Robin dos Bosques, de Ridley Scott

Inglaterra, Séc. XIII. Devido à factura das Cruzadas e das constantes batalhas pela hegemonia contra a França, a Coroa via-se a braços com sérias dívidas, cuja solução encontrava na sobrecarga do povo com impostos, que coagia a uma população pobre e desmoralizada, incapaz de pagá-los. Nesse enquadramento, os bosques de Sherwood ganharam vida na figura de um campeão, o Arqueiro chamado Robin, que roubava aos ricos para distribuir pelos pobres.

Se a coerência em redor desta figura folclórica é pantanosa, a nova versão é pura e simplesmente árida. Começando pelo original, Robin dos Bosques é tão fantasioso quanto Jesus Cristo. Se a Bíblia compôs uma imagem do filho de Deus baseado na interpretação dos Evangelhos, que mais não eram do que fabulações orais e escritas que, cheias de contradições e omissões, foram sendo encontradas mais de cem anos depois dos factos que descrevem, também o arqueiro de collants é a recriação moderna de poemas e canções que remontam ao século XIV e XV, referindo-se a um fora-da-lei com um nome e uma proveniência que variavam de fonte para fonte.

Nesta aventura passada no reino do E Se, dois homens decidiram contrariar a idealização literária e as concretizações de Errol Flynn e Douglas Fairbanks. Ethan Reiff e Cyrus Voris, criadores da série Sleeper Cell, intitularam o seu projecto de Nottingham e centraram-no num retocado xerife, que passaria de vicioso a virtuoso. Até hoje, a fama do dito implementador da lei consiste em querer casar à força com lady Marion e perseguir Robin, paladino dos necessitados e terror dos abastados, a quem esta devotou o coração. A ideia era a de dar a volta à biografia, o xerife ser o herói e Robin o vilão. Ridley Scott contratou Brian Helgeland para rescrever o guião e torná-lo mais sombrio, ao que este respondeu com um triângulo amoroso entre os dois homens e lady Marion. Paul Webb sucedeu-lhe e a história ganhou os contornos definitivos, que ainda foram limados durante as filmagens por Tom Stoppard.

Esta recriação da época medieval, porém, é uma completa fabricação. Condensa num curto período situações realmente espaçadas por décadas e troca-lhes os intervenientes. Tira anos de vida a Ricardo Coração de Leão, faz a França invadir a Inglaterra em vez do oposto, inventa um sir Godfrey traidor (um personagem completamente inútil), oblitera o título nobiliárquico de Robin (fazendo dele um soldado raso que desertou) e entrega-lhe os seus merry men muito antes deste voltar a casa.

Todas estas liberdades seriam autorizadas se, pelo menos, respeitasse o princípio do entretenimento. Ridley Scott não é um novato na sétima arte, mas arte nem sempre tem descrito os seus filmes. Já passou três vezes pela Idade Média e foi vaiado em duas delas. De 1492 – Conquista do Paraíso (1992) só se aproveitou a banda sonora de Vangelis e de Reino dos Céus (2005) nem isso. Apesar de tudo, Gladiador (2000) foi um sucesso avassalador e ficou a ideia de que quem bate com espada também atira setas. Contudo, a distância não é a mesma e a miopia pode ser fatal. A dupla Ridley Scott/ Russell Crowe acertou no canto do alvo com Gangster Americano (2007), mas as flechas de Um Ano Especial (2006) e O Corpo da Mentira (2008) nem sequer lhe roçaram a superfície.

É impossível ignorar os méritos do conceptualista do future noir (Blade Runner, 1982), mas Robin dos Bosques só reforça os seus defeitos. Primeiro, a lenda do arqueiro foi tão aldrabada que, a ser vivo, ele poderia ter processado os estúdios. Outro título teria evitado as comparações. Muitos criticaram igualmente a escolha de Russell Crowe, invocando a idade deste. Aos 45 anos, é o mais velho actor a interpretá-lo. Até Sean Connery, quando interpretou um velho Robin, em A Espada e a Rosa (1976), tinha apenas 44. Para mostrar que era capaz, Crowe fez uma dieta intensiva. Ninguém sabe se terá tido também aulas de dicção, mas a verdade é que os entendidos dizem que a sua pronúncia varia entre o australiano, o irlandês e o escocês, o que é verdadeiramente espantoso, se considerarmos que, a um leigo, o seu discurso não se distingue de um resmungo ininteligível.

William Hurt e Max von Sydow representam a terceira idade, Cate Blanchett as mulheres sem peito e Oscar Isaac foi o mais parecido que se encontrou com Jonathan Rhys Meyers. Sem a menor oportunidade de mostrarem o seu engenho, nenhum deles tem do que orgulhar-se, especialmente Matthew McFadyen, cujo papel de xerife de Nottingham ficou reduzido a um cameo. Robin Hood deveria ter sido um épico, mas acaba por não ser nada. Falha como biopic, como filme de época, como aventura. Os seus personagens são meras peças de um jogo de xadrez para principiantes e fica por entender-lhe o objectivo. Se a proposta era apresentar a lenda com roupagens novas, como foi possível despi-la do factor lúdico? E onde foi gasto o orçamento? O palácio não tem corte, os exércitos não têm soldados, a frota invasora não passa de uma trama de barcaças digitais de baixa resolução. Braveheart e Rob Roy (ambos de 1995) celebravam o heroísmo de homens comuns, pessoas com coragem e carisma, capazes de mudar o rumo da História porque se preocupavam com aqueles que queriam proteger. Robin Hood não aprendeu nada com eles, nem com o Henrique V (1989) de Kenneth Branagh. Rob Roy é uma obra mediana, mas Braveheart e Henrique V são arrebatadores, apaixonantes, a sua força cresce-lhes das entranhas e precisa de ser gritada para ser ouvida, os seus personagens são torturados e os seus clímaxes demolidores. Para versões inovadoras de velhos clássicos, é incontornável a referência à ousadia da escritora Marion Zimmer Bradley em apresentar a lenda do Rei Artur documentada pelo lado das personagens femininas. As Brumas de Avalon é uma experiência tão intemporal quanto O Senhor dos Aneis. Robin Hood, por seu turno, é um filme tosco, sem ímpeto, emoção ou razão de existir.

Robin Hood 2010
O Evangelho Segundo Cinéfilo
6 Comments:
Caro Ricardo,
julgo que o problema deste filme é não retratar o Robin dos Bosques que o folclore nos deu a conhecer, mas sim o "cidadão" que decidiu levar uma vida de "roubar aos ricos para dar aos pobres". Por isso, nem mesmo que lhe tivessem alterado o título para ROBIN HOOD BEFORE ROBIN HOOD ou coisa semelhante, acabo por concordar com a tua conclusão: "um filme sem razão de existir".
Tem alguns pormenores técnicos interessantes, pois Ridley Scott continua a possuir um dos melhores "olhos" da indústria. Pena que os argumentos dos seus filmes não lhe façam justiça...
Cumps cinéfilos.
P.S.: se me permites a opinião pessoal, eu gostei bastante do 1492. Sei que não é uma obra consensual, com bastantes liberdades históricas, mas nunca me estafou revê-lo — a banda sonora, essa sim, cansou-me!
Menino, adoro suas resenhas!
Vê se não pára, morro de desgosto ao ver blogueros de qualidade desistindo! ;)
Obrigado, Ofanso.
Então vê se me segue, ouviu?
Sam,
o problema do título é que nunca existiu nenhum cidadão chamado robin dos bosques. existiu, sim um folclore baseado em canções e em poemas sobre alguém que roubava aos ricos e dava aos pobres. os historiadores começaram a aglutinar todos esses poemas e atribuíram-lhe um herói unificado, que no século XIX e XX passou para as bandas desenhadas e depois para o cinema.
o que ridley scott fez foi filmar uma historieta com uma mistura de elizabeth, braveheart e rob roy e dar-lhe o nome de robin dos bosques só porque e chamativo. foi pura aldrabice.
mas esse não é problema do filme, o problema é que o filme não é divertido, não entretém, não é interessante. é longo, secante e pesado.
as brumas de avalon, por exemplo, são um exemplo de como alterar as coordenadas a uma história clássica e mantê-la cativante.
sam,
a música do 1492 cansou-te não por ser má, mas porque esteve nos tops muitas semanas e porque o PS a usou nas campanhas do guterres.
Ricardo,
é mesmo por isso que "cansou"! Infelizmente, diga-se de passagem...
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