Segunda-feira, Agosto 16, 2010

O Escritor Fantasma, de Roman Polanski

Robert Harris é um escritor britânico, cujos livros têm atraído a indústria audiovisual. Fatherland (1992) foi transformado em telefilme pela HBO, Enigma (1995) foi adaptado ao cinema e Arcanjo (1998) a mini-série da BBC. Roman Polanski entrou em negociações com o escritor para a adaptação do romance Pompeia, em 2007, o qual iria ser a mais cara produção cinematográfica europeia, mas a greve dos actores desse ano cancelou o projecto. Polanski e Harris voltaram-se então para o romance que este tinha no prelo, O Fantasma (2007) e o próprio realizador adaptou-o, com bastante fidelidade, alterando apenas algumas cenas-chave, em especial a suspensiva fuga do ferry). Originalmente, o filme ia ser interpretado por Nicolas Cage, Pierce Brosnan, Tilda Swinton e Kim Cattrall, mas Cage e Swinton tiveram de ser substituídos por Ewan McGreggor e Olívia Williams quando a produção se atrasou um ano.

Devido à impossibilidade legal do realizador de viajar a certos países (por causa da ordem de captura relacionada com o processo por violação de menor que se arrasta há 30 anos, nos EUA), as cenas de Londres foram filmadas em Berlim e as de Martha’s Vineyard na Ilha de Sylt. A pós-produção foi supervisionada de casa, da qual estava impedido de sair (no seguimento da captura por parte das autoridades de Zurique, em 2009, no cumprimento do mandato internacional que sobre ele pendia desde 2005, ainda relacionado com o processo já mencionado). O Escritor Fantasma estreou no Festival de Berlin 2010, que galardoou Polanski com o Urso de Prata, um prémio totalmente merecido, porque este discreto policial é um brilhante número de ilusionismo.

Através de uma impressionante precisão plástica e narrativa, a película apresenta a habilidade hipnótica de submergir o cinéfilo na trama de forma tão subtil que a sua extensão passa totalmente despercebida (128 minutos). Na mais directa tradição hitchcockiana, a tensão é estabelecida pelo investimento nos pormenores, todos tão imprescindíveis que nos permitem pesar a importância de cada palavra ou gesto. É essa essencialidade palpável, esse respeito pelo material, que tornam a experiência tão cativante. Autêntico film noir, surpreende ainda pela revelação final ser de extrema simplicidade, que afinal nos escapou por descuido ou, obviamente, porque o cineasta nos pôs a olhar na direcção errada.

A contida interepretação de Ewan McGreggor é de tal modo adequada ao personagem que arrepia só imaginar o rumo pelo qual Nicolas Cage poderia tê-lo conduzido. Aliás, todos os actores estão no ponto, com Olivia Williams a ser igualmente uma mais valia, capaz de puxar de uma feminilidade discreta que a falta de sal de Tilda Swinton não lhe teria assegurado. Quanto a Polanski, um dos mais importantes realizadores da segunda metade do século XX, foi responsável por filmes como A Semente do Diabo, Chinatown, Tess e Frenético, foi nomeado seis vezes para o Oscar de Melhor Realizador e arrebatou-o por O Pianista (2002). Em 2009, recebeu um prémio de carreira do Festival de Berlim.

Por último, um relance sobre a história, que traça paralelos à vida política de Tony Blair. Um «escritor-fantasma» é alguém que escreve textos atribuídos a terceiro. Podem ser discursos políticos ou «autobiografias» inteiras, a verdade é que nunca lhe é atribuída, publicamente, a autoria do seu trabalho. Contratado para dramatizar a serôdia autobiografia de um ex-Primeiro Ministro inglês, o fantasma começa a investigar a morte do seu predecessor, que parece cada vez menos um caso de suicídio. Convém realçar que Robert Harris, autor do romance adaptado, era um acérrimo apoiante da causa de Blair até discordar da posição tomada pelo executivo britânico na Guerra do Iraque.

Ghost Writer 2010

10 Comments:

Blogger Sam said...

Não adorei, mas gostei.
O filme prende-nos a atenção durante todo o tempo.
gostei do detalhe do empregado sempre a varrer as folhas...
Só não gostei do final, e a mulher nunca me convenceu

8/18/2010 6:19 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

Se não adoraste, é porque não estavas preparada para ver um film noir hoje. como muito bem dizes, ele prende a atenção o tempo todo e tem uma duração bastante extensa, são duas horas e oito minutos para uma história muito simples.

o polanski fez aqui uma pequena obra prima, sem descurar um único pormenor. a mulher convence, sim, porque ela age como uma ressabiada que acha que o marido anda a traí-la com a secretária e que se sente excluída por ele não estar a seguir os seus conselhos.

com o final, tudo faz muito mais sentido, mesmo ela ter-se deitado com o fantasma. é curioso que o fantasma não tem nome durante todo o filme.

qual foi o final que não gostaste, ele ser atropelado?

vi o filme no cinema, sempre é um ambiente diferente do que ver em casa. e a banda sonora do alexandre desplat funciona como ginjas.

8/18/2010 7:39 PM  
Blogger Sam said...

eu quando vi que o filme tinha duas horas pensei, cá vou eu apanhar uma seca. mas não, o tempo passa a correr.

é precisamente na cena no quarto do fantasma que a mulher não me convence. Embirrei com a mulher, pronto

não gostei do final porque achei que o filme pedia mais, foi só por isso. Ficou ali tudo um bocado perdido no ar

8/18/2010 7:43 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

eu nem sabia a duração do filme quando fui ver e juguei que tinha sido mais curto até olhar para o relógio.

achei a cena do quarto muito engraçada. e depois de saber o final faz muito mais sentido, porque ela estava à chuva a pensar em como ia descalçar a bota de ele saber sobre a velha em coma e que era impossível o corpo ir dar à praia onde deu. então, optou pela arma mais velha da cartilha das espias.

o final que não gostaste foi o do livro? eu achei excelente. o segredo não estava «no início do livro», mas nos «inícios». brilhante. e a CIA é que estava preocupada com o conteúdo da obra.

o que achaste de ele acabar atropelado?

8/18/2010 8:23 PM  
Blogger Sam said...

o final que eu não gostei foi o do atropelamento.
A cena do livro achei brilhante, e do recado que ele lhe mandou também, mas depois disso esperava mais qualquer coisa.

8/18/2010 8:26 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

no livro em que o filme é baseado, o ghost tem uma namorada e deixa as provas com ela, no caso de ser assassinado, mas não revela à viúva o que sabe.
ele ser atropelado, no filme, foi uma forma de o segredo morrer com ele sem ter de haver mão criminosa. não serve nenhum fim específico, é uma coisa do acaso. também não sei porque escolheu o realizador este fim.

8/18/2010 8:30 PM  
Blogger Sam said...

pois, mas assim a descoberta dele fica perdida. é por isso que eu não gostei

8/18/2010 8:32 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

É um filme, o que importa é que o cinéfilo obtenha as respostas, não a opinião pública.

e depois, se o lang está morto, a viúva dele também perdeu a utilidade, não vai poder espiar mais.

além disso, não é dada a menor prova de que ela seja realmente uma espia. lá porque um ghost writer escreve isso num manuscrito, onde estão as provas de que isso seja verdade? não é como se pudessem prendê-la por causa dessas linhas de texto.

8/18/2010 8:37 PM  
Blogger Isabel said...

Também gostei do filme, mas não adorei, embora ache que é de longe um dos filmes com maior interesse que estrearam este ano. Tendo visto o filme no cinema, achei que a primeira parte foi uma espécie de técnica de suspense adiado, aperitivos para a segunda parte do filme onde as coisas se sucedem de forma mais rápida e onde o suspense se sente com toda a sua intensidade. O que não quer dizer que o filme não tenha sido bem construído. Não imagino Nicolas Cage no papel de escritor fantasma, acho que ele teria arruinado a personagem. Ewan McGregor foi segunda escolha, mas a mais acertada. Não gostei da opção do realizador para o final do filme. Coitado do escritor, tanto trabalho para nada. ;-)

8/19/2010 12:01 AM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

Todas as histórias policiais começam assim. primeiro estabelecem o cenário, o ambiente, os personagens, e só depois começam a dar pistas. é uma espécie de cluedo, foi o Hitchcock que criou a dinâmica. o suspense só começa quando sabes o que deves procurar. e depois o realizador faz com que nunca olhes na direcção certa até ser ele a apontar-ta.

convém referir que o filme está tecnicamente excelente, especialmente dadas as limitações físicas do polanski. para além de não poder filmar os EUA nos EUA, ainda teve de supervisionar toda a montagem da própria casa, na suíça, porque estava em house arrest. uma coisa que se nota, mas não deixa de estar bem feita, é que o interior da casa do Lang é todo feito em estúdio e a praia que se vê da janela é projectada em ecrã verde.

sim, o cage teria arruinado o personagem, como arruina tudo aquilo em que entra desde o rochedo.

quanto ao final... foi mão divina :P

8/19/2010 5:50 AM  

Enviar um comentário

Links to this post:

Criar uma hiperligação

<< Home

hit tracker