StreetDance 3D, de Max Giwa e Dania Pasquini

Pede-se o favor de não passar a linha amarela. Streetdance deveria estar por trás de uma redoma, num museu de arte contemporânea, ao lado de uma placa a indicar «molde para filme de dança». Com espírito, atitude e energia, corresponde às expectativas da audiência e não se esconde por trás do trabalho de câmara: coreografias completas, sem cortes de edição, close ups nem enquadramentos que tolham a fluidez dos movimentos ou a ideia de conjunto.

Misturar ballet e hip hop podia ter sido o menu do desastre, mas esta travessa prova o contrário. Apesar da tónica ser dada ao género do título, o ballet não é ridicularizado nem considerado parente pobre, como normalmente descambam os projectos que se querem rebeldes e anti-establishment.

Inteligentemente relegada para segundo plano está a história, porque um filme de dança, em boa verdade, até podia dispensá-la, o que a audiência alvo quer é ver números musicais. A narrativa é simples e dirigida ao fim que se compromete. Um grupo de hip hop fica sem líder nem estúdio, a poucas semanas das finais de um concurso nacional. Prestes a desistirem, uma instrutora de ballet propõe-lhes, em troca de um espaço, ensaiarem com a sua turma. Dançarinos e bailarinos começam por uma relação de desconfiança, como não podia deixar de ser, é o cliché mais cabeludo dos musicais, os bailarinos são snobs e hirtos e os dançarinos são rebeldes e sem postura. Mas, a seguir ao atrito vem a resignação e, por fim, a aceitação e a comunhão.

A dança é expressão positiva, não agressão e animosidade. Essa é a mensagem que fica de StreetDance, um filme cheio de gente bonita, com Nichola Burley e uma fabulosa e carismática Charlotte Rampling à cabeça. Há tempo de antena para a dança de rua e para o bailado, seja cada um no seu elemento ou em interacção. É um processo de aculturação e esforço concertado, do qual se assiste a constantes ensaios e a rotinas inteiras, com a presença dos grupos Diversity e Flawless, vencedores da segunda e terceira temporadas do concurso Britain Got Talent e ainda de George Sampson, vencedor do You Got Talent de 2008.

Convém referir que este filme se destaca, não pelas suas qualidades mágicas, mas precisamente porque os outros se têm mostrado omissos no básico. A sua vantagem é a quantidade de dança e a limitação do enredo a mero pano de fundo, ainda que acrescente um twist que acaba por fazer toda a diferença (o aviltante regresso do ex-líder). É uma situação bem explorada, porque serve para desequilibrar a energia do grupo, com a raiva e a frustração a serem impulso para ultrapassar as dificuldades e vencer. Por fim, no clímax, a prova final, que mistura breakin’ e ballet, não funciona em todos os seus movimentos, mas no conjunto não desmerece.

StreetDance 3D 2010
O Evangelho Segundo Cinéfilo
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