Step Up 3D, de Jon Chu

O hip hop é um movimento cultural que germinou nas ruas pobres do South Bronx de Nova Iorque, nos anos 70, e cujo surto cinematográfico teve expressão na primeira metade dos anos 80 (destaque para Breakin’ e Beat Street). Desde o seu início, o estilo caracterizou-se pela liberdade estética e por um forte cariz político e social, que pretendia substituir a violência do guetto pela expressão artística, ao nível da música, da dança, do vestuário e do graffiti. Todas estas vertentes sobreviveram até hoje através da globalização e da evolução do género, apesar de uma dúbia decadência nos anos 90, por causa do gangsta rap, onde a ideia de comunhão foi conspurcada pela idolatria da violência urbana.

A energia positiva da dança no celulóide vive-se desde os clássicos de Fred Astaire e Gene Kelly, mas popularizou-se nos anos 80 pela sua edificação com personagens vulgares. Para além do breakdance, disseminou-se a dança jazz: Fame, The Chorus Line, Staying Alive, All That Jazz. Nas últimas duas décadas, assistiu-se a uma fusão, também denominada de freestyle, onde se combinam técnicas e estilos, apenas com o ritmo em mente. Assim se assistiu à conjugação com a dança clássica (Save The Last Dance), danças latinas (Take The Lead – Ritmo E Sedução) e a novas variações do hip hop como o krump (Rize) e o step (How She Move). A televisão também tem pegado no tema, com casos de sucesso como America’s Best Dance Crew, The Wayne Robson Project, Achas Que Sabes Dançar? (já com versão portuguesa) e Dancing With The Stars. Em 2010, Jennifer Lopez desenvolveu um reality show baseado num grupo de bailarinos a lutarem pela sobrevivência, Dancelife.

A par do hip hop negro de You Got Served (Hip Hop Sem Parar, 2004) e Stomp The Yard (Ritmo Alucinante, 2007), Step Up (2006) afirmou-se como a versão branca, que até ensinava um movimento ou dois à partenaire latina. A vir ao de cima de dois em dois anos desde então, chegou agora a versão 3D. Se a história dos dois primeiros filmes pode ignorar-se completamente, até porque Step Up 3D faz delas tábua rasa, esta terceira ainda é pior. Os argumentistas misturaram descaradamente Rent (2005) e You Got Served (2004), a ver no que dava, e o realizador esqueceu-se que há uma grande diferença entre contratar bailarinos e actores, especialmente se o faz baseado unicamente no factor fotogénico.

Um menino bonito que gosta de fazer documentários tem uma discoteca que dá prejuízo e uma comunidade de dançarinos a morarem por cima. Com cinco meses de renda em atraso, espera ganhar um concurso de dança para pagar as dívidas e viver o sonho. Já foi amigo do seu maior rival, o qual faz tudo para destruí-lo; endinheirado, quer comprar-lhe o prédio assim que o Banco o leiloar e ganhar o mesmo concurso. O herói conhece uma bailarina, que quase não vemos dançar (nem a ele) mas por quem rapidamente se apaixona e a quem conta todos os seus segredos, e um jovem dançarino acabado de chegar à universidade e que tinha sido secundário em Step Up 2. Pelo meio, perde o imóvel (nunca lhe ocorreu vender a discoteca para manter o apartamento), o grupo, a namorada e só não perde o talento porque nunca o teve. Um dos elementos do grupo junta-se ao inimigo e outro revela-se uma toupeira. Despejado e sozinho, amarga as mágoas como empregado de mesa, mas os amigos vêm salvá-lo. Afinal, ainda há um concurso para ganhar.
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A um filme de dança, só se pede que a tenha em quantidade e que o enredo não atrapalhe. Step Up 3D cumpre a primeira regra, mas a segunda está constantemente a rasteirá-la. Jon Chu até pode ser apelidado de Realizador da Legião de Dançarinos Extraordinários entre os amigos, que isso não muda o facto de ser incompetente. Com este, já são dois Step Ups que estraga. Formar um grupo de dança com Adam Sevani (Ac/Dc, abreviatura para Adam/ Chu Dance Crew) também não parece ter ajudado.

Adam Sevani (prémio Young Hollywood para Melhor Rouba-Cenas por Step Up 2) e Alyson Stoner (Step Up), conheceram-se em 2004, nos anúncios da JC Pennys. Os pais dele têm uma escola de dança e filho de peixe já participou em telediscos de Will Smith e Missy Elliott e ela até o ultrapassou ao somar a esses videoclips os de Eminem e Outkast. Ele é uma sensação do freestyle e ela tem diploma em ballet, dança jazz e sapateado, mas como nenhum deles é um caso flagrante de sex appeal, os verdadeiros protagonistas do filme são os mais altos e mais bonitos Rick Malambri e Sharni Vinson, favorecidos pela rodagem em 3D, mas nada bafejados pela indigência narrativa do argumento de Amy Andelman e Emily Meyer. Entre os secundários, contam-se oito finalistas do programa So You Think You Can Dance (da quarta temporada, podemos ver Steven Twitch Boss, que foi partneaire de Kherrington Payne, uma das protagonistas do remake de Fama, de 2009, e actualmente uma Pussycat Doll).

Não se destacando do inócuo panorama de dança que prolifera como cogumelos, o filme falha em prodígios. Em vez de apostar na energia e na intensidade das batalhas campais em pista de dança, afunda-se numa cartola de onde estão constantemente a saltar coelhos raquíticos. As coreografias podem ter os seus momentos (não havia já um número musical com dilúvio no Step Up 2?), mas Jon Chu não. Sem alma nem brilho, Step Up 3D deixa-se ficar pelo caminho. Quanto ao efeito 3D, notório apenas em elementos luminosos decorativos, cada vez fica mais patente o seu artifício desesperado.

Step Up 3D 2010
O Evangelho Segundo Cinéfilo
1 Comments:
Esse Filme ´uns dos melhores que eu já assistir , fiquei iradoo com os passos e molejo da dança , esses caraas sabem dançar demais .
Se eu soubesse 30% desses passos tava feiito em miin !
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