Quarta-feira, Agosto 18, 2010

Visto do Céu, de Peter Jackson

Visto Do Céu é um projecto que Peter Jackson acalentava desde o ano de publicação do livro de Alice Sebold (2002), mas o direito de adaptação só ficou disponível em 2005, após caducar o da Channel 4, que o tinha adquirido ainda o romance não estava completo. A história não é de fácil catalogação, a fazer jus à carreira do próprio cineasta, a qual teve início com uma curta metragem de animação (O Vale, 1976), passou por mortos vivos (os cómicos Carne Humana Precisa-se e Braindead), fantoches (o medonho Meet The Feebles), descoberta da sexualidade (Amizade Sem Limites), uma trilogia fantástica (Senhor dos Anéis) e um gorila matulão (King Kong).

Visto do Céu é um drama, contado na primeira pessoa, sobre uma menina violada e assassinada aos 14 anos, que assiste ao desenrolar da vida dos seus pais, enquanto tenta encontrar a paz no Céu. Antes de chegar a este cruzamento, o filme abre como Beleza Americana (2000), com a protagonista a informar o público de que vai ser assassinada em breve. Espicaça a curiosidade e desenvolve-se como um whodunit na forma futura (wholdoit?), para depois do crime perder o norte.

O que mais espanta é a aparente colagem de estilos. A fria e sonhadora construção de época e do drama dos pais parece inspirado por Virgens Suicidas (1999), de Sofia Coppola, enquanto as melosas fantasias do pós vida de Susie lembram Para Além do Horizonte (1998), de Vincent Ward. A equilibrar esta dicotomia está a componente thriller, decididamente aquela que Peter Jackson melhor dominou, a apontar para Zodíaco (2007), de David Fincher.

O livro é uma obra de meditação, passado numa espécie de Purgatório, onde a personagem principal assimila os factos da sua vida e morte e tenta ordená-los mentalmente, de modo a encerrar esse capítulo e abraçar o que se segue, esse sim no Céu definitivo. O filme parece mais concentrado no conceito de crime e castigo, algo ainda mais patente pela inclusão de uma cena onde se vê a morte brutal do serial killer, ele que inicialmente apenas tinha uma queda acidental no abismo. A cena com os pormenores da queda foi uma exigência do público de teste, insatisfeito com a oferta inicial.

Infelizmente, Visto do Céu é uma manta de retalhos que não funciona. As evocações celestiais das cenas passadas no Purgatório, carregadas de enjoativos efeitos especiais criados por computador, não respeitam a seriedade da narrativa humana e, em vez de ambas se entrelaçarem, empapam e descolam, um afastamento emocional sentido pelo cinéfilo, que se agarra à captura do criminoso como única terra firme. A narração de Susie ao longo do filme é tão pouco consistente como as conclusões que tira no final, em oposição às do livro. Aqui, em vez de a personagem sair de uma fase de comiseração para uma de resignação, decidida a abraçar a nova etapa da sua existência, a interpretação faz-se pela positiva, como se a sua violação e morte, afinal, tivessem sido uma nota positiva e, agora que se capacitara disso, estivesse pronta para ser feliz. Esse Céu, que mais parece ter saído do Imaginário do Dr Parnassus (Terry Gillian, 2009), não ajuda a que se sinta a menor empatia.

Mark Wahlberg não chega a estragar o filme (Peter Jackson antecipa-se-lhe) e Rachel Weisz é completamente desperdiçada (todo o sub-enredo em que era suposto ela ter um amor adúltero com um polícia foi eliminado na montagem). Saoirse Ronan, revelada por Expiação (2007), está muito bem, assim como Stanley Tucci, se o reconhecermos por trás da peruca, bigode postiço e barriga falsa. Susan Sarandon vem mostrar que está viva, enquanto fuma cigarro atrás de cigarro.

The Lovely Bones 2009

3 Comments:

Blogger Isabel said...

Vindo de Peter Jackson esperava-se mais do que um filme onde às vezes nos perdemos nas andanças de Susie Salmon(acho que é este o nome da personagem principal) e nas suas divagações num mundo paralelo. Como dizes,o que nos agarra ao filme é a sua componente thriller. Acho que em termos de adaptações de livros a que Jackson fez do imaginário de Tolkien foi, sem dúvida, melhor. Estou curiosa por saber a tua opinião sobre «A Origem», se foste ver o filme. ;-)

8/18/2010 11:43 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

Concordo contigo, o peter jackson distraiu-se com os visuais do pós vida e as máximas da susie salmon tornaram-se frases do paulo coelho.

as partes de suspense são as melhores, em especial quando a irmã mais nova vai à casa do serial killer, que é de cortar a respiração.

mas uma cena ridícula é a deste a arrastar o cofre com o corpo da susie para o aterro. podia perfeitamente ter estacionado a carrinha mesmo junto ao aterro, mas não, foi a empurrá-lo à mão, para vermos se a vizinha chamava a polícia.

Ainda não vi o Inception. Era para ter ido a semana passada, mas por causa do horário acabei por ver o Escritor Fantasma.

8/19/2010 5:55 AM  
Blogger Mariana & Roberta said...

Não vimos o filme, mas lemos o livro à muito, muito tempo!

8/26/2010 1:45 PM  

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