Dia E Noite, de James Mangold

Tom Cruise e Cameron Diaz reúnem-se depois de Vanilla Sky (2001), numa espécie de Missão: Impossível tão carregada de nonsense que a própria missão se eclipa perante as peripécias extravagantes e o clima de romance entre os protagonistas. Cruise interpreta um agente secreto algo tresloucado, o que só lhe fica bem, já qem Vanilla Sky a louca era Diaz, responsável até por tê-lo desfigurado. Aqui ela é uma querida como em O Casamento do Meu Melhor Amigo, papel onde a sua popularidade abanou a de Julia Roberts, e Tom Cruise reinventa-se como algo comparável ao Jack Sparrow de Johnny Depp (Piratas das Caraíbas).

Após uma fria recepção por parte do público americano, muito se tem culpado o actor, invocando que a estrela já perdeu o brilho. A prova é ainda o boicote a que foi sujeito em 2005, ano de excessos que irá amargar para o resto da vida. A aliar à fraca qualidade de Guerra dos Mundos, despediu o Relações Públicas de longa data, andou aos saltos no sofá de Oprah, criticou o stress pós parto de Brooke Shields, defendeu publicamente a Igreja da Cientologia e ainda deixou dúvidas quanto à progenitura de Suri Cruise, um bebé tão parecido com Chris Klein, anterior namorado da esposa Katie Holmes. O boicote atacou M:I-3 (2006) em força, inibindo-o de ser o blockbuster que merecia (e a Paramount não renovou o contrato da distribuidora dele, para distanciar-se da imagem do actor), e Cruise optou pelo low profile de Peões Em Jogo (2007) e um regresso tremido com Valquíria (2008). Foi o inesperado cameo como Les Gossman (gordo, careca e praguejador) em Tempestade Tropical (2008), por muitos considerado o melhor desse filme, que elevou o burburinho de que estava preparado para o regresso em força e as más línguas fizeram figas, flexionando a perna da rasteira.

Afinal, Tom Cruise é o cimento que segura Dia E Noite, com Cameron Diaz a soprar para que seque mais depressa. É surpreendente, aliás, que o filme seja tão divertido, já que a produção teve problemas do início ao fim. Passaram pela porta rotativa diversos argumentistas, realizadores e protagonistas, com a história a sofrer alterações a cada timoneiro. Depois de Adam Sandler, Chris Tucker e Gerard Butler saltarem fora (este último preferiu entrar no fiasco Ex-Mulher Procura-se), Tom Cruise decidiu-se, abandonando Salt (2010) e O Turista (2010). Cameron Diaz sucedeu a Eva Mendes e James Mangold a Tom Dey.

Dia E Noite é uma aventura de espiões com a dose certa de comédia e acção. Isso significa, claro, que a comédia é combustível e a acção volátil. Temerário como um super herói adolescente, Tom Cruise usa despudoradamente o seu sorriso traquinas para representar um agente secreto que parece ter apanhado sol a mais. Paranóico, hiperactivo e misterioso, no sentido em que não se sabe se é dos bons ou dos maus (a CIA diz que desertou e querem-no de volta e algo que roubou), Roy Miller encontra o fio de terra em June Havens (Cameron Diaz), que é embrulhada na sua teia de esquemas e que ele insiste em não deixar abandonada à sua sorte. É ela, aliás, com quem nos identificamos e é a lógica do seu ponto de vista que acompanhamos, uma pessoa normal confrontada com uma situação invulgar. As explicações acabam por ser satisfatórias, se com isto considerarmos que pouco importam, porque este filme não quer enganar ninguém: há química entre Cruise e Diaz e o resto é acção bigger than life, a esticar a corda da credibilidade mas pontuando-a com savoir faire. É uma aventura puramente escapista, com suficientes reviravoltas para dar frescura à fórmula do blockbuster de verão, que podia facilmente ter derrapado para o campo irrelevante, como aliás aconteceu ao recente Balas E Beijos (comédia de 2010, com um agente da CIA que queria assentar com uma esposa caseirinha, com Ashton Kutcher no papel de agente secreto). As acusações de fragilidade do guião são falsas; não importa a natureza do whatizit (há sempre um gadget que todos querem, nos filmes de espionagem), como o provou Charada (1963), de Stanley Donen.

James Mangold, o realizador, tem tido um percurso consistente. Estudou com Milos Forman e conheceu a ribalta ao segundo filme (Cop Land, 1997), não só pelo peso do elenco (que incluía Robert DeNiro, Harvey Keitel e Ray Liotta) como pelos 30 quilos que Sylvester Stallone engordou para protagonizá-lo. Seguiram-se Girl Interrupted (1999), que deu o Oscar de Actriz Secundária a Angelina Jolie, Kate & Leopold (2001), pelo qual Hugh Jackman teve uma nomeação para um Emmy, Walk The Line (2005), Oscar de Melhor Actriz para Reese Witherspoon e O Comboio Das 3:15 (2007), que opôs Christian Bale a Russell Crowe. Em Dia E Noite, Mangold foi capaz de entrelaçar a espionagem com a comédia, o perigo com o romance, Cruise com Diaz. É a teoria do movimento perpétuo como arte comercial. Sem dar tempo para respirar, mas sem deixar estragar. Peter Sarsgaard também lá anda pelo meio, mas já ninguém lhe liga nenhuma, assim como o facto de o título ficar por entender. Por último, mencione-se que os resultados ultramarinos compensaram o modesto box office americano e o filme acabou por duplicar os custos em receitas.

Knight & Day 2010
O Evangelho Segundo Cinéfilo
4 Comments:
Gostei muito de "Knight & Day", achei um filme completamente "dosado" com ação, romance e comédia na medida certa. Cruise e Diaz estão completamente carismáticos e 'inspirados'. Uma pena que não teve o merecido sucesso.
cinemapublico.blogspot.com
bem, pelo menos o filme deu lucro. e daqui a nada chega o DVD e vai fazer mais.
quanto a dizerem que cruise está velho, há papeis que precisam de maturidade e ele tem-na. cameron também está a envelhecer bem. melhor do que angelina jolie, que está demasiado esquelética e cansada para convencer em Salt.
acabei de ver o filme.
embora me tenha rido a bom rir, há qualquer coisa ali que não bate certo.
Não gosto do Tom Cruise, se calhar é por isso....
Mas sinceramente, aquelas cenas de acção mereciam um decoro melhor por parte da equipa... por favor eu vi green screens em toda a parte mesmo sem ver verde em lado nenhum e há coisas que nem um agente secreto altamente treinado conseguiria fazer... mas enfim, percebo que hajam pessoas que achem isto extremamente empolgante... para mim é apenas demasiado artificial. (a cena em espanha está de morrer a rir... de tão má).
eu gostei bastante, principalmente por isso, porque também me fez rir.
o tom cruise foi especialmente bem escolhido precisamente porque sabemos que está habituado a missões impossíveis.
quanto aos green screens, isso depois do senhor dos anéis não é desculpa para nada, só se for mal feito. a única cena mesmo rebuscada é a da autoestrada e está de tal maneira bem engendrada que se fecha facilmente os olhos.
e adorei facilitismos como ela perder a consciência e as salvações ocorrerem off screen. mostra precisamente que o filme preferiu evitar mais green screens do que poderia ter usado.
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