Domingo, Agosto 01, 2010

Soldado Universal: Regeneração, de John Hyams

Máquinas de Guerra (1992) representou o início da parceria entre o realizador Roland Emmeric e o argumentista Dean Devlin, que se prolongou por Stargate (1994), Dia da Independência (1996) e Godzila (1998). Com um orçamento de 23 milhões de dólares e um retorno de 102 milhões, aquilo que a crítica mundial desacreditou como uma imitação de Terminator 2 (1992) ficou marcado pelas presenças de Jean-Claude Van Damme e de Dolph Lundgren, quando estes nomes eram sonantes. Ally Walker, como a jovem repórter e interesse amoroso, foi outra mais valia, e convém notar que, entre os soldados universais que enchiam o fundo, se encontrava a imponência física de Michael Jai White, Rolf Moeller e Tommy «Tiny» Lister. A história era simples: uma tropa de elite anti-terrorista americana consistia em soldados americanos invencíveis, porque clinicamente mortos, revividos através de injecções que não lhes restauravam a humanidade, mas apenas as funções necessárias a um comportamento robótico. Um desses Soldados Universais foge (Van Damme), com a ajuda de uma jornalista (Ally Walker) e é perseguido pelos restantes, numa tentativa de controlar o segredo. Eventualmente, um outro soldado (Dolph Lundgren), psicopata em vida, toma controlo da operação e a caçada torna-se pessoal.

Seis anos volvidos, foram concebidos dois telefilmes, a reprisar os personagens mas com um novo elenco, e no ano seguinte chegou a sequela cinematográfica, Soldado Universal: O Regresso, com Bill Goldberg (wrestler profissional da WWE) e Michael Jai White a servirem de vilões. Van Damme evidenciava alguma falta de graça e de aptitude física, mas o confronto final não desmerece. A realização do coordenador de duplos Mic Rodgers foi, infelizmente, rasteira e, aliada à pobreza do guião, remeteu a franchise ao silêncio durante mais uma década.

Sem estreia nas salas de cinema, Soldado Universal: Regeneração, faz tábua rasa dos eventos do antecessor (1999), como esse já fizera das aventuras televisivas, e apresenta um Luc Devereaux (personagem a cargo de Jean-Claude Van Damme) a recuperar a dignidade humana com muita dificuldade, supostamente desde os eventos do filme original. Dolph Lundgren também recupera o seu papel (Lundgren fora ignorado por Soldado Universal: O Regresso), mas a participação de ambos é secundária, sendo a de Lundgren especialmente irrelevante. Desta vez, o guião segue a invasão da planta de Chernobyl e consequente ameaça nuclear por parte de uma guerrilha que tem sob as suas ordens um Soldado Universal de Segunda Geração (interpretado pelo ex-campeão de Pesos Pesados da UFC, Andrei Arlovski). Depois deste derrotar os quatro Unisols ainda no activo, o exército americano envia Deveraux como último recurso. Claro que ele consegue o que quatro não foram capazes e ainda enfrenta Lundgren, que parece ter-se materializado apenas para essa reunião.

Peter Hyams, realizador e director de fotografia, já dirigiu Van Damme em TimeCop (1993) e Morte Súbita (1995), mas em Soldado Universal: Regeneração, tem apenas a segunda função. A gritar acção e corta está o seu filho, John Hyams. Infelizmente, os méritos do pai cingem-se aos filtros de coloração desmaiada (para recriar o clima frio da Ucrânia?) e os do filho estão por descobrir. A realização é ausente e aborrecida, contando a história sem acreditar nela. Tarefeiro, John Hyams limita-se a seguir os storyboards e a montagem é adepta do mesmo método, deixando por esclarecer porque é que Devereaux agride um desconhecido numa taberna ou porque insiste tanto o chefe dos guerrilheiros em que lhes sejam administrados micro-chips que se provam inúteis (nem se percebe para que são). Quem esperava ver os dois Soldados Universais maus enfrentarem-se pode desiludir-se, Lundgren e Arlovski não se cruzam. Van Damme, sim, é que defronta ambos, em ocasiões separadas. Basicamente, Soldado Universal: Regeneração é um filme de acção série B, correctamente endereçado directamente para DVD, que faz avançar a passo de caracol a narrativa irrisória e se lembra de acordar para as últimas lutas, o que não parecia possível depois de o primeiro confronto, de Arlovski contra os quatro Unisols, ser quase comatoso. O inesperado ímpeto da recta final deixa intuir que essas cenas foram entregues a um assistente de realização mais entusiasmado. São elas que recuperam o filme da total irrisão, através de coreografias de rua com alguma elaboração e de uma montagem mais empenhada que o habitual.

A falta de esmero na apresentação do produto nota-se em todos os departamentos. Se John Hyams não aproveita os dotes do pai na fotografia e não sabe o que é filmar com um câmara em movimento, também não deve ter estado presente nos castings. Os actores que interpretam os quatro primeiros Unisols destacam-se pela falta de fotogenia, lançando às urtigas a ideia de imponência e indestrutibilidade que deveria caracterizá-los. O departamento de guarda-roupa, em vez de suprir-lhes as limitações físicas, preferiu gastar o orçamento em cerveja e tremoços. O design da farda dos Unisols é tão utilitário que esquece o impacto que estes deveriam ter na objectiva. Em vez de armaduras com lustro, usam cotoveleiras e joelheiras para a prática de patins em linha, ridículo que reforçam com protecções acolchoadas que os aproximam dos adestradores de animais agressivos. Estas protecções, aliás, deveriam ser desnecessárias, precisamente para marcar a diferença entre os militares humanos e os sobre-dotados, os quais deveriam limitar-se a ostentar uma musculatura bastante acima da média. Van Damme e Lundgren acusam a idade, mas enquanto o primeiro parece ter sido vítima de um AVC, o segundo mantém a aparência granítica com que reduziu Apollo Creed a polpa (Rocky IV, 1985).

Os efeitos especiais são escassos e amadores, ficando por explosões avulsas e pela explosão da cabeça de Dolph Lundgren (a recordar saudosamente o primeiro filme de garagem de Peter Jackson, Carne Humana Precisa-se, 1987) e permanece a questão: se os Unisols são tão fortes, não deveriam ser capazes de derrotar militares humanos com um único golpe demolidor, em vez de os moerem de pancada? É notório o grau de dificuldades que Mike Pyle (lutador de mixed martial arts da UFC) dá a Arlovski, o qual anteriormente tinha derrotado quatro Unisols sem piscar os olhos.

Fala-se de um quarto filme da franchise já para 2011, com Van Damme e Lundgren a apresentarem-se ao serviço e John Hyams a assinar o argumento e a realização. Como não há desgraças que venham sós, será em 3D.

Universal Soldier: Regeneration 2009

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