Terça-feira, Setembro 14, 2010

Os Mercenários, de Sylvester Stallone

Num invulgarmente tranquilo passeio de traineira, por um rio castanho vietnamita, John J. Rambo explica à guia e resistente anti-bloco soviético, que o acompanha, a razão de ser enviado para missões perigosas em solo inimigo. Enquanto afia o gume da imponente faca de mato como se afinasse as cordas de um violino, com a boca de lado que o caracteriza desde o parto, confessa, de forma terna e abrutalhada, que é «por ser dispensável». Ao que ela, a mais bonita guia e resistente anti-bloco soviético que o Vietname alguma vez viu, responde: «Rambo, tu não és dispensável». Esta é uma cena de Rambo II (1985), de onde virá, porventura, inspiração para o mais recente título de Sylvester Stallone.

Um quarto de século depois, a grande questão é saber se este já terá esgotado as suas sete vidas. Após um filme pornográfico e de um vislumbre no início de Bananas (Woody Allen, 1971), o pobre arrumador de cinema saltou para a tela ao vender o seu argumento sobre um cobrador de dívidas de quinta categoria que ascendia a campeão de pesos pesados de boxe (Rocky, 1976). Estrela cadente ao longo dos anos 80, começou a apagar-se ao mesmo tempo que a década.

Vestidos e despidos três Rambos e quatro Rockys, de ser a cura para o crime (Cobra, 1986) e de pôr toda a gente a fazer braço-de-ferro (Over The Top, 1987), ninguém gostou que fosse saco de pancadas em Prisioneiro (Lock Up, 1989) e o sabor amargo de boca manteve-se nos dois filmes seguintes (Tango e Cash e Rocky V). Empurrado contra as cordas, tentou evitar o pior com duas comédias (um género onde Arnold Schwarzenegger, visto como o seu concorrente directo, estava a sair-se bem), mas foi ao tapete.

Quando as apostas indicavam que não seria capaz de levantar-se, surpreende tudo e todos com Cliffhanger (1993), seguido de um segundo período de ouro. Homem Demolidor (1993) e O Especialista (1994) reinaram, Judge Dredd (1995) apenas foi criticado pelos mais puristas fãs dos comics que adaptou e Assassinos (1995), apesar do argumento dos irmãos Wachowski (com rescritas de Brian Helgeland) e da realização segura de Richard Donner, não teve as receitas esperadas, mas é um bom filme. Contudo, a sua imagem de valentão voltou a desgastar-se e a tentativa de invocar um herói maduro (expressão já usada a propósito de Assassinos, escrito originalmente para Sean Connery) em Daylight (1996) desiludiu, confundindo credibilidade com tédio. A bola de neve foi tal que o facto de ter engordado 18kg para interpretar um xerife em Copland (1997) foi recebido com um encolher de ombros e Get Carter (2000), o único filme interessante que interpretou nos dez anos subsequentes, passou despercebido.

Em 2006, face à sua (aparentemente inevitável) extinção, decide reabilitar os ícones a que deu corpo e o seu discurso convence os indefectíveis: os sessenta anos são a nova juventude. A Rocky Balboa (2006) segue-se Rambo (2008) e Stallone está pronto para uma ideia megalómana: fazer uma reunião de antigos combatentes.

Os Mercenários são, então, uma trupe musculada e enrugada, feita de relíquias com nomes que despertam memórias. Stallone até já tinha trabalhado com alguns deles: Dolph Lundgren (Rocky IV), Eric Roberts (O Especialista), Mickey Rourke (Get Carter) e os ex co-proprietários da cadeia de restaurantes Planeta Hollywood, Bruce Willis e Schwarzenegger. A equipa fica concluída com Jason Statham, Jet Li, Terry Crews (ex jogador da NFL e provavelmente o menos conhecido do lote) e Randy Couture (lutador da UFC). Do lado dos vilões, o quadro completa-se com Steve Austin (ex-wrestler da WCW e WWE) e Gary Daniels (praticamente desconhecido do grande público, mas um excelente kickboxer com mais de cinquenta filmes no currículo e dos poucos loiros com sotaque britânico a singrarem no género). Jason Statham e Jet Li já tinham trabalhado juntos em The One – Força Explosiva (2001) e Guerra (2007) e Terry Crews com Steve Austin em Os Quebra-Ossos (2005).

Ao seu chamado, ficaram por responder Jean-Claude Van Damme (achou sem substância o papel oferecido), Steven Seagal (devido a problemas anteriores com o produtor Avi Lerner), Kurt Russell (recusou fazer parte de um ensemble), Wesley Snipes (o processo judicial de fuga aos impostos impediu-o de deixar os EUA e o filme foi filmado no Brasil; o seu papel passou por Forrest Whitaker e 50 Cents antes de ser entregue a Terry Crews). O papel de Danny Trejo foi simplesmente cortado por razões orçamentais.

O maior mistério, porém, não é que esta elite geriátrica ainda consiga mexer-se, mas que Stallone tenha necessitado de dois co-argumentistas para uma aventura tão básica. Em exibição no mesmo verão que Soldados da Fortuna, Os Mercenários é mais fiel a este arquétipo do que o remake homónimo (The A-Team, 2010) e, nesse sentido, é o verdadeiro repescar do conceito de acção em voga nos anos 80, catapultado para três décadas no futuro, com todo o seu amadorismo, simplicidade e ar de cartoon. Para além de ser uma extended version da série A-Team, tem também uma pitada de MacGyver onde menos se imagina. De A-Team, retirou a fantasia de um pequeno país da América do Sul, com meia dúzia de metros quadrados, governando por um ditador que viola os direitos humanos dos seus cidadãos e apenas pode ser derrubado à lei da bala (Stallone diz que se inspirou no regime panamiano de Noriega). A influência de MacGyver não se prendeu com canivetes suíços nem na construção de ogivas nucleares com um rolo de papel higiénico e um fósforo, mas no facto de, até então inédito, a recompensa do herói, após salvar a donzela de um destino pior do que a morte, ser apenas um abraço.

A contrariar o espírito de inconsequência dessas séries icónicas está a brutalidade visceral já patente em Rambo (2008) que, pelos padrões gráficos actuais, atinge a intensidade catalogada como hiperbólica, na vertente anedótica. Nesta óptica, Os Mercenários não fazem amigos. E não deixam os inimigos inteiros. Stallone diz que um homem que se prepara para violar uma mulher não pode ser simplesmente morto com um tiro indolor e é impossível discordar: há que fazê-lo sofrer. Nem que seja com jorros de sangue digital.

Se a décade de 70 cultivou alucingénicos, a de 80 dedicou-se aos esteróides e Os Mercenários não tem memória fraca. O seu objectivo é muito definido e, por isso, a narrativa é peso pluma. Para acender o rastilho da testosterona, só é preciso ter uma missão, um grupo de elite e um vilão. Stallone e Statham são os únicos com personagens feitos de mais do que uma folha de cartão e as femme fatales são cortadas à medida deles: uma guerrilheira (Gisele Itié) para o primeiro e uma vítima de violência doméstica (Charisma Carpenter) para o outro. Se Charisma se deixa ofuscar pela fraqueza da sua personagem, Gisele domina completamente. Ela é sensual, desenvolta e despachada, sem se esforçar minimamente. Não admira que enfeitice o herói e faça precipitar tanta violência com a sua salvação. Esta actriz brasileira nascida no México tem nove anos de telenovelas da Globo e participou na mini-série Os Maias e no filme português O Mistério da Estrada de Sintra (2007). É também conhecida por ser a Betty Feia brasileira (Bela, A Feia). Charisma Carpenter brilhou muito mais nas séries de Joss Whedon Buffy A Caçadora de Vampiros e Angel do que aqui, mas não deixa de ser uma mulher maravilhosa. Capa da edição de Junho de 2004 da Playboy.

Voltando à história, a sua excessiva simplicidade desperdiça inúmeras oportunidades e não explora as potencialidades individuais de cada estrela. Não se entende porque Statham foi privilegiado com a única história paralela ou porque é necessário esperar pela última meia-hora para que a aventura se torne inflamável. Claro que o filme não se propunha a ser um marco em termos narrativos, apenas uma reunião de antigos alunos, com cada um deles a posar para a foto com uma metralhadora nas mãos. Esse objectivo foi largamente ultrapassado pelo engenho de Stallone, aqui também como realizador, pela primeira vez desde A Febre Continua (1983) a filmar alguém que não Rocky ou Rambo. As explosões são monumentais, a acção é empolgante e, cabe assumi-lo, o que queríamos era pura e simplesmente ver esta malta toda junta, fosse lá a fazer o quê. O facto de os vermos em poderosos combates corpo-a-corpo é um bónus inestimável.

A banda sonora está a cargo do fantástico Brian Tyler, a quem Stallone recorre novamente, depois de ter substituído Jerry Golsmith em Rambo (2008), devido à morte do mítico compositor das três primeiras entregas (2004). Tyler é também o compositor de Guerra (2007), com Jason Statham e Jet Li.

Por fim, as idades do elenco: Stallone 64, Lundgreen 52, Statham 38, Li 47, Schwarzenegger 63, Willis 55, Rourke 57, Austin 45, Crews 42, Roberts 54, Couture 47, Daniels 47. Giselle Itié tem 27 anos e Charisma Carpenter 40.

The Expendables 2010

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