Domingo, Agosto 15, 2010

Soldados da Fortuna, de Joe Carnahan

Uma brigada de comandos, condenada por um crime que não cometeu, evadiu-se da prisão militar e sobreviveu durante quinze anos como esquadrão mercenário, a incendiar o pequeno ecrã com as suas explosões de fulminantes, com as quais derrubavam pequenos ditadores sul-americanos e traziam à justiça vigaristas e outros pequenos criminosos. Tudo isto enquanto eram perseguidos pelos incompetentes Coronéis Lynch e Dekker, que pretendiam acabar com os seus dias de foragidos. Eram os alegres anos 80 e estes veteranos da guerra do Vietname estiveram no activo de 1983 a 1987, altura em que as fracas audiências os lançaram no desemprego. O revivalismo, porém, está na ordem do dia, a substituir originalidade por valores outrora populares, pelo que a célebre A Team foi recauchutada para nova aventura.

A substituição de actores tão carismáticos como George Peppard, Dirk Benedict, Dwight Schulz e Mr T provou-se a tarefa mais espinhosa. A forma física de Liam Neeson, a virar Paris do avesso atrás dos raptores da filha (Busca Implacável, 2008), aos 54 anos, foi suficiente para se perceber que, com ele, um plano acaba sempre por funcionar. Bradley Cooper tem vindo a escalar em linha recta uma carreira segura, tendo recentemente dado a cara pela bem sucedida comédia A Ressaca (2009). Charlto Copley foi o achado sul-africano de Distrito 9 (foi figurante na curta metragem Alive In Joburg, de 2005, que deu origem a Distrito 9, ascendendo a protagonista da longa metragem), passando por cima da competição cerrada de Woody Harrelson, que também não teria ficado nada mal como Murdock. Quinton “Rampage” Jackson é a única lamentação do elenco, mais um lutador de mixed martial arts a sair da rampa de lançamento da UFC para a sétima arte. Mr. T era uma figura marcante, tinha acabado de rodar Rocky III (1982) quando foi convidado para a série Soldados da Fortuna e no seu currículo constava a estatuto de temido bouncer de discoteca (tão temido, aliás, que a quantidade enorme de colares de ouro que usava ao pescoço eram, segundo ele, os trofeus que retirara a todos aqueles a quem barrara a entrada). Quinton Jackson, pelo contrário, não é possante nem carismático (Vin Diesel e The Rock, por exemplo, chegaram e venceram, porque cumpriam esses requisitos). Até Bradley Cooper, único a aparecer em tronco nu, faz melhor figura. E, quanto a ser lutador na vida real, esse atributo não é visível no filme (limita-se a levantar um único oponente no ar e atirá-lo ao chão). Em Soldado Universal: Regeneração (2009), os dois lutadores da UFC que participam (Andrei Arlovski e Mike Pyle) envolvem-se em combates com muito mais testosterona e coreografia. Dois dos Soldados da Fortuna originais, Benedict e Schulz, gravaram cameos para o pós créditos finais (Peppard faleceu em 1994 e Mr. T declinou a oferta; Benedict já lamentou publicamente a sua participação, que se reduziu a três segundos de tempo de antena). Para a película, foi ignorada a jornalista que se tornou membro honorário da Equipa, sendo o sexo feminino representado por Jessica Biel (substitui o Coronel Lynch com a missão de trazer os heróis a tribunal marcial), com Patrick Wilson a roubar-lhe o apelido Lynch (Biel ficou como Sousa), como um agente da CIA.

A-Team significa, em terminologia bélica, Grupo Avançado (equipa de reconhecimento das forças especiais, mais conhecida como Boinas Verdes), sendo natural contar com medidas ofensivas, temperadas com desprendimento e boa disposição. Soldados da Fortuna é exactamente isso e nada mais, sem a menor intenção de defraudar o seu público nem de angariar novo. Pede-se ao cinéfilo que ponha o capacete, para proteger o cérebro que não vai utilizar, e se deixe envolver nas peripécias. O divertimento é desmiolado e, devido à realização musculada de Joe Carnahan e à montagem acelerada, empolgante, mas é daqueles filmes que se esquecem rapidamente, ficando na memória apenas os pontos menos bem sucedidos.

A história é um valente emaranhado. Começa com a forma como a equipa se conheceu e os problemas começam logo aí. Hannibal e Face estavam numa missão absurda no deserto, B.A. (durante o filme, os outros insistem em chamá-lo Bosco) é um ladrão de carros e Murdock é hospede da ala psiquiátrica de um hospital local. Como são ex-Rangers e ajudam na missão, Hannibal consegue reintegrá-los no exército e rumam ao Iraque, onde completam com sucesso sessenta missões. Então... o exército reintegrou um criminoso e um maluco? Ao menos, na série, o grupo conheceu-se no Vietname, onde se tornaram amigos, e Murdock só foi dado como louco na sentença que os desmobilizou. Aqui, a mistura é de difícil deglutição. Pode ler-se, tatuado nos nós dos dedos de B.A., as palavras «pity» e «fool», mas a referência nem sequer é da série, vem de Rocky III (I pity the fool, «tenho pena do coitado», referindo-se a Rocky, o seu oponente). Sente-se que Hannibal e Face, que se conhecem antes do início do filme, têm uma relação mais próxima e que B.A. e Murdock são meros penduras. Os efeitos visuais em CGI, especialmente nas manobras aéreas (em cargueiros, helicópteros e num tanque), recordam Stealth (2005, também com Jessica Biel e o Doug Bradley da época, Josh Lucas) são suficientes, mas memoráveis. Biel, que ganhou nome pelo seu atleticismo em Blade 3 (2004), não tem a menor oportunidade de brilhar.

Joe Carnahan deu nas vistas em 2002, quando Tom Cruise fez campanha para que o seu policial de baixo orçamento Narc encontrasse distribuidor. Cruise queria que Carnahan dirigisse Missão: Impossível III, e isso levou à sua contratação para um episódio de The Hire (uma série de curtas metragens com Clive Owen que apenas estavam disponíveis em stands BMW) mas a desistir de M:I-3 por diferenças artísticas. Em 2006, Carnahan julgou ter criado o seu opus mas, aparte ter partido a loiça toda, Smoking Aces cotou-se muito abaixo da mestria de Quentin Tarantino e Guy Ritchie, ficando a um nível mais próximo de Tony Scott. Soldados da Fortuna é o seu primeiro filme de acção mainstream, onde se esperava que viesse a marcar pontos, mas o resultado final é apenas morno. Co-assinou o argumento com Brian Bloom e Skip Woods (este último do deplorável X Men Origens - Wolverine, 2009) e o entretenimento é garantido, mas não fora de série. O contemporâneo Knight & Day (2010) opera muito melhor este ângulo.

The A-Team 2010

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