Terça-feira, Agosto 31, 2010

Salt, de Philip Noyce

Ainda não é desta que o SIS (Serviço de Informações de Segurança) coloca em perigo o Grande Bastião do Ocidente, a Capital Capitalista, a Terra do Tio Sam. Apesar de ser capaz de infiltrar no interior da sua máquina de propaganda uma estrela em ascensão (Daniela Ruah já conquistou os altos círculos de Hollywood e do NCIS), de vender uma imagem de aliado através de presidências da UE muito permissivas ao nível dos bilhetes para o CCB e de usar como alavanca de boa vontade documentos secretos de voos da CIA que passaram pelos Açores com passageiros vendados, ainda não é desta que o mérito lusitano é espelhado no celulóide norte-americano. Nem os dois submarinos adquiridos recentemente (aqueles que não se sabe como iremos pagar ao fabricante) permitiram tal estatuto. Como os pobres camelos afegãos e dromedários iraquianos já esgotaram o seu filão, a velha Rússia, há duas décadas em pousio, anuncia descidas de temperatura nas relações diplomáticas.

Tom Cruise ainda considerou o projecto, mas a premissa de Kurt Wimmer (realizador/ argumentista de Equilíbrium e Ultravioleta) era demasiado próxima da de Missão: Impossível (1996), pelo que o actor rumou a Dia E Noite (2010) e Angelina Jolie, que já manifestara interesse em brincar à Mata-Hari, foi presenteada com as mesmas calças, às quais o guionista Brian Helgeland tratou de subir a bainha.

Uma abertura reminescente do videoclip de Madonna que marcou a despedida de Pierce Brosnan do MI6 (Die Another Day, 2002) não auspicia nada de bom e justifica os receios. Com um apelido tão invulgar como o do Dr. House – num verão em que há títulos ainda mais estranhos (Knight e Day não são nomes de nenhum dos protagonistas de Dia E Noite) – uma agente da CIA acusada de ser uma sleeper do KGB, pronta a ser despoletada para matar o Presidente Russo em solo americano. Salt clama inocência e evade-se. Samuel Gerard (o team leader dos Marshalls de O Fugitivo, 1993) não estava disponível (mas o compositor James Newton Howard, sim), pelo que foi chamado Chiwetel Ejiofor, que ainda só teceu perseguição a desertores no futuro (Serenity, 2005). Segue-se o inevitável.

Em 1977, Charles Bronson debatia-se com a mesma praga, a dos sleepers (Telefon). Estes eram agentes soviéticos a viverem em cidades americanas, como americanos normais, programados para um dia o seu treino ser despertado e cumprirem missões contra esse país. Charles Bronson foi, para muitos, o primeiro actor cuja imponência física o estabelecia imediatamente como herói. Antes disso, dizia-se, o herói era apenas aquele que o cartaz anunciava: Alan Ladd, John Wayne, Richard Widmark, não se destacavam daqueles em quem batiam. Angelina Jolie ainda confunde mais.

Outrora a imagem da saúde (duas vezes Tomb Raider, 2001 e 2003), Angelina Jolie perdeu a genica depois de conhecer o marido (Mr & Mrs Smith, 2005). O regresso à carga em Wanted (2008), não convenceu, com a dieta vegan já a debilitá-la, mas nada fazia crer que estaria tão esquelética em Salt, ainda para mais depois de ter dado à luz gémeos. Esta excessiva magreza (à qual se aliam olheiras como cestos de basquete) só prejudica o filme, pois a sua figurinha cinzenta mais depressa encontra paralelo num doente terminal do que no Exterminador Implacável, capaz de derrotar múltiplos adversários em combate corpo-a-corpo e de descer poços de elevador sem meios de apoio. Quase parece anedótica a afirmação de que a actriz terá representado a maior parte das cenas perigosas. Uma actriz mais robusta teria conferido muito mais credibilidade à personagem.

Salt não atinge a fasquia. Angelina Jolie é a sua maior falha, mas as reviravoltas do argumento cansam depressa, ainda que não esgotem a curiosidade do espectador, que lá vai aguentando o seu suspense of disbelief enquanto as pontas estão soltas. O realizador Philip Noyce não é um novato nas lides da espionagem, tendo já adaptado romances de Tom Clancy, Leslie Charteris e Graham Greene, respectivamente Jogos de Poder – O Atentado (1992) e Perigo Imediato (1994), O Santo (1997) e O Americano Tranquilo (2002). Também dirigiu Angelina Jolie em Coleccionador de Ossos (1999), quando esta apresentava um peso muito mais invejável. Quanto a espiões em fuga, Jason Bourne permanece o mais emocionante, seguido de James Bond (Licença Para Matar, 1989) e de Ethan Hawk (Missão Impossível). Salt talvez não venha sequer em quarto lugar.

Salt 2010

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