
Solomon Kane é uma criação da era pulp, tendo sido publicado pela primeira vez em 1929. Percorrendo o século XVII a livrar o mundo de forças malignas onde quer que as houvesse, Kane era um aventureiro sombrio e de passado negro, que sabia usar a espada e a pistola flintlock. Da pena de Robert E. Howard, o personagem passou pelos comics da Marvel nos anos 1970/80 e ressurge agora pelas mãos de Michael J. Bassett, argumentista e realizador.

Esta amostra do que os produtores esperam que seja o primeiro de uma trilogia é um capítulo perfeitamente dispensável, que inventa as origens do herói, baseado em poemas de Robert E. Howard. Mercenário violento, Kane escapa ao Ceifeiro do Diabo, que vinha colher a sua alma, e converte-se ao Puritanismo de modo encontrar a salvação. Expulso do mosteiro onde se recolhera, após um ano de reclusão, descobre um mundo de pilhagem e morte, mas está decidido a ser um homem de paz. Dar a outra face não é das atitudes mais carismáticas de um herói de acção, pelo que a adrenalina do público esfria rapidamente e não há centelha que a reacenda. Enfim, lá aparece uma donzela em apuros para salvar, mas nem assim fica logo heróico, testemunhando, como aperitivo, a morte de toda a família dela. Depois disso, ainda lhe dá para afogar as mágoas numa taberna, é capturado sem dar luta e crucificado, salvo por um grupo de populares e, só então, está pronto para vencer o mal, fragilizado pela febre, cansaço e ressaca, mas com uma vontade indomável. A donzela virginal foi marcada por uma bruxa e sequestrada por um feiticeiro, o que afinal não passou de um plano ilógico para atrai-lo ao castelo do seu pai, que agora é governado pelo dito feiticeiro, e o chefe da guarda não é outro senão o irmão de Kane, que este julgara ter morto na adolescência. Infelizmente, nem tudo está bem quando acaba bem, porque Solomon Kane é um projecto que começa em pompa, desenvolve-se com insegurança e termina em humilhação.

Previsível, pouco original e de construção narrativa deficitária, ao ponto de ser imperioso entrar em pormenores. Kane vagueia por um trilho, onde é ultrapassado por uma carroça, cuja família declina acompanhar. Na manhã seguinte, é surpreendido por salteadores e agredido, sendo encontrado pela dita família, que o mais provável seria já estar a inúmeros quilómetros à sua frente. Essa família é atacada pela horde do feiticeiro, a filha raptada, o pai e o filho assassinados e a mãe sobrevive, com o marido nos braços, que antes de expirar obrigou Kane a jurar-lhe que lhe traria a filha sã e salva. Ele promete e abandona a esposa com o marido moribundo nos braços. No final do filme, após salvar a filha, o narrador não participante informa que a filha foi restituída à mãe, mas cabe perguntar como, já que nem Kane sabia onde estaria a mãe, nem esta onde ele e a filha se encontrariam. Além disso, ter salvo a moça, aparentemente, foi suficiente para limpar a maldição da alma de Kane, o que, aparentemente, é mais importante para Deus do que um ano de rezas. São estes facilitismos que não abonam a favor deste embuste, drama aborrecido que tenta passar por aventura de espadachim e feitiçaria, forrada a efeitos visuais injustificadamente (o orçamento foi de 40 milhões de dólares), ao nível do videojogo (o confronto final, com um monstro tão lento quanto gigante, é decidido sem um arranhão).

Michael J. Bassett, responsável pelo argumento e pela realização, prova que boa vontade não é know how. No currículo, trazia dois filmes de terror de baixo orçamento, Deathwatch (2002) e Wilderness (2006). James Purefoy, actor habituado ao pequeno ecrã (séries Roma e Filantropo), ajusta-se ao papel de Kane, mas o personagem não passa de duas caretas: «sou do piorio» e «sou muito pio». Max von Sydow e Pete Postlewaithe são mal empregues, assim como a presença de espectadores na sala.

Solomon Kane 2009
0 Comments:
Enviar um comentário
Links to this post:
Criar uma hiperligação
<< Home