Quarta-feira, Setembro 29, 2010

Repo Men, de Miguel Sapochnik

A sinfonia da ultraviolência foi transformada numa experiência de banda de garagem. Num futuro próximo, o comércio de órgãos artificiais permite prolongar a esperança de vida, mas o seu preço é tão exorbitante que a maior parte das pessoas os adquire em prestações. Como nem toda a gente paga as dívidas, existe um departamento de psicopatas com a função de recuperar os ditos órgãos quando os seus arrendatários não cumprem três pagamentos. Recuperar significa abri-los com um bisturi, onde quer que os encontrem, e recuperar o material.

Ao longo dos últimos catorze anos, Darren Smith e Terrence Zdunich dedicaram-se ao musical Repo! A Ópera Genética, peça que foi sofrendo mutações até à sua adaptação ao celulóide, em 2008, pelas mãos de Darren Lee Bousman (Saw II, III e IV). Repo Men não tem qualquer ligação a esse grupo, apenas partiu do mesmo pressuposto. E estupidificou-o.

Repo Men adianta-se pelo olhar inumano de quem estabelece ou imprime as regras. Quem não paga as prestações de um órgão, fica sem ele. Claro que a remoção é uma sentença de morte, mas o guião interpreta-a como uma consequência esperada de alguém que não cumpre as suas obrigações. Jude Law e Forest Whitaker são dois cobradores orgulhosos do seu ofício, sociopatas violentos até o protagonista sofrer um acidente, receber um coração novo, ficar traumatizado e tornar-se incompetente. Falha uma prestação e é perseguido, entre outros, pelo ex-parceiro. Mas Repo quer ser o novo Rambo e não cai sem luta. Curiosamente, a operação criou um distúrbio ao protagonista que o impede de cobrar órgãos a desconhecidos, mas não o coíbe de matar indiscriminadamente quem lhe cruza o caminho, inocente ou não, pelo que a moralidade da história se perde rapidamente...

A ideia básica, roubada à Opera Genética, podia ter sido levada em inúmeras direcções, mas os argumentistas do filme preferiram o despreocupado simplismo. Os heróis vão buscar os órgãos a casa de pessoas que sabem que estão em dívida, mas continuam o seu dia-a-dia como se não estivessem a um passo de serem esventradas. Contradizendo quem julgar que as pessoas não sabiam que esta era a consequência do seu incumprimento, porque é que na rua têm medo deles (são identificados por uma tatuagem no pescoço) ou a polícia não conduz investigações criminais? Por outro lado, é idiota que um Repo nunca seja aguardado por um devedor armado (a data de cobrança é fixada electronicamente, não é aleatória) ou que pessoas que têm, nitidamente, bens, não evitem a morte. Pior do que isso, a ideia de Ordem ficou completamente de fora desta realidade: quem aluga órgãos pode cometer homicídio para recuperá-los. Não há lei, polícia, Governo?

Para além de terem roubado a ideia a Repo! A Ópera Genética, Miguel Sapochnik, Eric Garcia e Garrett Lerner lançaram igualmente mão à ideia de mudança de atitude após uma operação traumática de Laranja Mecânica (1971), à das férias electronicamente induzidas de Total Recall (1990) e à de alguém de dentro do sistema ser marginalizado e acabar por destruí-lo a Brazil (1985).

Com a excepção do manhoso Liev Schreiber, os actores foram mal escolhidos. Jude Law já chegou a ser apontado como o actor mais bonito da Inglaterra, mas a medonha calvície que se lhe tem alimentado da pilosidade das entradas (e duas peladas do mesmo lado da cabeça) compõe um figurino muito triste; Jason Statham e Bruce Willis têm cabeleireiros muito mais visionários. Law escapava como sidekick de Robert Downey Jr., em Sherlock Holmes (2009), porque era evidente que estava fora do seu meio quando erguia os punhos, mas a assentar sobre os seus ombros a responsabilidade de impulsionar um filme de acção, é lamentável. E desastrosa é igualmente a presença de Forest Whitaker, que pode treinar a vida inteira artes marciais filipinas sob as instruções do mestre Dan Inosanto (Game of Death – O Último Combate de Bruce Lee, 1978) mas, visualmente, nunca será um Terminator, com as suas feições envergonhadas e o tronco desajeitado a serem acentuados pela nítida dificuldade respiratória. Alice Braga e Candice van Houten estão irrepreensíveis como actrizes, mas não deixam de ser maltratadas pelo guião.

Repo Men é uma experiência frustrante. Sem nenhuma qualidade própria ou roubada, rapidamente limita o cinéfilo ao jogo de lhe contabilizar defeitos. Esgota-se no visual excessivamente gore, pautado por uma alegria e despreocupação em chocar, quando poderia sustentar-se na ideia muito actual do sobre-endividamento das famílias (derivado de um excesso de compras a crédito) e na imoralidade da cobrança de órgãos em vida, desenvolvendo uma trama concertada a partir daí.

A dar o seu ao seu dono, convém ainda recordar os irreverentemente célebres Monty Python e o seu sketch Transplante de Órgãos Vivos, do filme O Sentido da Vida (1983), onde dois paramédicos esventram, com requintes de sanguinolência, um dador de órgãos ainda vivo, para lhe reclamarem o fígado. já aí estavam os alicerces para que, mais de vinte anos depois, coisas melhor pensadas adviessem. O Sentido da Vida ganhou o prémio do Júri do Festival de Cannes de 1983, enquanto que Repo Men já caiu no esquecimento.

Repo Men 2010

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