Homem de Ferro 2, de Jon Favreau
Jon Favreau, Robert Downey Jr e Gwyneth Paltrow voltam aos seus postos, com Terrence Howard a ficar pelo caminho. Não há uma versão oficial para a troca por Don Cheadle, mas o mais fidedigno dos rumores aponta as incompatibilidades com o realizador, que o obrigou a repetir inúmeras cenas e lhe cortou ou encurtou as restantes. Mickey Rourke é o novo vilão e Scarlett Johansson a incógnita Viúva Negra (Emily Blunt teve de desistir por questões de agenda), aqui a trabalhar para a SHIELDS de Nick Fury, um Samuel L. Jackson que assinou contrato para saltitar o papel por nove filmes.
Homem de Ferro (2008) foi uma lufada de ar fresco no reino dos super-heróis. Robert Downey Jr. apresentava um vigor inesperado e a história equilibrava a credibilidade do elemento humano com a espectaculosidade da fantasia aventureira. A sequela deriva de uma ideia de Favreau e Downey, baseada no comic Demon In A Bottle, onde Tony Stark sucumbe ao álcool e à depressão. O argumento é de Justin Theroux (Tempestade Tropical, 2009), recomendado por Downey (que representou nesse filme).
A versão celulóide é mais light que o comic, como convém, e até apresenta, a seu favor, uma lógica interna consistente. Stark inicia um percurso descendente, rumo ao fundo da garrafa, porque a fonte de energia que utiliza para fazer bater o seu coração está a afectar-lhe a saúde e a esperança de vida. A alimentar-se da sua decadência estão todos os que o rodeiam, tanto mais que a sua recusa em entregar a tecnologia Ironman ao Exército acaba de ficar sem argumentos. Uma mistura de Whiplash e de Dínamo Vermelho surge em cena, pronto a eliminar ou desacreditar o egocêntrico herói, e o oportunista e concorrente de Stark, Justin Hammer, aproveita os conhecimentos científicos deste para criar um exército de drones que se vira contra o feiticeiro. War Machine ajuda o Homem de Ferro na batalha final, mas ele é mais parte do problema do que da solução.
Infelizmente, Homem de Ferro 2 arrasta a narrativa e não capitaliza na acção. Mickey Rourke é um erro de casting sempre que se procura algo mais do que um mero bruto desmiolado, e o seu retrato de Ivan Vanko é anedótico quando nos querem convencer que este envelhecido monte de tatuagens é um cientista brilhante, capaz de rivalizar com Tony Stark. Para além disso, o seu personagem é mantido demasiado na sombra durante todo o filme e pedia-se mais subtileza ao personagem, já que era suposto ter cérebro e um plano maquiavélico em desenvolvimento. Sam Rockwell é outro que mastiga pão duro em vez de uma bela chamuça picante. O seu personagem, Justin Hammer, devia ser um homem de negócios astuto e manipulador, mas não passa de um idiota ingénuo, capaz de engendrar um plano para tirar Vanko da cadeia mas não supervisiona o importantíssimo trabalho deste nos seus modelos de guerra, o que acaba por fazê-lo perder o controlo sobre o resultado desse empreendimento.
Grande parte da desilusão de Homem de Ferro 2 prende-se igualmente com a pobreza dos efeitos visuais, algo que o próprio realizador reconheceu quando, após ponderar a utilização de câmaras IMAX, temeu que o CGI não convencesse a tal alta definição. Nem sempre os movimentos do Homem de Ferro parecem ter um esqueleto no seu interior, aproximando-se por vezes do fantoche, e os voos a alta velocidade não passam de nódoas no ecrã. Assim, a acção resume-se a três cenas, a primeira das quais na pista de Formula 1 de Monte Carlo (caracteriza-se mais pelo ambiente de tensão e expectativa do que propriamente pela acção), a segunda é um pugilato flácido entre um bêbado e o amigo que só quer imobilizá-lo e não agredi-lo (já se sabe que não sairão daqui grandes mossas) e o mais aparatoso final (que, eventualmente, não passa de robôs a voar e muitas explosões).
Nenhum desses segmentos ficará para os anais, muito mais depressa ficando na memória a luta do Homem-Aranha com o Dr. Octopus em Homem-Aranha 2 (2004) ou do Hulk com o Abominável em O Incrível Hulk (2008), só para referir dois exemplos. Scarlett Johansson tem uma curta oportunidade de brilhar como heroína, mas os seus rodopios farão bocejar quem ainda recorde a projecção de Jessica Biel em Blade 3 (2004). As sequências de acção foram encenadas (storyboards) pelo animador Genndy Tartakovsky (realizador de desenhos animados como Dexter’s Lab, Powerpuff Girls, Samurai Jack e Star Wars: Clone Wars).
Foi editada uma oportunista e falsa banda sonora com quinze faixas de antologia dos AC/DC, mas apenas duas dessas canções se reconhecem no filme: Shoot To Thrill e Highway To Hell. Back In Black ouviu-se no primeiro filme. John Debney, o compositor que sucedeu a Ramin Djawadi (Iron Man, 2008), compôs a banda sonora em quatro dias, com o apoio de Tom Morello (Rage Against The Machine e Audioslave), considerado pela revista Rolling Stone o 26º maior guitarrista de sempre.
Iron Man 2 2010
O Evangelho Segundo Cinéfilo
3 Comments:
Raros são os casos em que a sequela é melhor do que o primeiro filme. Não acho que Mickey Rourke e Sam Rockwell tenham estado assim tão mal. Concordo que se esperava mais deste «Homem de Ferro 2», mas não deixa de ser um filme bom para ver.
olá, Isabel.
O Mickey Rourke só é capaz de fazer papeis de brutos falhados. é o caso do Wrestler, do bounty hunter da Domino e do marv do Sin City. Como cientista, com aquele visual, é hilariante. O mal do Sam Rockwell é parecer um totó. O Hammer original é mais parecido com o Jeff Bridges do 1º Iron Man. Este Hammer do Rockwell é um tapado, porque comporta-se como um palerma e o vanko faz o que quer dele.
Eu adorava o Mickey Rourke do início dos anos 80. O Ano do Dragão, 9 Semanas e 1/2 ou o Body Heat com a Kathlyn Tuyrner e o William Hurt. E no Diner, um filme de ensemble. Ele tinha estilo, charme, um certo ar de fragilidade e sabedoria de rua. Depois meteu-se no boxe e foi o fim. Da cara e do estilo.
O Sam Rockwell é como o Sansão. Quanto menos cabelo, menos talento. Ainda me lembro dele no 1º filme do Clooney, Confessions of a Dangerous Mind, que gostei bastante. No Choke já está muito anedótico. Duvido que o nº de mulheres com quem foi para a cama nesse filme fossem realmente para a cama com o personagem se ele tivesse o aspecto do actor.
errata: kathleen turner
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