Domingo, Novembro 28, 2010

O Americano, de Anton Corbijn

É um papel feito por medida para Charles Bronson que, nos idos anos 70, se passeava suave e impenetrável por paisagens europeias, exalando a masculinidade que as duas décadas seguintes iriam idolatrar. Homem de poucas palavras e um porte atlético invejável, era dono de um olhar pacífico que disparava mais depressa do que Lucky Luke e a sua sombra juntos. O Americano foi construído com esse arquétipo em mente, e é precisamente por isso que George Clooney parece tão deslocado.

O filme não se baseia no romance homónimo de Henry James, mas em Um Cavalheiro Muito Discreto (publicado em 1990), de Martin Booth, ensaísta, biógrafo, poeta e autor de livros de viagens. Só por esta variedade se compreende que Booth não pretendia seguir as pisadas de John Le Carré ou Sebastian Japrisot e este livro é, inclusivamente, considerado uma das suas obras menores. Rowan Joffé (argumentista de 28 Semanas Depois, 2007), filho do realizador Roland Joffé, adaptou-o, mas deve ter adormecido a meio. A história é tão transparente que se adivinha com enorme antecipação as surpresas do final: o traidor só pode ser um e o alvo da atiradora também.

O holandês Anton Corbijn é mais um realizador de videoclips que se voltou para as longas metragens. Depois de ter transformado em imagens quinze canções dos Depeche Mode, Metallica e U2, dirigiu o biopic Control, sobre a carreira dos Joy Division. Não se saiu mal e decidiu juntar cor à película. Infelizmente, esqueceu-se de dar à manivela.

O Americano tem paisagens bucólicas italianas e George Clooney. Sobre os cenários, pouco há a dizer, para além da sua simplicidade, mas Clooney deixa muito a desejar. Outrora sex symbol, uma dieta à base de Nespresso está a transformá-lo n’O Maquinista de Christian Bale. Atlético nos filmes que o lançaram como actor de acção nos anos 90, O Pacificador (1997) e Romance Perigoso (1998), viria a engordar para o Óscar de Actor Secundário de Syriana (2005) e a emagrecer para Michael Clayton (2007) e Queimar Depois de Ler (2008). Em Nas Nuvens (2009) já parecia debilitado, mas em O Americano, a mais leve brisa poderia levá-lo para sempre. Não o reclamaríamos.

A história poderia ter funcionado. Um assassino acossado recorre ao seu contacto, em Milão, que lhe aconselha discrição numa aldeia anónima italiana. Paranóico, deita fora o telemóvel e a chave da casa que o contacto lhe deu e muda-se para uma aldeia diferente, recorrendo ao telefone público quando é necessário. Aqui, relaciona-se com o padre local e com uma prostituta (parece ser o seu modus operandi, por achá-las descartáveis), recebendo entretanto a missão de construir um fuzil por medida para um atentado. No final, o contacto e a cliente revelam as suas intenções e só lhe resta a prostituta, se não se esvair em sangue antes que possam ser felizes enquanto a relação durar.

George Clooney não é Charles Bronson (nem sequer Clint Eastwood, segunda escolha do cineasta Sérgio Leone para a sua Trilogia dos Dólares – Leone é mencionado pelo empregado de um café em cuja televisão é transmitido o seu opus Era Uma Vez no Oeste, 1968, com Bronson – apesar de ser Henry Fonda quem pode ver-se no ecrã), mas uma figura amorfa, cujo cabelo grisalho já não levanta suspeitas e que passa o tempo com olhares indefinidos, a questionar-se se será seguro utilizar os lugares públicos onde se encontra como urinol, mas com receio de ser admoestado. O filme é igualmente aborrecido e parado. Comete, também, erros de palmatória, como um conhecedor de armas escolher a carabina mais barulhenta do mercado para uma operação silenciosa (uma Ruger M-14) e que a arma, depois de explodir no rosto do atirador, pareça ter-lhe feito entrar uma bala pelo olho, o que seria literalmente impossível, já que esse olho estava encostado à mira telescópica, de onde nunca poderia sair um projéctil.

O filme tem duas mulheres bonitas: a holandesa Thekla Reuten (a assassina) e Violante Placido (a prostituta), cantora e actriz italiana, cujo nu frontal é a única coisa que faz abrir os olhos, em todo o filme. Placido estará, ao lado de Nicolas Cage, na sequela de Ghost Rider (2011).

The American 2010

1 Comments:

Blogger Magda said...

Estive a ver o filme, até se viu bem apesar de realmente ter cenas mto paradas e avançar devagar. Opa, há aqui coisas mto engraçadas na crítica, fartei-me de rir :D Principalmente com "O Americano tem paisagens bucólicas italianas e George Clooney." :DDD

3/22/2011 10:52 PM  

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