Sábado, Novembro 27, 2010

A Rede Social, de David Fincher

Se7en (1995), O Jogo (1997) e Fight Club (1999) elevaram David Fincher ao panteão dos eleitos, fazendo esquecer a funesta sorte do injustiçado Alien 3 (1993). A partir de então, o realizador tem brincado com o seu talento e reputação, em projectos de pouca relevância, que funcionam só pelo factor entretenimento (Sala de Pânico, 2002, e Zodíaco, 2007) ou nem isso (O Estranho Caso de Benjamin Button, 2008).

A Rede Social mantém esse registo, com o embelezamento de um fait-divers, um tema de rodapé apenas elevado a notícia por ter enriquecido o seu autor. Toda a gente conhece a rede social Facebook, paralela ao MySpace e ao Twitter, mas apenas uma minoria microscópica se terá alguma vez interessado pelos seus dinamizadores, Mark Zuckerberg e Eduardo Saverin. Precisamente por essa razão, ao adaptar o livro Bilionários Acidentais, de Ben Mezrich, o argumentista Aaron Sorkin empenhou-se em interligar a entediante narrativa com os dois processos judiciais de que o inventor do site foi alvo, com recurso a flashbacks, para evitar os bocejos.

O slogan do cartaz (não é possível ter quinhentos milhões de amigos sem fazer alguns inimigos) está bem esgalhado, mas induz em erro. Os tais inimigos reconduzem-se tão somente aos litigantes que processaram Mark Zuckerberg por causa do Facebook. Depois de comprometer-se com três finalistas a implementar-lhes um site de relacionamento interpessoal para estudantes de Harvard, o então caloiro Zuckerberg dinamizou a ideia numa autêntica rede social, espalhando-a primeiro pelo campus e expandindo-a a outras universidades e finalmente ao mundo inteiro. Mais tarde, os finalistas viriam a processá-lo por violação de propriedade intelectual e o melhor amigo e co-fundador do Facebook, a quem ele depreciou a participação accionista, fez o mesmo. Zuckerberg, o mais jovem bilionário da História, aceitou acordos para não ir a julgamento e o escândalo, se algum, ficou por aí.

A Rede Social é um filme aborrecido, que Fincher falha em despertar através de brechas na linearidade cronológica e ao colocar a tónica em factos tipicamente adolescentes. O verdadeiro Eduardo Saverin veio a público desvalorizá-lo enquanto documento, frisando o quão curioso foi ver uma recriação da sua vida onde o ênfase é dado aos factos menos importantes. Isso é patente, por exemplo, na ideia de que foi Sean parker quem fomentou o desassossego entre ele e Mark Zuckerberg e que este decidiu expandir o site para além do circulo de Harvard por despeito, quando não conseguiu impressionar a ex-namorada, que andava noutra Universidade e nunca tinha ouvido falar da rede.

Jesse Eisenberg está excelente como o protagonista, ele que se habituou ao papel de inadaptado (A Lula e a Baleia e Zombieland, por exemplo), Andrew Garfield e Justin Timberlake não se destacam e Armie Hammer representa ambos gémeos Winlevoos (Josh Pence é o corpo de um deles, mas a cara é uma colagem digital da de Hammer). David Fincher gostou tanto de trabalhar com Rooney Mara (faz de ex-namorada de Zuckerberg), que a contratou para o papel de Lisbeth Salender, no remake da trilogia Millenium. Ela já tinha estragado a mítica Nancy, no remake de Pesadelo em Elm Street (2010) e as perspectivas acabaram de baixar para a adaptação dos livros de Stieg Larsson.

The Social Network 2010

5 Comments:

Blogger Sam said...

Partilho em muito a tua opinião sobre este filme — um filme mediano que está a ser muito sobrevalorizado.

Apenas "diferimos" num aspecto: achei que é Andrew Garfield a arrancar a melhor interpretação neste contexto. Eisenberg tem sempre o mesmo registo, ou seja, monótono e monocórdico.

Cumps cinéfilos.

11/28/2010 5:34 AM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

Sam, obrigado pelo teu comentário.

Eu não desgostei do Andrew Garfield, achei que representou bem o seu papel de amigo, que perdoava sempre os excessos do outro, que era tímido com as mulheres e que no final se sentiu traído pelo melhor amigo. Apenas não achei que tivesse sido excepcional, ou seja, digno de nota acima da competência que não nego à sua entrega.

Quando ao Eisenberg, aqui é que discordo. Ao contrário do coninhas a que nos habituou, aqui ele é directo, imediato, snappy. Manda as bocas certeiras, sem falhas, sem hesitações. Isso é novo, nele. É óbvio que o aspecto dele nunca lhe vai permitir ser um novo galã como o Zac Efron, mas no seu registo, este foi um passo em frente, acima do vulgar "woody allen"ismo de antes.

11/28/2010 7:18 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

Já agora, andrew garfield como homem aranha, any thoughts?

12/04/2010 10:06 PM  
Blogger Sam said...

As adaptações do Homem Aranha ao grande ecrã é um fenómeno que me tem passado um bocado ao lado. No primeiro, ainda é possível detectar o "Raimi touch", mas os restantes...

Contudo, acredito que é possível que Garfield consiga fazer melhor que o Tobey Maguire.

Cumps cinéfilos.

12/05/2010 8:35 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

pessoalmente, acho que é impossível fazer pior do que o tobey maguire, o pior actor que alguma vez podia ter sido escolhido para o papel.

james franco, que ficou com o papel de melhor amigo, fez audições para peter parker e teria dado um spider fantástico, adorava tê-lo visto no papel.

o garfield é demasiado pequenino, mas é giro e provou que consegue ser geek e desajustado. se o puserem no ginásio durante uns meses, é bem capaz de se aguentar à bomboca. ainda assim, preferia ver um tipo alto e espadaúdo, que envergasse o uniforme com o estilo que o da BD. Enfim, vamos lá a ver...

concordo contigo quanto aos aranhas já em histórico. cada vez piores, à medida que a saga progredia. e todos maus, desde o primeiro. claro que, como spidey fan que sempre fui, as cenas do aranha a balançar-se entre os prédios fizeram a minha perdição e ver o dr octopus também - alfredo molina foi um achado, adequadíssimo.

12/06/2010 9:44 PM  

Enviar um comentário

Links to this post:

Criar uma hiperligação

<< Home

hit tracker