Torque, de Joseph Khan

A seguir o rasto de Velocidade Furiosa (2001 e Velocidade Mais Furiosa em 2003), Torque troca os bólides por motos e acelera de olhos fechados, atropelando tudo e todos no trajecto. O conceito é nitidamente visual, a apostar na forma e ignorando o conteúdo. Esta tentativa de capitalizar nas duas rodas esquece-se de um pormenor que faz toda a diferença: não é o acelerador que comanda a qualidade, mas a centelha humana. E esta está praticamente ausente, deixando no seu lugar apenas um rasto de óxido nitroso. Por outro lado, Torque pode ser encarado como uma paródia aos cavaleiros do asfalto, e é bem verdade que os cowboys não andavam em caravanas.

O argumento é de Matt Jonhson, que no ano seguinte escreveria o de Profundo Azul (2005), e poderia ter saído de qualquer publicação de banda desenhadas dos idos anos 70, daquelas que se compravam nos quiosques quando as motos não davam mais do que 100 à hora. A história é simplória, apesar das reviravoltas, é até se engolia se o tempero não queimasse as papilas. Não obstante o herói ter estilo (Martin Henderson) e a heroína bastante mais (Monet Mazur), a menina má é capaz de não conseguir contar pelos dedos de uma mão as frases que lhe deram para debitar (Jaime Pressley) e Matt Schulze é um vilão que já gastou o figurino, tantas vezes foram as que a sua falta de talento o permitiu (Blade I e II, Velocidade Perigosa, Correio de Risco, e séries como CSI: Miami). Ice Cube, sempre com uma perna no ramo discográfico e outra na sétima arte, impulsionou-se daqui para XXX2 (2005), mas é tão anedótico aí substituir Vin Diesel como aqui ser o líder de uma gang de motards. A realização ficou a cargo de Joseph Khan, que não tem mais filmes num currículo de meia dúzia de videoclips, dois dos quais para Britney Spears (Stronger e Toxic), tendo usado Martin Henderson em Toxic.

No enredo, há um herói erradamente acusado de dois crimes, um vilão responsável por esses crimes, um mau que responsabiliza o herói por um desses crimes, dois agentes do FBI que investigam homicídios e tráfico de droga e ainda os amigos do herói que o ajudam contra todo o tipo de moto-pistoleiros. Quanto à acção, é completamente inacreditável, mas porque é impossível acreditar nela: pancadaria em cima de motos em aceleração, perseguições por entre as árvores de um bosque cerrado e uma perseguição a velocidade incalculável (warp 1?) por entre as avenidas de uma cidade. O impacto destas cenas poderia ser muito mais apreciado se a rapidez se cingisse a um nível real, passível de ser impulsionado por um motor, em vez de carburados por CGI de muito baixa resolução e qualidade. Assim, parecem naves espaciais, o que é mais ridículo quanto se sabe que uma moto se descontrola ao menor descuido.

Torque 2004
O Evangelho Segundo Cinéfilo
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