Cela 211, de Daniel Monzón
O motim da ala mais violenta da penitenciária apanha desprevenido um guarda, de visita às instalações na véspera de entrar ao serviço. Incógnito no meio dos amotinados e com uma esposa grávida no exterior, passa-se por preso e faz sugestões que o tornam popular entre os detidos, ao mesmo tempo em que tem de lidar com a desconfiança de alguns dos encarcerados mais influentes.

Vencedor de oito prémios Goya, entre os quais melhor filme, realizador, actor principal (Luís Tosar), actor revelação (Alberto Ammann), actriz (Marta Etura) e argumento adaptado (Jorge Guerricaechevarría), Cela 211 baseia-se na novela do jornalista Francisco Pérez Gandul e tem uma premissa interessante, entre o drama e o thriller, que aguenta apenas até determinado nível.

Um motim dentro de uma cadeia já não é novidade, depois das populares séries Oz e Prison Break e dos filmes O Último Castelo (2001) e Carandiru (2003), entre outros. A seu tempo, passaram por trás das grades do cinema nomes como Burt Lancaster, Robert Redford, Clint Eastwood, Paul Newman, Sylvester Stallone, Tim Robbins, Morgan Freeman e até Viggo Mortensen. O mero local inspira temor e respeito, porque as suas regras diferem das do exterior e, normalmente, baseiam-se na superioridade física, na crueldade implacável e na brutalidade crua. A vida e a morte podem depender de um piscar de olhos.

Ainda assim, um realizador não pode partir do pressuposto de que a decoração se encarregará do ambiente. A tensão não pode ser abstracta, tem de ser provocada, trabalhada pelas câmaras de modo a sentir-se, em vez de ser diluída pelas objectivas como mero cenário teatral. Daniel Monzón, aqui no seu quarto filme, peca por falta de visão. Segue os storyboards, para os quais contribuiu, e os actores fazem a sua parte, mas o resultado fica aquém, é televisivo. A violência, a paranóia, o medo, em vez de se respirarem, ignoram-se. Fica a curiosidade de seguir a trama, mas o público vê-se obrigado a partir das suas experiências pessoais para criar empatia, e mesmo aí os recursos aproveitados são demasiado óbvios e banais. Ninguém imagina o que sucederá à esposa do guarda, é verdade, mas quando o responsável cai nas mãos dos presos, não há amenor dúvida de que o seu destino está traçado.

Cela 211 quer-se um thriller, mas acaba por recair mais no drama, no tratamento dado a alguns personagens e sentimentos fora da urgência de soluções do motim. Afinal, os amotinados querem melhores condições e não evadirem-se, a sua luta é social e não libertária. O interesse no filme é mais gerado pela sua proveniência (Espanha) do que pelos méritos próprios. Isso não impede que surjam, amiúde, twists com algum engenho, apenas que a abordagem dos mesmos é negligente.

Um pormenor interessante será, provavelmente, o de o público simpatizar com o chefe da guarda, que arranca informação a um preso (informação que, sem a agressão, não seria colhida), mas o choque será geral quando este caceteia repetidamente uma grávida, que mais tarde vem a falecer em resultado da agressão. A violência é um cancro, que se espalha por todas as manifestações do indivíduo, não pode ser tolerada numas situações e reprimida noutras. É um momento que dá que pensar.

Para além dos actores premiados, pode ver-se também Carlos Bardem, irmão de Javier Bardem. A música está a cargo do veterano Roque Barros.

Celda 211 2009
O Evangelho Segundo Cinéfilo

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