Terça-feira, Novembro 09, 2010

Águas Agitadas, de Erik Poppe

Há filmes que vivem das emoções que transmitem e Águas Agitadas pertence a essa prateleira. Repartindo a narrativa por dois protagonistas que apenas se cruzam no final, revolve na reacção a um evento comum que marcou indelevelmente as suas vidas. A morte de uma criança criou um vazio na mãe (Trine Dyrholm) e naquele que foi condenado pelo seu homicídio (Pal Sverre Valheim Hagen). Será a música de um órgão de igreja, tocado por dedos de mão engessada, que libertará recordações de catarse dolorosa, obrigará à tomada de posições e à discussão do tema da redenção, que não tem necessariamente a ver com a absolvição externa, mas com a aceitação da responsabilidade por quem agiu e da desculpabilização privada de quem nada poderia ter feito.

A tragédia é, aqui, tratada enquanto parte do significado de perda, a fechar a trilogia que o norueguês Erik Poppe lhe dedicou. Se a salvação é tão mais espinhosa enquanto busca do que na concretização, como encerrar um período negro da nossa existência, respirar fundo e deixar tudo para trás, quando a ferida se recusa a cicatrizar? Como ultrapassar a sensação de culpa e de medo de que o futuro traga a repetição desses mesmos erros?

A barricada separa as duas perspectivas, as duas dores, e só a aceitação da verdade dos factos, por mais chocantes que sejam, permitirá colocar uma pedra sobre o assunto. O título original traduz-se como Invisíveis ou Esquecidos por Deus, a considerar-se um trocadilho intencional a ligação entre as duas palavras, De Us (…). Daí a curiosidade de uma das personagens coadjuvantes ser, não só sacerdotisa, mas igualmente mãe solteira (Ellen Dorrit Petersen). O conforto, mesmo na Casa de Deus, pode, porém, surgir da expressão musical em vez da religião ou mesmo do romance carnal. Todas estas opções parecem ser entendidas como alternativas para a paz espiritual.

Erik Poppe já foi fotógrafo jornalístico e director de fotografia, tornando o factor sensorial do filme tão interessante quanto o enredo, que vive da intensidade com que o quotidiano é ultrapassado pelos personagens na sua busca por esquecerem o que realmente importa. Há uma tónica de mistério, de suspense, naquilo que não sabemos e que o olhar dos personagens deixa vago ou indistinto, e o argumento de Harold Rosenlow-Eeg peca apenas pelo final precipitado, ainda que coerente, capaz de abalar desnecessariamente uma peça que até então confluía sem vícios. É demasiado melodramático e artificial, ajustado à força para cumprir o objectivo da reconciliação.

De Usynlige 2008

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