The Karate Kid, de Harald Zwart

Por trás de Karate Kid – O Momento da Verdade (1984), estava o homem que fizera Rocky (1976) ganhar três Óscares, incluindo Melhor Filme, Melhor Realizador e Melhor Argumento Original. Para John G. Avildsen, Karate Kid foi como pegar num Rocky ainda adolescente, porque a essência era a mesma, só mudava o nome da luta. Era a história do Zé Ninguém que chegava a campeão. Até a escolha do actor Ralph Macchio, um italo-americano, traçava paralelo com Sylvester Stallone. As limitações de Ralph Macchio como actor eram mais do que muitas e já tinham ficado provadas em Os Marginais (1983), de Francis Ford Coppola, mas havia nele uma fragilidade que podia ser explorada, porque contrastava com a atitude de desafio que se lhe lia nos modos e com a luminosidade que irradiava da sua expressão quando algo lhe corria bem. Pat Morita, o eterno Sr. Miyagi, era o oposto; pequeno e compacto, transpirava confiança e sabedoria. Morita foi nomeado para um Oscar e para um Globo de Ouro pelo seu desempenho; ele, a quem inicialmente tinha sido recusada audição, devido ao seu passado de comediante, nomeadamente na série Happy Days.

A primeira trilogia manteve o triunvirato vencedor (realizador, argumentista e actores principais), mas é inegável que a qualidade foi decrescendo violentamente, além da técnica de Ralph Macchio não parecer desenvolver-se. Em 1994, apenas Pat Morita regressava, com um kid de saias – Hilary Swank já foi uma Million Dollar Baby (2004), mas esse fascículo enterrou a franchise por 16 anos.

Depois de ter plantado a semente em Em Busca da Felicidade (2006), Will Smith achou que era hora de colher o fruto. Para ele, que se notabilizou em filmes de acção como Bad Boys (1995) e Dia Da Independência (1996), nada melhor do que o remake de um clássico para adolescentes que ainda hoje mantém a frescura. Como o kid já tinha sido branco (I a III), branca (IV) e ido ao Japão (II), só faltava ser negro e ir à China. Podia era ter-se intitulado Kung-fu Kid; mantinha as iniciais (KK) e seria coerente. O karate é uma arte marcial japonesa, não mencionada no novo filme, nem sequer como escárnio ao protagonista.

A razão da manutenção do título, para além de capitalizar no sucesso do original, deve-se ao facto de plagiá-lo descaradamente. Daniel (Ralph Macchio) era um miúdo pobre que mudava de cidade com a mãe, conhecia uma rapariga que tinha um ex-namorado violento e convencido, era alvo de bullying por parte deste e dos seus amigos que treinavam karate, aprendia com um velho mestre e ganhava o respeito de todos num torneio local. Tirando o pormenor de mudar de Continente em vez de cidade e de adoptar a correspondente arte marcial, a oriente nada de novo.

Para não destoar da onda de remakes da última década, o resultado é uma sombra do original. Para já, porque não é o primeiro filme a beber da mesma fonte. Em 1986, Jean-Claude Van Damme estreava-se em solo americano como o vilão de Rendição Incondicional, um filme onde o papel de Mr. Miyagi era entregue à maior sumidade mediática das artes marciais, o inigualável Bruce Lee (enquanto personagem, claro, porque entretanto o actor falecera). Tão próximo como 2008, dois títulos podiam reclamar influências directas: O Reino Proibido e Never Back Down – Até Ao Último Combate. O mais óbvio dos dois é um digno e orgulhoso sucessor: Never Back Down seguiu a fórmula, mas soube actualizá-la, condimentá-la com actores interessantes e com coreografias de luta impiedosas. O Reino Proibido misturou a fórmula Karate Kid com O Tigre E O Dragão, aliciando o público com a primeira aparição lado a lado de duas estrelas míticas de Hong Kong: Jet Li e Jackie Chan. Por falar neste último, em O Reino Proibido já ensinava um franzino adolescente americano a defender-se...

Sábio nas suas máximas de bolinho da sorte, distinto de modos e honrado nas atitudes, Mr. Miyagi rapidamente fazia esquecer a sua baixa estatura. Foi tal a dignidade que o actor Pat Morita lhe conferiu, que tornou impossível dissociá-los. Na versão chinesa, Mr. Miyiagi foi substituído por Mr. Han, interpretado pelo inconfundível Jackie Chan. Parecia uma escolha segura, já que este antigo atleta da Ópera de Pequim é a maior referência viva das artes marciais e a sua natureza brincalhona garante-lhe o sucesso junto dos mais novos. Infelizmente, Jackie Chan quis distanciar-se de Mr. Miyagi e, em vez do charme de Morita, seguiu na direcção oposta. É verdade que começou a carreira como Drunken Master (1978) mas até em O Reino Proibido fazia de bêbado imprestável. Em vez de um personagem marcante, somos brindados com um copo vazio, uma lamentável figura amorfa e sem postura. Quanto à representação, esse nunca foi o forte de Jackie Chan. A cena em que Mr. Miyagi chorava a morte do filho era tão pungente com Pat Morita que legitimava a sua relação com o jovem americano. Com Mr. Han, a cena é tão trôpega que deveria ter sido eliminada.

Jaden Smith, filho de Will Smith e Jada Pinkett-Smith, é embirrante. Já o era em O Dia Em Que A Terra Parou (2008) e só não o foi em Em Busca da Felicidade (2006) porque o seu papel consistia em ser arrastado por Will Smith de um lado para o outro a queixar-se de fome, frio e sono. Em Karate Kid (2010), nem se esforça. Jaden Smith é uma criança mimada que não gera empatia. Antes de partir para a China, o melhor amigo oferece-lhe um skate e ele aperta-lhe a mão com indiferença (é uma despedida definitiva, recebe uma prenda, o outro está quase a chorar e ele não lhe dá sequer um abraço?); não acha importante aprender a língua do país de acolhimento; é desobediente para com a mãe e comporta-se com casualidade para com o primeiro amigo americano que faz em Pequim. Se Mr. Han não se propusesse a ensinar-lhe kung-fu, também o teria tratado com sobranceria. É uma fraude como miúdo pobre e medíocre a dançar hip hop. Moral da história, dá mais vontade bater-lhe do que defendê-lo.

Se os actores são o sopro de vida de um filme, estes dois envenenam-no. Mas, não são os únicos. O par romântico de Jaden Smith é Wenwen Han, uma chinesinha magra, feia, mais alta do que ele e a tentar imitar o penteado de Cameron Diaz em Doidos Por Mary (1998), após a adição do gel (aqui é com um travessão, mas o efeito é o mesmo). O mestre dos vilões (Rongguang Yu), em vez da crueldade que deveria transmitir (Martin Kove, no original, só precisava de respirar para ser odioso), tem um semblante compreensivo e cansado. O bully (Zhenwei Wang, de 14 anos) é tão anónimo que ninguém daria por ele numa multidão.

Se o casting foi conduzido por cegos, o argumento foi peneirado por autistas. Christopher Murphey limitou-se a transplantar a história de Robert Mark Kamen, repetindo as cenas que tornaram o original memorável e obtendo o redutor efeito Gus Van Sant (Psico, 1998). Vilões que não impressionam, bons que não se apreciam, plágio, cópia e imitação. Além da já mencionada cena de elegia, é repescado o treino camuflado – mas enquanto havia um propósito válido no wax on, wax off de Miyagi, pois encerar um carro e pintar uma cerca são tarefas válidas, vestir e despir um casaco durante horas, dias seguidos, é apenas aborrecido e ridículo, se considerarmos que a criança até tem de o fazer em dias de chuva – quer isto dizer que tem de deitar o casaco ao chão molhado e vesti-lo, vezes sem conta. A cena que precipita os eventos funcionava no original (na festa de Halloween do liceu, um Daniel envolto numa cortina de duche pregava uma partida aos bullies, achando que se safava, precisamente por estar disfarçado), mas é absurda na versão de 2010: Dre está atemorizado pelos bullies, mas derrama sobre eles um balde de água suja (achou que não haveria repercussões?). Mr. Miyiagi embebedava-se na noite de aniversário da morte do filho, mas Mr. Han passa o ano a reconstruir o automóvel onde a esposa e o filho perderam a vida, apenas para o destruir à paulada no aniversário desse evento e repetir o processo. Wax on, wax off...

Por ser incontornável a presença de Jaden Smith, a idade do Karate Kid desceu para os 12 e o resultado aproxima-se de uma produção dos estúdios Disney. Estranhamente, Will Smith não escolheu para trás das câmaras ninguém com quem já tivesse trabalhado e permanece envolto em mistério qual dos filmes de Harald Zwart o terá impressionado. O percurso deste norueguês identifica-o como um mero tarefeiro, capaz de pouco mais do que dar movimento a storyboards e acompanhar os actores com a câmara. Serve de prova a sua amostra americana: Um Perigo de Mulher (2001), Agente de Palmo e Meio (Cody Banks, 2003) e a sequela de Pantera Cor de Rosa (2009). Certo é que Zwart não trouxe qualquer mais valia ao projecto. A China é filmada como mera paisagem, o enredo trôpego não ganhou energia e os personagens não funcionam bem entre si. Assim como Tokyo Drift (2006) alterava as coordenadas, mas mantinha a velocidade em piloto automático, Karate Kid também não sabe o que fazer com a mudança e por isso distrai-se, sem saber aproveitá-la. Chinatown teria sido uma opção mais económica, mas a equipa queria viajar. O realizador também perde tempo e ritmo ao esticar eventos acessórios como a visita à Cidade Proibida e à festa local. Os que realmente importam, ficam por esclarecer. Por exemplo, se o kid nem sabe sequer pedir pão numa padaria chinesa, o que aprende ele numa escola secundária onde a língua oficial não entende? Zwart também não soube criar simpatia para com o kid. Ele não se dá bem com a mãe, não se dá bem com o Mr. Han e é um fraco Don Juan. Os maus são meros fantoches bidimensionais, esgotam-se no propósito simplista de o serem e voltam para a caixa. Desde o momento em que a trégua é estabelecida, pura e simplesmente desaparecem do mapa, para só reaparecerem num momento à Nelson (dos Simpsons), após a audição da violinista.

Qual é a palavra-chave em Karate Kid? A opção do estúdio aponta para a segunda, enfardando nas dificuldades de adaptação do personagem a uma terra distante, a uma miúda mais talentosa do que ele e a um mestre que embirra com o seu casaco. As artes marciais propriamente ditas são relegadas para um canto, despachadas nos últimos metros de bobina, no medley da praxe e no torneio final (quantos filmes de dança sofrem do mesmo mal?). Ninguém aprendeu nada com Jean-Claude Van Damme? Não só em Rendição Incondicional, mas também em Bloodsport, Kickboxer e O Legionário, o herói treinava arduamente para tornar-se campeão, melhorando a sua técnica até ser capaz de derrotar o inimigo mais temido. O treino era visto como parte do processo, ninguém acorda paladino. Em Karate Kid, a primeira palavra inspira vergonha, as artes marciais são mantidas na sombra tanto quanto possível, talvez para não exacerbar o elemento agressividade. Seja como for, o título mantém-se e Jaden Smith, pelo menos, deveria transformar-se num praticante capaz de inspirar adeptos; afinal, teve dois anos para treinar. Mas não, é o típico culto da mediocridade americano, que recorda os tristemente célebres casos de Michael Dudikoff, estrela da saga American Ninja, que confundia artes marciais com pugilismo, ou de David Carradine, na mítica série Kung Ku, que só foi contratado por ser um americano com feições asiáticas (Bruce Lee foi rejeitado nas audições). O golpe final de Karate Kid (2010) é inimaginável: com uma perna partida (repito: partida), o kid desfere um pontapé vertical em pleno salto mortal à retaguarda, sem o menor treino acrobático que não sejam os cabos apagados em pós-produção.

Nem tudo é mau. A banda sonora de James Horner é cativante, a somar ao regresso em força de Avatar (2009). De resto, Karate Kid é irrealista, inverosímil, disparatado e anedótico. Uma curiosidade: a cena em que Mr. Miyiagi (e agora Mr. Han) tenta apanhar uma mosca, com pauzinhos de arroz, é inspirada em Bushido (1956).

Karate Kid 2010
O Evangelho Segundo Cinéfilo
13 Comments:
é impressionante como ele consegue ser tudo aquilo que eu imaginava que seria.
uma tristeza. é que nem sequer entretém. mil vezes o A Team, que é mais baseado na série do que um mero remake. é que o karate kid é o 5º filme karate kid, podiam ter feito coisas novas, mantendo só a base. mas não, era preciso fazer tudo tão igual que só perde no que é diferente.
a base do filme está toda errada, não dava para resultar.
não percebi. que base é que está toda errada?
a escolha dos actores foi do mais errado possível, tendo em conta que é das coisas mais importantes...
nisso concordo, claro. o filho do smith é horrível e o jackie chan tão tem classe para ser professor de ninguém. aliás, toda a sua carreira fez de falhado.
precisamente por isso, eu do resto não posso falar porque não vi
podias estar apenas a basear-te no que escrevi.
tu vieste confirmar tudo aquilo que eu pensava que o filme seria, não falhaste uma:P
Este comentário foi removido pelo autor.
agora tenho que ir ver o filme, fiquei curiosa :p
olha eu ate achava piada ao miudo, mas agora começo a ter duvidas....
Uma bosta
Teen, vais detestar ...
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