirantes a alunos universitários. Em vez de portas que se abrem, parecem portas que se fecham. E não há luz lá dentro.

Saltar custa-me aos ventrículos, mas correr é dos meus exercícios preferidos. com música.

12/16/2010 9:36 PM  

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