Terça-feira, Novembro 23, 2010

Kirot, de Danny Lerner

Olga Kurylenko e Danny Lerner estão bem um para o outro. Ela porque, depois de, no espaço de um ano, ter posado ao lado de Hitman, Max Payne e James Bond (Quantum of Solace), achou que já tinha, ela própria, licença para matar e ele porque, após o seu filme de curso (Frozen Days, 2006) ter tido alguma notoriedade dentro do circuito interno israelita, encheu-se logo de aspirações de internacionalização. Ela rumou a Israel e ele conduziu-a ao descrédito.

Kirot dá-nos mais uma prova amarga de que a transição dos manequins de moda para a sétima arte exige talento e preparação e que não é qualquer um que faz um filme de acção convincente. Kurylenko pode ser espevitada, mas não é Milla Jovovich e Danny Lerner tinha esperanças de fazer-se alguém, mas não é sequer uma sombra de Luc Besson, aqui mencionado por duas razões. Primeiro, porque Kirot lembra o seu primeiro grande êxito, Nikita (1990), expoente máximo da mulher transformada em assassina em troca da liberdade, e porque a sua produtora, Gaumont, tem, desde então, exibido inúmeros filmes de acção de qualidade entre o razoável e a duvidosa, mas em regra melhores do que isto.

Kirot irá manter o cinema israelita na penumbra. Com uma experiência tão penosa, mais valia que Danny Lerner, a assinar a realização e a escrita, fosse cego e analfabeto. Não tem a menor percepção de economia de tempo nem do que os seus figurantes (digo, actores), conseguem interpretar. Em vez de manter o enredo simples e conciso, perde-se em elementos paralelos, que não domina nem compreende.

Olga Kurylenko não tem a menor profundidade. Ao contrário de outras modelos feitas actrizes como Halle Berry, Kim Basinger, Geena Davis, Jennifer Connelly ou Charlize Théron, a ucraniana não sabe fazer mais do que, como os bebés, imitar expressões faciais básicas. É como se nunca tivesse sentido nada e portanto, tivesse de simulá-lo. Até o seu rosto parece vulgar, face ao embrutecimento da personagem. Ou, então, o que vemos é a sua cara de contrariedade, ao aperceber-se do fiasco em que se viu envolvida. Ainda assim, deveria ter engolido em seco o orgulho e feito um esforço, para referência futura.

O início de Kirot é já sinal de que coisas más virão, e estas confirmam-se. Duas mulheres forçadas à prostituição em Israel decidem fugir do prostíbulo. Depois de espancadas, uma delas é morta e à outra é oferecida a profissão alternativa de assassina. Logo à cabeça, fica a questão: porquê eliminar a fonte de sustento mais dócil e pôr uma arma nas mãos da mais intempestiva? Adiante. A sobrevivente é uma ucraniana em Jerusalém. Não se sabe como aí chegou nem que peripécias a conduziram à presente ocupação (ou quanto tempo). O apartamento que lhe é designado tem por vizinha uma israelita (Ninet Tayeb) com um marido abusivo, com quem cria uma relação baseada em silêncios e cumplicidades, mas nunca chega a ser física (Bound – Sem Limites, de 1996, para moralistas?). Entretanto, conta que tem uma filha com atraso mental e que a abandonou e ao marido. A sua única missão, como profissional, é matar a namorada de um mafioso rival, numa discoteca. Escolhe o WC apinhado, mas ninguém ouve o tiro; há um corte e a montagem põem-na em casa. Ninguém suspeita ou dá o alarme? A vítima não morreu, está no hospital, uma segunda volta torna-se necessária. Apesar de nunca ter estado nesse hospital, a assassina dirige-se a um armário, num dos seus corredores, de onde sai de bata, estetoscópio e com uma seringa fatal. Apesar de ter altura de manequim e uma beleza europeia, ninguém no hospital sequer lhe presta atenção. Decidida a reaver o passaporte, o dinheiro que lhe devem e a fugir, investe pelo apartamento do mafioso/patrão e obtém o que quer pela força. No aeroporto, decide despedir-se da amiga mas, quando lhe telefona, esta revela-lhe que acabou de matar o marido (pouco antes, descobrira estar grávida e o marido prometera retractar-se). Volta por ela e encontra os mafiosos à espera. Talvez para estes pacóvios fizesse sentido, do que irem procurá-la ao aeroporto (ela tinha reavido o passaporte e a cabeça a prémio). Leva uns socos, mas acaba por matá-los e fogem as duas. Na estação de camionetas, a amiga desarmada é revistada e ela não. Aparentemente, o porteiro é muito selectivo, porque um grupo de assassinos não tem problema em entrar logo a seguir. Tiroteio dentro do autocarro, ainda na estação central, e as duas saem, com uma delas a sangrar, sem polícia nem circunstantes a travá-las. Metem-se noutro autocarro e lá vão elas, o motorista e os restantes passageiros não são curiosos. Presume-se que a ferida tenha morrido e que a outra tenha um novo começo pela frente.

Com a intensidade do estertor, o filme arrasta-se e agoniza, demonstrando que, entre o sentido cénico e o apego a cada minuto filmado, ganhou a irresponsabilidade. A incompetência é atroz, do argumento à realização, passando pelo elenco e terminando no lixo. Eventos ilógicos, sentimentos plásticos, lágrimas falsas, ineptidão em filmar emoção e acção (as cenas em que homens agridem mulheres são muito mal ensaidas). Fica uma história de faca e alguidar, servida por uma banda sonora de piano a adornar travellings intermináveis de personagens de olhar vazio. Patético.

Kirot 2009

1 Comments:

Blogger Naty BBB said...

O filme é otimo! Pessimo comentário, pode ate ter pontos negativos como qualquer filme. Agora citar Milla Jovovich, essa sim demorou para chegar onde está hoje em dia. Lhe custou até o casamento com Luc Benson que lhe arrancou a força uma boa atuação em Joan Of Arc. Olga Kurylenko fez um belo trabalho no filme. Talvez Danny Lerner devesse ter exigido mais de suas atrizes, porém elas fizeram um bom trabalho. Concordo com diversas gafes do filme, entre elas poderiamos citar tb Eleonor pedir para Galia lhe ensinar atirar tendo estado no exercito. Sim, talvez devessem ter tido um relacionamento mais profundo que fizesse os telespectadores mergulharem melhor em seus sentimentos. Porém o filme é muito bom e deve ser assistido.

2/23/2011 7:02 AM  

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