Os Comandos da Noite, de Ted Kotcheff
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Depois de ter-se revoltado contra um simplório xerife local e incendiado a cidade que não o deixou comer uma sanduiche e tomar um banho, o herói de guerra John J. Rambo (A Fúria do Herói, 1982) foi encarcerado numa prisão militar e o realizador Ted Kotcheff teve de recorrer a uma equipa de mercenários sem soldo, para salvar desaparecidos em combate de um campo de prisioneiros no Laos. Curiosamente, dois anos depois, Rambo iria aventurar-se no Vietname com o mesmo intuito e uma perna às costas. Desconhece-se se terá sido tudo uma questão de timing ou a Vingança do Herói (1985).

Os Comandos da Noite é um típico filme de mercenários. Companheirismo de caserna e uma missão a cumprir. Dez anos depois do fim da Guerra do Vietname, de onde os americanos saíram derrotados, a humilhação continuava a grassar e a questão dos prisioneiros de guerra era ainda uma ferida aberta. Com o número redondo de 2500 soldados por contabilizar, as famílias preferiam considerá-los cativos a chorar a sua morte. Comandos da Noite alimentou-se dessa dor e deu origem a uma nova vaga.

Nas décadas de 50 e 60, tinha surgido um sub-género de filmes de guerra onde os heróis eram prisioneiros em campos de trabalho nazis ou japoneses, durante a Segunda Guerra Mundial. Figuram entre os seus expoentes máximos A Ponte do Rio Kwai (1957) e A Grande Evasão (1963). Durante e na década pós-Vietname, o cinema americano preferiu lamber as feridas e concentrou-se na exploração dos dramas psicológicos dos veteranos de guerra, regressados do conflito e manifestando dificuldades de integração na sociedade. São os casos de Taxi Driver (1978), O Caçador (1978) e Apocalypse Now (1979). A fechar o ramalhete, A Fúria do Herói (1982).
Mas nem tudo eram desgraças. Em 1981, o excêntrico e rebelde John Huston orquestrou uma fuga para a frente com a ajuda de uma bola de futebol (Fuga Para A Vitória, 1981) e Ted Kotcheff decidiu que estava na hora de armar a milícia. Se Gene Hackman já fora um Incorruptível Contra A Droga (1978), também seria capaz de liderar um grupo de veteranos e resgatar um punhado de prisioneiros de guerra. Assim foi.
A escapar a rótulos propagandísticos, Os Comandos da Noite é uma pequena e muito directa aventura. Construído em três partes, apresenta um coronel disposto a reunir cinco ex-combatentes do mesmo pelotão (junta-lhes um novato para a nova geração de público), treina-os e acompanha-os no ataque a um campo de prisioneiro no Laos, com vista à extracção do seu filho e dos outros POWs que encontrar. Para além de Gene Hackman, reconhecem-se do elenco Robert Stack, Fred Ward, Tim Thomerson e Patrick Swayze. Com direito a apenas uma cena, Jane Kaczmarek. Reb Brown, culturista loiro encaracolado, já fora Capitão América em dois telefilmes de 1979.

O filme cumpre o seu objectivo, de acordo com os padrões série B da época, mas actualmente não justifica mais do que uma nota de rodapé, pelo facto de ter despoletado o sub-género dos resgates de prisioneiros pelo exterior (em oposição às evasões de prisioneiros): Rambo II (1985) e a trilogia Desaparecido Em Combate (1984, 1985 e 1988). Desleixado na sua execução e facilitista no seu conjunto, ganha pontos, talvez, pelo facto de toda a missão girar em redor do coronel querer reaver o seu filho e descobrir que o mesmo morreu de doença; um outro pai, que financiou a expedição, teve melhor sorte.

Uncommon Valor 1983
O Evangelho Segundo Cinéfilo
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