Splice, de Vincenzo Natali

Vincenzo Natali surpreendeu o mundo fantástico com O Cubo (1997). Com uma sensibilidade enganadora, um grupo de prisioneiros tinha de compreender o funcionamento de um gigantesco mecanismo em formato de cubo mágico com câmaras armadilhadas, num viciante contra-relógio de sobrevivência. Cypher (2002), o seu segundo filme, embrenhava-se numa curiosa exploração do tema da lavagem cerebral e o terceiro, Nada (2005), fugiu ao figurino.

Splice, com argumento de Doug Taylor e de Antoinette Terry Bryant, era suposto ter sido o segundo projecto de Natali, mas o financiamento indispensável não foi obtido antes de 2007. Este básico conto de ficção científica não quer ser mais do que isso, mas consegue ser ainda menos. Um casal de cientistas mistura o seu próprio ADN numa experiência de cruzamento de genes animais e assiste aos diversos estádios de evolução de uma criatura híbrida, que se desenvolve de um pequeno feijão com patas até à aparência humanóide, guelras, asas e uma cauda com ferrão na ponta.

A narrativa regurgita alguns termos técnicos pseudo explicativos e perde-se no efeito especial da criatura, sem saber bem o que fazer com ela até ao final agendado com algumas mortes. Na fase adulta, a personagem é interpretada por Delphine Chanéac (Pantera Cor de Rosa, 2006), retocada digitalmente, atraente até com os olhos afastados para os lados, careca, quatro dedos em cada mão e três em cada pata e pernas de dobradiça dupla. Pelo contrário, Adrien Brody e Sarah Polley estão horrendos. Incapazes de garantirem a ilusão de serem cientistas, também ficam aquém de humanos.

Tão híbrido como o seu personagem central, Splice fracassa enquanto entretenimento, thriller ou drama. O guião na sabe unir os pontos a que se comprometeu e perde gradativamente a objectividade, criando distanciamento para com um público que deveria abraçar, de modo a maravilhá-lo numa primeira fase e assustá-lo na segunda. Infelizmente, os diálogos são embrutecedores e as insuficiências do relacionamento com a criatura revelam falta de tacto. O nome de Guillermo Del Toro (Blade 2, Hellboy I e II) na produção não é lenitivo. Esta mistura de A Noiva de Frankenstein (1935) e Species – Espécie Mortal (1995) não convence.

Splice 2009
O Evangelho Segundo Cinéfilo
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