Tinhas Mesmo que Ser Tu, de Anand Tucker

Já não é a primeira vez que esta tradição irlandesa inspira uma longa-metragem (Leap Of Love, 2005, Singapura). Aparentemente, uma mulher só está autorizada a pedir um homem em casamento no dia 29 de Fevereiro de um ano bissexto, o que é, no mínimo, sexista, mas que o filme oscila entre considerar romântico ou desesperado. O que não deixa sombra para dúvidas é que Leap Year não soube o que fazer com o conceito, para além de colocar uma ingénua cosmopolita americana na campónia irlandesa, a sujar os saltos altos caros em bosta de ovelha, a arrastar a sua mala de viagem Louis Vuitton por terra poeirenta ou a escorregar por montanhas de lama, seguida por um antipático irlandês que se comprometeu a levá-la até Dublin, mas muito dificilmente pode considerar-se que cumpre a tarefa. Quanto a ser uma comédia romântica, ainda chafurda mais na lama e na bosta do que a protagonista.

Anna, desiludida por o namorado não a pedir em casamento, decide segui-lo à Irlanda, onde este foi em negócios, para propor-se-lhe no dia 29 de Fevereiro, de acordo com a tradição local. O mau tempo obriga-a a alguns desvios e dá por si algures na costa litoral irlandesa, a necessitar de ajuda para chegar à capital. Essa ajuda vem na forma de um rude estalajadeiro, que é contratado para conduzi-la, mas que, pela sua própria burrice, enfia o carro (uma coisa muito velha) numa vala, à primeira oportunidade. A partir daí, seguem a pé, de comboio e camioneta, sendo que é ela que paga os bilhetes de ambos. Por fim, ainda paga ao imprestável labrego e apaixona-se por ele, aceitando um pedido de casamento sem sequer namorarem primeiro. Aparentemente, um anel no dedo continua a ser a solução para todos os males.

Os contra-sensos, os clichés enjoativos, o falhanço miserável dos actores (Amy Adams não é adorável a fazer de parva, o sotaque irlandês de Matthew Goode é tão falso como as suas mudanças de atitude e Adam Scott é a caricatura de um estereótipo), tudo desilude neste filme que troça da feminilidade cosmopolita e da masculinidade rústica (os irlandeses do filme são supersticiosos, atrasados e provincianos). Nem as paisagens fazem esquecer tanta imbecilidade.

O pior do filme: a cena de pugilato no inn, acompanhada de música de rodeo; Amy Adams a percorrer caminhos de cabras durante dias, de saltos altos e saia travada; a casualidade de Matthew ao ver Amy, após julgar-se abandonado por ela na paragem de camionetas; depois de ele ter atolado o carro, e com isso não cumprir o contrato, continuarem a dizer que ela lhe deve dinheiro.

Leap Year 2010
O Evangelho Segundo Cinéfilo
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