Quarta-feira, Outubro 06, 2010

Operação Thor, de John Badham

Pela terceira vez num período de sete anos, o experiente Roy Scheider protagonizou um filme onde era o actor principal, mas não a estrela. Invisível ao público a não ser por causa de uma cortante barbatana, o ameaçador tubarão de Jaws (1975) era o alvo do assombro e medo das telas mundiais, o que viria a repetir-se em 1978. Cinco anos mais tarde, o ameaçador corpo de negras linhas esguias ergueu-se nos céus, desenvolveu hélices e um impressionante poder de fogo, cativando novamente as plateias.

Raio Azul é um helicóptero especializado em vigilância, munido de um equipamento da mais alta tecnologia, capaz de atingir alta velocidade, silenciar o ruído do rotor de cauda para operações furtivas, captar fotografias termográficas através de paredes e gravar imagem e som a longas distâncias. Para além de ser dotado de um sistema de visão nocturna por infravermelhos, tem um canhão dianteiro Vulcan M61 de 20mm, com capacidade para 4000 disparos por minuto, colocado numa plataforma rotativa por baixo do bico, orientada pelo capacete do piloto. A Columbia Pictures comprou dois helicópteros da franco-britânica Aérospatiale SA-341G Gazelle e a Cinema Air alterou-lhes os contornos da cabina, reforçando a figura esguia e imprimindo-lhe uma janela frontal multifacetada, quase insectóide, para intensificar o seu aspecto ameaçador. Praticamente invisível entre os arranha-céus da baixa de Los Angeles ou recortado contra o sol laranja do entardecer, Raio Azul é uma visão admirável.

Os primeiros esboços do argumento de Dan O’Bannon e Don Jakoby eram próximos de Taxi Driver (1978), com o herói a ser descrito como um sujeito psicologicamente instável, que eventualmente transformava a baixa de L.A. numa imitação de Beirute. Foram necessários grandes ajustes até à versão final o ter limado ao ponto de ser comercialmente viável, com envolvimento de mais três argumentistas, de cujos esforços acabaram por ser aproveitadas apenas curtas amostras.

John Badham estava no topo da sua carreira. Febre de Sábado À Noite fora um sucesso em 1977 (lançara John Travolta para a ribalta), Drácula (1979) também não se portara mal e 1983 estava a ser um ano excelente, com Ally Sheedy e Matthew Broderick a brilharem na aventura adolescente Jogos de Guerra. Operação Thor foi um projecto complicado, mas mais uma vitória no seu currículo, que viria a incluir Curto-Circuito (1986), Debaixo de Olho (1987), Na Corda Bamba (1990), A Assassina (1993), Em Queda Livre (1994) e Minutos Contados (1995). Incógnito (1997), marca a sua despedida da industria cinematográfica, passando a dirigir telefilmes e séries televisivas (Heroes, Mentes Criminosas, Las Vegas, Men In Trees, etc).

Frank Murphy (Roy Scheider), piloto do Departamento Astro da Polícia de LA, é demasiado curioso para a sua carreira. Convidado a experimentar as funcionalidades do novo helicóptero que irá integrar a frota para a segurança dos Jogos Olímpicos de Verão de 1984, descobre uma conspiração criminosa com vista a transformá-lo numa devastadora ferramenta anti-motim. Antes que possa denunciá-la, o piloto torna-se um alvo a abater, e a única solução é barricar-se no dito helicóptero e assegurar-se de que as provas chegam à imprensa.

Operação Thor não tem pretensões de cariz político, mas apenas de ser um western com asas, e essa missão cumpre-a na perfeição. Numa fase inicial, envolve a audiência na sua trama policial, a seguir maravilha-a com o impressionante design e as capacidades do único helicóptero negro de sempre para, subitamente, ligar o turbo e não voltar a abrandar. O Raio Azul enfrenta, nesse percurso, dois helicópteros Jet Ranger com atiradores munidos de metralhadoras M16 e M60, um caça F-16 com mísseis Sidewinder e ainda um helicóptero Hugues 500 com duas metralhadoras M230 Chain Gun de 30mm (usadas até hoje por helicópteros AH-64 Apache, que suportam apenas uma metralhadora por unidade).

Em termos técnicos, Operação Thor representa, aerodinamicamente falando, um marco inigualável. Pela única vez na História de Los Angeles, foi permitida a intromissão de helicópteros no seu espaço aéreo, nomeadamente em manobras arriscadas a baixa altitude, por entre os arranha-céus do financial district. Pela sua perigosidade, estas filmagens foram autorizadas só aos fins de semana e obrigaram ao encerramento ao trânsito de quarteirões inteiros, dentro de cujo perímetro eram admitidos apenas duplos. A cena em que o Raio Azul se desvia de um míssil, o qual explode contra um edifício, foi criada em estúdio, com um modelo à escala de 1/10 (comandado à distância), o que fez com que a maqueta do edifício que sofreu a explosão tivesse 22 metros de altura. Foi filmado apenas uma vez, com múltiplas câmaras a diferentes velocidades de registo, o que aconteceu igualmente com a destruição do helicóptero por um comboio, para a qual foi usado um modelo em PVC e alumínio.

Como Roy Scheider e Daniel Stern não eram pilotos, as cenas em que ambos estão simultaneamente visíveis no cockpit tiveram de ser filmadas em estúdio, com cenário projectado. Para simular a sensação de flutuação de voo com suficiente credibilidade, foi necessário um adereço do cockpit, assente num sistema hidráulico móvel, estando a câmara montada num mecanismo idêntico mas independente, para criar a ilusão da filmagem estar a produzir-se de outro avião. Para aumentar a ilusão de movimento, as janelas da carlinga receberam o reflexo de imagens do cenário projectadas num espelho. Esta foi apenas uma das dificuldades que o director de fotografia John Alonzo teve de ultrapassar, para além de mesclar a iluminação e o contraste da rodagem principal com a da projecção traseira.

O helicóptero que ganhou o concurso para tornar-se Raio Azul foi, como já mencionado, o Aerospatiale Gazele, especialmente devido à sua cauda semelhante à de um tubarão e à turbina na traseira, mas o que ficou por dizer foi que as alterações que sofreu lhe debilitaram a performance. O bico ficou tão pesado que a sua velocidade máxima foi drasticamente reduzida para metade e o tanque de combustível reduzido a dois terços da sua capacidade. Ainda assim, os dois helicópteros modificados representaram satisfatoriamente durante toda a rodagem. Após a conclusão, foram ambos vendidos, tendo um deles sido ainda recuperado para o spin off televisivo do filme, série que durou apenas uma temporada de 11 episódios em 1984. Um dos cockpits construídos para os close-ups sobrevive num quintal da Universal Studios, visível na visita guiada, sem direito a paragem, a ser lentamente corroído pela ferrugem.

Operação Thor é um filme que combina realismo com fantástico, uma aventura despretensiosa e energética com um helicóptero de recorte magnífico, inspirado nos bem sucedidos HueyCobra da Bell e no Apache AH-64 da Hughes Aircrafts; a mera presença do Raio Azul é tão marcante que se mantém actual até hoje na memória de incontáveis fãs. John Badham, um realizador excepcional no seu campo, capaz de divertir-se ao mesmo tempo que não lhe escapava nenhum pormenor, presenteou o público com uma direcção atlética e ardilosa. Roy Scheider, o protagonista, já contava com duas nomeações para os Óscares (secundário em Os Incorruptíveis Contra a Droga, 1971 e principal em All That Jazz, 1979) e tinha morto dois tubarões (a mítica frase «Vamos precisar de um barco maior», de Jaws, foi um acrescento seu ao diálogo), pelo que o vilão teria de estar à altura. A escolha recaiu sobre Malcom McDowell, nada menos do que o eterno fã de Beethoven e da velha ultra-violência de A Laranja Mecânica (1971), que um ano antes fora um homem-pantera que cobiçava a irmã, em Cat People (1982) – curiosamente, o actor tinha pânico de voar e Mary Steenburgen, sua esposa à época, manifestou incredulidade face a terem conseguido metê-lo num helicóptero, quando ela nem conseguia que viajasse num Boeing 747; verdade seja dita, alguns takes ficaram estragados pelo actor, de rosto crispado, ostentar olhos esbugalhados. Foi também o último filme a contar com a presença de Warren Oates.

Blue Thunder 1983

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