Ondine, de Neil Jordan

Ondine desenvolve-se com grande lentidão e naturalidade, o que contribui para que se conheçam os intervenientes, se prive com eles e se torça por um final feliz. O pescador é simpático, a filha é espevitada e a ex-mulher não é má de todo. Ondine permanece uma incógnita durante grande parte do filme, e é quando começa a delinear-se que o barco manobra com mais dificuldade

Todas as histórias de encantar têm uma bruxa e esta não é excepção. Neil Jordan, realizador e argumentista de Ondine, já deixou, aliás, a sua marca nesse género, ou não fosse ele o homem por trás de A Companhia dos Lobos (1984) e de Entrevista com o Vampiro (1994), que lidavam precisamente com dois monstros sagrados do fantástico, os lobisomens e os vampiros. Jogo de Lágrimas (1992), uma das suas obras maiores, vivia objectivamente do realismo do subúrbio e da ameaça do IRA mas, com intimismo e sensibilidade, fundia fantasia e realidade.

Ondine tem, portanto, uma bruxa que, como é natural, surge apenas já a história vai avançada. As histórias de encantar começam por fazer isso mesmo, e só depois introduzem elementos de temor, provocam ondas onde antes alisaram a superfície. Pode ser a Branca de Neve que é envenenada ou a Bela Adormecida que se pica na roca, mas é indiscutível a fórmula e o processo. Em Ondine, infelizmente, a bruxa é esquemática, mal desenhada e pobremente concretizada. Surge apenas no último terço de filme, e com uma sofreguidão que se precipita de modo compacto, confuso e deslocado. Ao contrário do cuidado, quase delicadeza, assegurado até então na construção de camadas na realidade do pescador e dos seus, tem-se a sensação de que, no momento de viragem, houve falta de fundos ou que toda a produção foi apressada.

Essa urgência é contraproducente, não só porque atabalhoada, mas também porque a natureza do mal se revela corriqueira, previsível e redutora. As máfias do Leste traficam droga e seres humanos e, até na escolha entre essas duas, a eleita foi aquela que menos testes à moralidade penderam sobre o pescador, no momento determinante de decidir entre abraçar ou rejeitar aquela por quem, para o melhor e para o pior, se apaixonara.

No fundo, Ondine é uma fantasia querida e intrigante, uma simples história de amor. Enquanto tal, funciona. Só os elementos de atrito é que sofrem de mão pesada, como se até o realizador entendesse que estavam ali a mais, um incómodo que todos os heróis têm de suportar para encontrarem a felicidade eterna. Ainda assim, o embrulhar apressado acaba por ser um tiro no pé.

Os actores servem bem o filme. Colin Farrell já provou ser fiável fora do paradigma de Hollywood, especialmente em pequenos filmes intimistas: Em Bruges (2008), O Sonho de Cassandra (2007), O Novo Mundo (2005) e Uma Casa No Fim Do Mundo (2004). Alicja Bachleda não é mais do que uma manequim bonita, mas Alison Barry rouba todas as cenas em que entra. Stephen Rea, eterno colaborador de Neil Jordan, faz um padre à maneira.

Ondine 2009
O Evangelho Segundo Cinéfilo

2 Comments:
"Todas as histórias de encantar têm uma bruxa e esta não é excepção"
Ricardo,
só quem já sofreu de amor é que se atreve a declarar desta forma a sua angústia. Quase me atreveria a ponderar que bruxa má te saiu...........mas desconfio que sei qual a resposta.
Beijo muito grande
Sandra Franco (já não faltam muitos dias para .........te conto o resto mediante documento!!!! Intrigado? )
Sandra,
As histórias de encantar são, por natureza, irreais, pelo que não me revejo pessoalmente numa. assim, falava apenas na generalidade desse tipo de histórias, seja de hans christian andersen, dos irmãos grimm ou de outros imaginários.
o aniversário da tua irmã não pode ser, porque é hoje. não fico intrigado, prefiro que me contes quando te apetecer.
beijo
PS Já viste este filme?
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