O Último Airbender, de M. Night Shyamalan

Água, Terra, Fogo e Ar são os Quatro Elementos primordiais, provenientes das teorias filosóficas pré-socráticas da Grécia Antiga, dos quais entendiam depender a vida humana. No Oriente, nomeadamente na China e na Índia, a teoria comporta Cinco Elementos, sendo estes a Água, a Terra, o Fogo, a Madeira e o Metal. Como o Taoismo e o Feng Shui parecem ignorar o elemento Ar e o personagem principal de Avatar: o Último Airbender domina precisamente esse elemento, cabe abraçar a tradição pitagória e aristotélica, porque gregos houve que assinalaram a existência de um quinto elemento, ou quintessência, que seria o éter, matéria cósmica negadora do conceito de vácuo, entendida como perfeita por ser formadora da lua, do céu e das estrelas. Os escolásticos da Igreja Católica adoptaram esta visão e foram enxovalhados por Galileu, quando o seu telescópio pôs em evidência a superfície rugosa e, portanto, imperfeita, da lua. Linhas mais exotéricas apontam o relâmpago ou o gelo como quinto elemento. Luc Besson, em 1997, fê-lo encarnar

Para a Paramount e a Nickelodeon, o elemento mais complicado de controlar deve ser a lógica, ao apostarem

Se a audiência adulta já estava alertada contra este indiano convencido, agora também a infantil viverá com a certeza de que não lhe ter sido entregue nenhuma adaptação de Harry Potter (apesar do expresso interesse por ele manifestado em mais do que uma ocasião) pode ter sido uma ideia inteligente. O Último Airbender deveria ser uma animação maravilhosa, um festim de artes marciais e magia, com o eterno debate que Stan Lee sintetizou nos lábios do Tio Ben: grande poder traz grande responsabilidade. Em vez disso, falta-lhe alma, de tão brutalmente espartilhado numa fórmula rígida e pouco natural. Amorfo, tenta contar história a mais, que se compreende a menos, e esquece-se de emocionar. Se é que sabe o que isso é.

Avatar é a reencarnação do Quinto Elemento, um menino nascido com a capacidade de controlar os quatro elementos e garantir o equilíbrio e a paz na Terra. Contudo, o menino foge do mosteiro onde faz o doutoramento em Fisico-química, porque quer ser apenas uma criança, e acaba preso dentro de uma bolha de gelo durante cem anos. Nesse interregno, o Reino do Fogo escravizou os povos da Terra e da Água e exterminou o do Ar, porque sabia que o Avatar era dessa espécie. Onde a porca torce o rabo é na falta de necessidade de se avançar um século. Primeiro, só alguém com mais de cem anos poderia ser contemporâneo do Avatar, o que faz com que todos os intervenientes do filme tenham nascido num mundo sem Avatares. Segundo, após cem anos de hegemonia, o Reino do Fogo não mostra obra feita. Terceiro, qual é a febre de perseguir um Avatar, do qual não há vestígios há tanto tempo? Especialmente o príncipe exilado, nascido oitenta anos depois do Avatar ter desaparecido. Chama-se a isso de perseguir gambozinos (ou, pelo menos, alguém muito velho e não uma criança).

O filme peca por ter narração a mais e por estar constantemente a repisar ideias. Os personagens falam sempre com solenidade, como se estivessem a debitar um texto clássico, tendo até de imobilizar-se para o efeito, ou desconcentrar-se-iam com a dicotomia entre a entoação e o verbo. Essa teatralidade é igualmente sentida nas poucas cenas de acção, com os cenários a tomarem conta da tela e as efémeras lutas muito mecânicas e mal ensaiadas. Os efeitos visuais aproximam-no de A Bússola Dourada (2007), que é largamente superior em entretenimento.

Noah Ringer, o actor que faz de Aang (o Avatar), estreia-se aqui, depois de ter sido escolhido por ser cinturão negro

Nicola Peltz faz de Katara e não há nada a apontar-lhe. É bonita e os seus olhos pedem justiça e aventura, como na série – claro que o filme não lhe faz grandes favores. Jackson Rathbone (Sokka) é tão secundário na saga Crepúsculo como aqui, quando o seu papel deveria ter muito mais envolvimento, já que ele é a expressão da determinação e bravura; mas não há nenhuma cena onde se tenha a sensação de que é um guerreiro com mais mérito do que garganta. Sem uma única amostra do que é capaz, o rei da Água concede-lhe exclusivamente a escolta da princesa, quando os atacantes são às centenas? E o que dizer dos Espíritos da Lua e da Água estarem à mercê dos inimigos, sem a menor guarda ou protecção (e é possível matar um espírito atravessando-o com uma simples espada?). porque será o belicoso Reino do Fogo governado por indianos: Dev Patel, Cliff Curtis, Shaun Taub, Aasif Mandvi e John D’Alonzo (há coerência, mas fará sentido)? Apesar da explicação para a tonalidade dos cabelos da princesa Yue, depois de Anne Hathaway

M. Night Shyamalan é incapaz de controlar os elementos, especialmente a paciência do público. Uma adaptação grosseira e facilitista (mais preocupada em avançar do que em respirar), ausência de personagens carismáticos ou de aventura e um anedótico final em cliffhanger (coisa que há muito deixou de convencer nos filmes dele). Ganhava-se em mudar de realizador para a sequela.

The Last Airbender 2010
O Evangelho Segundo Cinéfilo
2 Comments:
tenho certa curiosidade por gostar do desenho animado, mas Shyamalan me dá um desanimo muito o grande, o diretor vem tendo desempenhos terríveis!
ótima crítica ;)
alan, se gostas do desenho animado, mais vale ficar com uma boa memória da série do que conspurcá-la com a do filme.
abraço e obrigado.
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