Segunda-feira, Novembro 01, 2010

O Último Airbender, de M. Night Shyamalan

Água, Terra, Fogo e Ar são os Quatro Elementos primordiais, provenientes das teorias filosóficas pré-socráticas da Grécia Antiga, dos quais entendiam depender a vida humana. No Oriente, nomeadamente na China e na Índia, a teoria comporta Cinco Elementos, sendo estes a Água, a Terra, o Fogo, a Madeira e o Metal. Como o Taoismo e o Feng Shui parecem ignorar o elemento Ar e o personagem principal de Avatar: o Último Airbender domina precisamente esse elemento, cabe abraçar a tradição pitagória e aristotélica, porque gregos houve que assinalaram a existência de um quinto elemento, ou quintessência, que seria o éter, matéria cósmica negadora do conceito de vácuo, entendida como perfeita por ser formadora da lua, do céu e das estrelas. Os escolásticos da Igreja Católica adoptaram esta visão e foram enxovalhados por Galileu, quando o seu telescópio pôs em evidência a superfície rugosa e, portanto, imperfeita, da lua. Linhas mais exotéricas apontam o relâmpago ou o gelo como quinto elemento. Luc Besson, em 1997, fê-lo encarnar em Milla Jovovich e dominar os restantes quatro. Em 2004, Michael DiMartino e Bryan Konietzko, dos estúdios Nickelodeon, inventaram Avatar: O Último Airbender, sobre um menino único, capaz de controlar os quatro elementos e com a missão de trazer a paz a um mundo onde os diversos reinos (Água, Terra, Fogo e Ar) estavam em guerra. A série iniciou-se em 2005 e durou três temporadas.

Para a Paramount e a Nickelodeon, o elemento mais complicado de controlar deve ser a lógica, ao apostarem em M. Night Shyamalan para escrever, produzir e realizar a adaptação de Avatar, com pretensões a trilogia. O nome deste realizador simboliza descrédito, com os seus filmes a apresentarem resultados cada vez piores. Este falso mestre do suspense tinha, afinal, apenas dois truques na algibeira (O Sexto Sentido, 1999, e O Protegido, 2000) e um punhado de truques de espelhos. A Vila (2004), Senhora da Água (2006) e O Acontecimento (2008) foram desaire atrás de desaire.

Se a audiência adulta já estava alertada contra este indiano convencido, agora também a infantil viverá com a certeza de que não lhe ter sido entregue nenhuma adaptação de Harry Potter (apesar do expresso interesse por ele manifestado em mais do que uma ocasião) pode ter sido uma ideia inteligente. O Último Airbender deveria ser uma animação maravilhosa, um festim de artes marciais e magia, com o eterno debate que Stan Lee sintetizou nos lábios do Tio Ben: grande poder traz grande responsabilidade. Em vez disso, falta-lhe alma, de tão brutalmente espartilhado numa fórmula rígida e pouco natural. Amorfo, tenta contar história a mais, que se compreende a menos, e esquece-se de emocionar. Se é que sabe o que isso é.

Avatar é a reencarnação do Quinto Elemento, um menino nascido com a capacidade de controlar os quatro elementos e garantir o equilíbrio e a paz na Terra. Contudo, o menino foge do mosteiro onde faz o doutoramento em Fisico-química, porque quer ser apenas uma criança, e acaba preso dentro de uma bolha de gelo durante cem anos. Nesse interregno, o Reino do Fogo escravizou os povos da Terra e da Água e exterminou o do Ar, porque sabia que o Avatar era dessa espécie. Onde a porca torce o rabo é na falta de necessidade de se avançar um século. Primeiro, só alguém com mais de cem anos poderia ser contemporâneo do Avatar, o que faz com que todos os intervenientes do filme tenham nascido num mundo sem Avatares. Segundo, após cem anos de hegemonia, o Reino do Fogo não mostra obra feita. Terceiro, qual é a febre de perseguir um Avatar, do qual não há vestígios há tanto tempo? Especialmente o príncipe exilado, nascido oitenta anos depois do Avatar ter desaparecido. Chama-se a isso de perseguir gambozinos (ou, pelo menos, alguém muito velho e não uma criança).

O filme peca por ter narração a mais e por estar constantemente a repisar ideias. Os personagens falam sempre com solenidade, como se estivessem a debitar um texto clássico, tendo até de imobilizar-se para o efeito, ou desconcentrar-se-iam com a dicotomia entre a entoação e o verbo. Essa teatralidade é igualmente sentida nas poucas cenas de acção, com os cenários a tomarem conta da tela e as efémeras lutas muito mecânicas e mal ensaiadas. Os efeitos visuais aproximam-no de A Bússola Dourada (2007), que é largamente superior em entretenimento.

Noah Ringer, o actor que faz de Aang (o Avatar), estreia-se aqui, depois de ter sido escolhido por ser cinturão negro em Tai Kwon Do; fica por perceber porque é que, se essa é a sua única qualidade, não foi mais explorada. Além disso, e aqui a culpa é do guião, Aang é um choramingas cheio de remorsos e boas intenções, em vez de um Tom Sawyer ou de um Conan, à boa maneira dos desenhos animados japoneses dos anos oitenta; é que o Avatar original é um reguila, um tratante, que está constantemente a meter-se em sarilhos e a sair engenhosamente destes.

Nicola Peltz faz de Katara e não há nada a apontar-lhe. É bonita e os seus olhos pedem justiça e aventura, como na série – claro que o filme não lhe faz grandes favores. Jackson Rathbone (Sokka) é tão secundário na saga Crepúsculo como aqui, quando o seu papel deveria ter muito mais envolvimento, já que ele é a expressão da determinação e bravura; mas não há nenhuma cena onde se tenha a sensação de que é um guerreiro com mais mérito do que garganta. Sem uma única amostra do que é capaz, o rei da Água concede-lhe exclusivamente a escolta da princesa, quando os atacantes são às centenas? E o que dizer dos Espíritos da Lua e da Água estarem à mercê dos inimigos, sem a menor guarda ou protecção (e é possível matar um espírito atravessando-o com uma simples espada?). porque será o belicoso Reino do Fogo governado por indianos: Dev Patel, Cliff Curtis, Shaun Taub, Aasif Mandvi e John D’Alonzo (há coerência, mas fará sentido)? Apesar da explicação para a tonalidade dos cabelos da princesa Yue, depois de Anne Hathaway em Alice No País das Maravilhas (2010), outra princesa jovem de cabelos brancos e sobrancelhas negras é repetitivo; podiam tê-lo tingido de azul ou pintado também as sobrancelhas. Aparentemente, há uma biblioteca no Reino do Fogo que congrega todos os segredos do universo e uma rápida leitura a meia dúzia de papiros é suficiente para esclarecer mistérios com mais de um século. O animal voador de Aang (Appa) faz lembrar o da História Interminável (1987). Como é possível uma parede de água que não chega a fazer mal a uma mosca provocar a desistência de todo o exército do Fogo? Sim, é uma demonstração de força, mas também de cobardia, porque não utilizada efectivamente.

M. Night Shyamalan é incapaz de controlar os elementos, especialmente a paciência do público. Uma adaptação grosseira e facilitista (mais preocupada em avançar do que em respirar), ausência de personagens carismáticos ou de aventura e um anedótico final em cliffhanger (coisa que há muito deixou de convencer nos filmes dele). Ganhava-se em mudar de realizador para a sequela.

The Last Airbender 2010

2 Comments:

Blogger alan raspante. said...

tenho certa curiosidade por gostar do desenho animado, mas Shyamalan me dá um desanimo muito o grande, o diretor vem tendo desempenhos terríveis!

ótima crítica ;)

11/06/2010 10:56 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

alan, se gostas do desenho animado, mais vale ficar com uma boa memória da série do que conspurcá-la com a do filme.

abraço e obrigado.

11/18/2010 9:40 PM  

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