Machete, de Robert Rodriguez e Ethan Maniquis


Machete começou por ser um falso trailer, dirigido por Robert Rodriguez como parte integrante da double feature Grindhouse (2007), composta por um filme de Quentin Tarantino (À Prova de Morte) e outro de Rodriguez (Planeta Terror). Entusiasmado com o resultado, o realizador decidiu expandir a ideia numa longa-metragem e o resultado mantém a tradição Grindhouse. Planeta Terror troçava das fitas de zombies de baixa qualidade e orçamento dos anos 70 e Machete com os filmes de acção da mesma estirpe. Em vez da blaxploitation, inventou o mexploitation, mas o resto não foge ao figurino: é tudo mau.

Rodriguez afirma ter escrito as bases do argumento de Machete em 1993, assim que concluiu o casting de Desperado (1995) e seleccionou Danny Trejo para o papel de Navalhas. O argumento terá, porém, ficado esquecido entre borras de café e beatas de cigarro até 2006. Disposto a arriscar a sorte, Rodriguez empenhou-se numa carreira firme ao longo da década de 90, com a sua verve criativa a dar bons frutos. El Mariachi (1992) abriu-lhe merecidamente as portas de Hollywood e Antonio Banderas nunca esteve tão bom como em Desperado (qual Zorro), mas todos os seus encontros com Quentin Taratino têm sustido o primado deste (Quatro Quartos, 1995, Aberto Até De Madrugada, 1996, e Grindhouse). Faculty (1998) e Spy Kids (2000) ainda o encontraram em boa forma, mas as sequelas foram penosas (especialmente a terceira entrega, com Stallone como vilão). Sin City (2005) pode ter sido uma aposta ganha em termos gráficos, mas foi um tiro no pé condensar num único filme três histórias diferentes do universo de Frank Miller - uma teria bastado (preferivelmente, O Adeus Difícil). Era Uma Vez no México (2003) representa o calcanhar de Aquiles do realizador; classificável apenas entre o amadorismo e a imbecilidade. Se Rodriguez alguma vez entrar numa máquina do tempo, a sua primeira missão será apagá-lo da face da Terra.

Provada que está a falta de toque de Midas de Robert Rodriguez, Machete. Do trailer ao filme foi um passo, não só pela inspiração idêntica e os actores a repisarem os papéis, mas com as próprias vinhetas do trailer a serem aproveitadas na longa-metragem. A história prima pela falta de originalidade, intencional ou não, e, infelizmente, também de frescura. Machete é um ex-federale, supostamente morto por um drug lord na cena de abertura, que se vê envolvido, como bode expiatório, numa conspiração com vista à eleição de um político ultra-conservador; em vez de dar a outra face, vira-se contra os implicados e os efeitos especiais artesanais de Tom Savini não tiveram descanso, coadjuvados pelo mais irrealista sangue digital do mercado. O argumento de O Atirador (2007), de Antoine Fuqua, baseado no romance de Stephen Hunter, tinha um pressuposto próximo.

Danny Trejo é rei e senhor de Machete. Porta-estandarte do carisma bruto à Charles Bronson, Trejo não sai prejudicado pela eventual erosão da sua figura rochosa, especialmente se puder manter-se estático, e o guião esforça-se por assegurar que as suas falhas ao nível interpretativo não são demasiado expostas. Apenas quando é alvo de atracção por parte de uma mulher sensual, nota-se-lhe um breve esgar de embaraço, o que é perfeitamente natural, por se tratar das belezas incandescentes Jessica Alba e Michelle Rodriguez, com a decadente Lindsay Lohan a deitar água na fervura. Jeff Fahey e Don Johnson tentam reacender velhas glórias, Cheech Marin esforça-se por provar que não há filme de Robert Rodriguez sem a sua presença e Robert De Niro, que nunca mereceu a reputação, faz caretas. A fechar o ramalhete, o Steven Seagal monstruoso dos últimos tempos: gordo, velho e de cabelo pintado. A somar a geriatria de Os Mercenários (Sylvester Stallone, 2010) à de Machete, apenas Jean-Claude Van Damme fica de fora.

Machete não almeja a ser um bom filme, mas rapidamente se torna evidente que, independentemente dos seus objectivos, não é nada de especial. Desconhece-se a extensão do trabalho do co-realizador Ethan Maniquis (editor dos dois últimos filmes de Rodriguez), mas há mão pesada em muitas cenas, nomeadamente na segunda metade, despachadas a traço grosso. Apesar do sucesso de um projecto desta natureza depender seriamente das suas cenas de acção, não parece ter havido o menor esforço em coreografá-las. Em vez de ser destemido, empolgante e arriscado, Machete limita-se a ser um objecto curioso, mas vulgar. Admite-se que o seja intencionalmente, mas o factor entretenimento não deixa de ressentir-se. A cena mais inspirada é aquela em que Machete utiliza os intestinos de um homem como uma liana do Tarzan e a melhor frase é Machete Don’t Text.

Machete 2010
O Evangelho Segundo Cinéfilo
11 Comments:
ótima crítica!
estou bastante curioso com o resultado deste filme, eu havia gostado bastante do trailer ;)
o que queres dizer com "Robert De Niro, que nunca mereceu a reputação" ?
Alan, obrigado pela opinião.
Rui, acho que já tivemos esta conversa. O Bob de Niro teve a sorte de entrar nos primeiros filmes do Martin Scorcese e de ser confundido com eles, mas nunca foi um bom actor, é apenas um conjunto de esgares e caretas. Isso é especialmente patente em Heat, onde Al Pacino rouba todo o protagonismo (curiosamente, um filme onde também entra Danny Trejo) e nas comédias com Ben Stiller.
Antes de mais, acho que me lembraria bem se já tivéssemos tido esta conversa...
Eu não quero entrar em discussões de "é melhor/não, não é", mas sinceramente acho que a tua argumentação é quase ridícula.
Vires basear essa tua posição controversa com os filmes que De Niro fez com Stiller, que já sabemos que são maus, mas qual é o actor que não tem maus filmes na sua carreira, especialmente no final, e no Heat, em que isso de ser o Pacino a roubar o protagonismo é discutível, é muito limitado mesmo..
Quer dizer, eu agora basta-me atirar para aqui nomes como Cape Fear ou The Deer Hunter para ganhar a discussão...
Isto porque duvido que tenhas coragem de dizer que estas interpretações também são "um conjunto de esgares e caretas"...
Mas para quem refere primeiro os filmes de Stiller, quando pensa em De Niro, duvido que tenhas visto estes ou grande parte das grandes performances de De Niro, não?
Cape fear é o exemplo acabado de de niro a fazer esgares deploráveis durante um filme inteiro. vergonhoso. o caçador tem uma excelente representação de chistopher walker e uma boa actuação por parte de john savage. de niro não se destaca.
queres mais interpretações fracas de de niro? a lista é interminável: godsent, questões de nervos, 15 minutos, the fan, frankenstein, a vida deste rapaz, os intocáveis.
Enfim, ainda deve haver outros.
Ora bem a partir do momento que tu dizes o que disseste a respeito de Cape Fear e Deer Hunter, esta discussão torna-se obsoleta.
Uma coisa é não gostar do actor.
Outra é não reconhecer as suas capacidades, e dizer disparates. Enfim digo eu...
Cumprimentos
«obsoleto» quer dizer antiquado, desactualizado, ultrapassado por uma modernidade tecnologicamente mais avançada; ou arcaica, que caiu em desuso. como as discussões não caem em nenhum destes significados, logo aí se vê que o teu problema, para além da eleição de actores como se fossem teus heróis, está, também, no uso do português.
se não tens nada a comentar sobre o filme machete, para além do amuo em relação a uma opinião contrária à tua sobre um actor sobrevalorizado, temos pena.
é também curiosa a tua atitude próxima da Igreja Católica, que escolheu os Evangelhos que lhe apeteceu para construir a Bíblia e ignorou os que não lhe convinham. Ah e tal, as comédias com o ben stiller e com o billy crystal não foram lá grande coisa, vamos esquecer-nos delas e concentrar-nos nos filmes menos maus.
Não percebeste. Estava simplesmente a aceitar a divergência de opiniões, embora compreenda claramente que não conseguias fundamentar a tua.
Mas já vi que tu estás bem é a discutir, logo vou-te dar corda:
Mais ridículo do que tu te dares ao trabalho de pores aí a definição de obsoleto, só mesmo a tua inveja ou lá o que seja por eu defender (como se ele precisasse) De Niro.
Eu não tenho nada a comentar sobre o Machete, mas se formos a ver nem tu, já que a crítica (tal como quase todas as outras) não passa de uma série de curiosidades retiradas do Wikipédia e aqui compilhadas. Tu chegaste a ver o filme? Ou talvez tenhas ido com o PC para o Cinema, com a página aberta no wikipédia, a pensar no ódio que tens pelo De Niro?
Sim, estou a ser desagrádevel.
Não, não estou a falar do Machete.
Mas essa tua resposta reflectiu estas mesmas características, quando eu até já tinha dado por terminada, da minha parte, esta discussão e de forma amistosa.
Curioso, curioso é tu atirares para aí os títulos de filmes menos bons do De Niro e tentares ignorar aqueles que fizeram dele o grande actor que é e que lhe deram, por exemplo, os dois Óscares e mais umas quantas nomeações.
Não, deve ter sido engano da Academia. Se o De Niro trinta anos depois foi ganhar o dele com o Ben Stiller, então deve ser péssimo actor e só bom a fazer caretas...
Esse último paragráfo é ridículo, e eu nem sequer tinha mencionado o Billy Cristal. Mas para quem gosta de Alta Pedrada, Zohan e por aí, andas muito exigente...
Se as minhas críticas são meras compilações da wikipedia, pelo menos poupo-te o trabalho de ires às fontes. por outro lado, deves gostar de compilações, porque vens cá lê-las todas.
«inveja» é querer para si algo que é pertença de outro, por isso não vejo como possa ter inveja da tua defesa ao de niro. lá estás tu a inventar significados para palavras que te agradam apenas pela sua sonoridade.
curiosamente, nunca li nada na wikipedia a dizer que o bob de niro era mau actor. devo ter feito uma leitura na diagonal, que é o que, decerto, se faz nas compilações.
quanto ao billy crystal, eu já tinha mencionado as duas questões de nervos, por isso estavam na mesa.
sim, claro que o facto de não achar que o bob seja um actor excepcional torna questionável a minha opinião sobre todo e qualquer filme, nomeadamente comédias simples e despretensiosas como alta pedrada e zohan, que em lugar nenhum mencionei serem extraordinárias, mas apenas menos más do que suspeitava.
1-Pela tua ordem de ideias, então poderiamos dizer que o Al Pacino é mau actor... Fez o 88 Minutos e etc, filmes fracos não é?...
2-Para quem até não tem assim tantos visitantes e comentadores como isso, gostei de ver essa ingratidão por eu cá vir comentar.
É um erro que não tornarei a cometer.
Quanto ao resto, nem vou comentar porque não tenho paciência e já te dei corda em cima, não o vou fazer outra vez.
Para bom entendedor...
Agora vou só ali amuar, ler um manual de língua portuguesa para principiantes, e dar beijos na minha foto gigante do De Niro que tenho no quarto.
1 - só tu é que confundes maus actores com maus filmes.
2 - ingratidão? ah a comédia ...
3 - quanto ao teu último parágrafo, não duvido nada.
Enviar um comentário
Links to this post:
Criar uma hiperligação
<< Home